Muito mais que São João, o Nordeste

Henrique França
@RiqueFranca

No “arraial de promoções” da publicidade, tudo muito bonito, maquiagem perfeita, mas nada convincente. Há, na verdade, uma linguagem forçada com pretensões a valorizar os festejos juninos, o Nordeste, sua cultura e sua gente. Mas a única valorização da linguagem midiática publicitária e suas peças bem produzidas (nem todas) é a da boa venda, do lucro. Coisa que está muito aquém do verdadeiro valor que a identidade cultural do Nordeste possui.

    Alguém certa vez perguntou de onde vem essa força de resistência da cultura genuína diante do bombardeio de quinquilharias musicais e visuais adotadas como um filho prodígio pela grande mídia. A resposta está na motivação. Cultura nascida e criada a partir de interesses familiares, de laços geográficos, da coisa da terra, dos cheiros da infância, dos amores adolescentes, da reunião de amigos, supera em força, em enraizamento, aquela forçada por interesses externos, não raro escusos.

    Não à toa modismos musicais criados pela chamada indústria cultural são tão passageiros quanto o período de peças publicitárias juninas. Têm data e endereço certos. A música, a dança, trajes, trejeitos e adereços (especialmente os que ornam as idéias) do Nordeste, genuinamente, são atemporais e universais. Trata-se de uma manifestação nascida da terra, da plantação, do aboio do gado e da dicotomia miséria/sofrimento/seca e espontaneidade/solidariedade/alegria de um povo forte.

    Parte disso, porém, pode sofrer avarias. Muito mais do que a grande mídia, o mercado, a indústria cultural, a culpa dessas ranhuras na permanência do que somos, como Nordeste, está no nordestino. São homens e mulheres que podem fazer perpetuar cada som, cada dom de semear em terra seca uma canção e uma imagem sem igual. Deixar passar essa oportunidade de levar adiante o que somos como nação (nação nordestina), muito além de um período junino, seria uma tristeza só.

    A cultura do Nordeste, aquela que Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos levaram – este ainda leva – mundo afora derruba as porteiras datadas do São João, dos festejos ligados a esse momento. E isso deve ser naturalmente vivido pelo nordestino, repassado de geração a geração. Não como uma obrigação, mas como uma espécie de DNA cultural, antropológico, um legado de prestígio, que só quem conhece de perto sabe o que significa.

    Momento bom e importante esse do São João, sem dúvida. A chegada de tanta gente de outros estados e países ao Nordeste dá brilho à festa, traz fartura também para as cidades, para o comércio, para a máquina econômica que precisa manter sua engrenagem atuante. Faz-se necessário mostrar com mais veemência, sim, plantar no coração do turista essa semente, deixar que ela enraíze e se espalhe, como um fruto bom. Porém, só há uma forma de oferecer algo assim: tendo esse algo dentro de si, certeiro e enxertado de orgulho, firme como o solo sertanejo, cheio de boa água como o xique-xique.

    O São João está aí. Um feriadão para curtir. Vamos provavelmente nos valer dessa tradição e encher o espírito de alegria, descanso, reencontros e boas histórias. Memórias criadas de um povo. Bom seria podermos retribuir tanta cortesia desse saber-se nordestino, desse entendimento do que é conhecer esse lugar, esse recanto do Brasil marcado pela musicalidade do pôr do sol, dos mares e pelo silêncio de quem se encanta com toda essa vida que pulsa no Nordeste.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 22 de junho de 2011

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