Subversão interiorana

Henrique França
@RiqueFranca

No último feriadão – ou parte dele – a família pegou a estrada e seguiu rumo ao interior do Estado. Nada como participar dos festejos de São João em uma cidade pequena, longe da Capital, mas daqueles municípios sem carros de som pelas ruas, aquelas motos barulhentas, aquele cheiro de meninos e meninas filhos de ricos que singram as estradas interioranas em busca de aventura, bebedeira, brigas infantis e, não raro, fatalidades. Por isso, a melhor opção seria ir além, rumar até um sítio simples, pequena propriedade, sem luxo, longe da “pista”, perto do curral.

    Parece bucólico, mas excede a linguagem romanceada. Ali, no meio daquela gente considerada pobre, que vive em condições ditas precárias, uma riqueza sem igual massacra nossa pseudo-riqueza urbana; aquele jeito alegre de ver o mundo – a começar pelo nascer do sol, sempre testemunhado – deveria deixar sem graça meio mundo de modernos, descolados homens e mulheres da cidade. Não que a cidade seja má, mas quantas vezes olhamos para o outro, o diferente, o homem do campo, o “caipira”, “matuto”, com ar de superioridade? Quanta inocência.

    Ali, no sítio de terra batida, propriedade esverdeada pelo período chuvoso – mesmo com a lembrança da estiagem severa e a certeza de uma nova temporada sem chuvas -, o verdadeiro sentido dos festejos juninos se encontram. Todos os pratos da culinária dessa época em farta quantidade, cozinhada em fogão de lenha, fumaça pela casa, panelas mil e um bom humor que qualquer dona de casa urbana nunca entenderia. Ali, tudo é muito mais do que parece: comida é confraternização, reunir a vizinhança é um evento, pois cada um mora a quilômetros de distância.

    A noite de São João traz consigo as vozes da religiosidade, as ladainhas, um “viva São João” bem mais fervoroso no plano espiritual do que festivo-carnal. Os foguetões que sobem rumo às estrelas são, acima de tudo, para lembrar aos vizinhos que ainda não chegaram que a celebração começou. Crianças correndo em volta da fogueira, os cantos sem instrumentos, apenas as palmas em sons ou voltadas para o céu, em busca da bênção. Palavras soltas agradecem pelo ano, pela colheita, lamentam que a cada ano menos pessoas estão se achegando para agradecer e buscar a Deus, comentam, durante a celebração, o infeliz episódio de dois de seus filhos vítimas da violência sofrida na cidade, durante uma festa.

    Fim de festa, as pessoas voltam para suas casas, sumindo na escuridão da noite, estrada adentro. No dia seguinte, fogueira ainda em brasa, tudo de novo: retirar o leite, apartar o gado, dar comida aos animais, verificar a lavoura. E ali, tudo parece subverter o que tentamos construir como correto: um menino de dez anos aboia o gado como poucos vaqueiros experientes. Os olhos do pequeno brilham ao subir no cavalo e cumprir a sua sina da manhã. Trabalho infantil ou aprendizado passado de pai para filho? Foi a primeira coisa que veio à cabeça, não sem antes achar a cena de uma beleza extrema – não pela ofício em si, mas pelo sorriso da criança em sentir-se tão poderosa no domínio dos animais.

    E a fogueira, crime ou desrespeito ambiental ou simplesmente uma parte da lida do homem do campo transformada em adorno para São João? A intenção, ali, vale mais do que a lei e a nossa mania de determinar que uma ação, seja onde for, significa a mesma coisa. Acender fogueira no sítio é, isso sim, a lei. Pois ela vai além do adorno, torna-se instrumento que aquece os visitantes, onde o milho é assado e por onde o local da novena e da festa ganha sinalização em labaredas. A vida no interior, mais especificamente no campo, subverte o nosso ritmo de trabalho, nossa mania de colocar o ofício como meio para ganhar dinheiro e não para se divertir, para se sentir forte, mais perto da natureza, para agradecer a dádiva de estar vivo.

    O fogão a lenha, o som do vento assanhando o capim, o barulho dos animais, as crianças aboiando o gado, o gado sem pressa, a pressa somente na hora de soltar o sorriso largo. O campo subverte nossa mania de urbanidade. Mais do que isso, mostra que estamos longe da tão buscada qualidade de vida – e isso vai muito além da localização geográfica, recai no jeito simples e respeitoso de olhar o mundo.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de junho de 2011

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3 responses to this post.

  1. Vontade de ir correndo pra esse lugar….Texto envolvente e encantador 😉

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  2. Quando a força do verde do roçado,
    Deixa as almas repletas de esperança
    Devolvendo alegria e confiança
    Ao Nordeste pra sempre ameaçado
    Quando o cheiro do milho cozinhado
    Denuncia a fartura no fogão
    E o forró toma conta do salão
    E a riuri estremece a redondeza
    Sertanejo não sabe o que é tristeza
    Eu me sinto mais filho do Sertão

    Quando a roça se metamorfoseia
    Através dos milagres da fartura
    Milho verde, feijão, fava madura, melancia
    Que a casa fica cheia
    Quando invés de bater na porta alheia
    A pobreza divide o próprio pão
    Um exemplo feliz de gratidão
    Que os poetas decantam noite e dia
    Quando a vida palpita de alegria
    Eu me sinto mais filho do Sertão

    Quando os dias já nascem majestosos
    Sem a dor da miséria importuná-los
    E a mão firme na roça aumenta os calos
    Mas num será desmolando aos poderosos
    Quando Deus com seus dons maravilhosos
    Usa a força da multiplicação
    Quando a voz estrondosa de trovão
    Das riquezas do céu faz propaganda
    Quando a voz da sanfona é quem comanda
    Eu me sinto mais filho do Sertão
    ___________

    (Trecho declamado na música “A volta da Asa Branca”, executada pela banda recifense Fim de Feira)

    Maravilhosa poesia!

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  3. Posted by Pianista on 27 de julho de 2011 at 12:06 am

    Você escreve de maneira muito envolvente! Acredito que somos muito inocentes quando pensamos que os “matutos” são mais matutos do que nós. Isso porque creio que eles experimentam a vida de forma mais real. Eles respiram a natureza, vivem sem as pressas espetaculares do pós-modernismo e conseguem sorrir com a simplicidade. As pessoas da cidade compreendem que ser “matuto” é sinônimo de “desconhecimento”, de “ignorância”, é não saber como a vida moderna funciona. Mas será mesmo que são eles que deveriam ser chamados de “matutos”? Os moradores da cidade precisam aprender a filosofia do sítio, sentir o cheiro do mato, ouvir o canto dos pássaros. Talvez, sentir atitudes mais tranqüilas dos interioranos, nem que seja somente por um feriado (como citado no artigo), possa envolver esse povo da cidade, tão cansado da vida – vida que mal sabe viver!

    Responder

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