Archive for julho \30\UTC 2011

Sadismo, violência e medo

Henrique França
@RiqueFranca 

                Perdão. Esse é o título do mais novo CD de um ex-viciado em crack que atuava diretamente na recuperação de outras vítimas das drogas. Atuava, no passado, porque ontem Abner Machado Neto foi apresentado pela polícia paraibana como o homem que seqüestrou, dopou e estuprou por horas duas crianças em João Pessoa – as vítimas tinham 11 e 9 anos de idade. O caso chocou a todos, e o homem que dirigiu um “Desafio Jovem” em Sergipe e pretendia construir a Clínica 7 Passos Para a Liberdade chorou. Perdão, ele pediu.

                Os detalhes cruéis do chamado modus operandi de Abner Neto, idealizador do Projeto “Vida100Drogas”, são de revirar o estômago. “Foi um bicho quem fez isso com minha filha”, declarou o pai da última vítima, de 11 anos, violentada por 12 horas e largada em um bairro da cidade, drogada, desnorteada e traumatizada por toda a vida. Para os que conviviam com o publicitário recuperado das drogas e até então missionário da palavra de Deus – segundo ele próprio -, ele não era um monstro. Suas atitudes, agora, estão na galeria das monstruosidades dos nosso tempos.

                O ato de constranger alguém mediante violência ou grave ameaça, resultando em conjunção carnal ou prática de ato libidinoso, o tal estupro, é um dos crimes mais agressivos e debatidos no mundo inteiro. Segundo a Organização Mundial de Saúde, uma em cada cinco mulheres foi ou será estuprada. Uma estimativa alarmante, um alerta constante. Na comunidade científica, há quem classifique o estupro como uma ação natural do sexo humano. A tese foi defendida há 11 anos pelo biólogo Randy Thornhill e pelo antropólogo Craig Palmer, ambos americanos, no livro A Natural History of Rape (“Uma História Natural do Estupro”).

                Até 1975, mulheres estupradas precisavam provar que não haviam “incitado” o estuprador ao ato. Caso estivesse usando roupas justas, portando-se de modo sensual ou mesmo que não provassem que haviam tentado resistir à violência elas poderiam ser acusadas de consentimento. O argumento absurdo veio ao chão quando a feminista Susan Browmiller lançou o livro Against our Will (“Contra nossa Vontade”), onde o estupro estava ligado violência, poder e opressão do homem sobre a mulher – longe da ideia de deseja sexual consolidado.

                Mas, o que passa pela cabeça de alguém como Abner Neto, um evangelizador que visitava hospitais, escolas, igrejas, entoava cânticos de libertação, ia sozinho com seu violão aos lugares mais carentes de afeto e ali tentava levar aquilo que agora não tem: paz, confiança, consolo, esperança? O publicitário declarou uma preferência em suas vítimas: elas precisavam ser virgens. Chegou a abordar a irmã da menina de 11 anos que sofreu por horas sob seu jugo, mas abandonou a ideia quando soube que a garota já havia tido relações sexuais. Que sadismo é esse por algo tão precioso para a mulher, tão vulgarizado pelo senso comum, tão motivo de piadas e constrangimentos?

                O mais assustador é ver naquela pessoa que chorava diante das câmeras alguém que se passou por um homem de bem, um lutador contra a dependência química, uma nova pessoa. E como não? Quem são nossos amigos, vizinhos, irmãos de clube ou de igreja? Que doença é essa que de tão guardada se torna monstruosa quando revelada? Impossível refletir sobre casos como esses e não pensar no jogo de videogame japonês onde, para vencer, o jogador precisa estuprar mãe e filhas em praça pública. Não dá para dizer que não existem aos montes sites na internet dedicados às cenas mais chocantes de meninos e meninas violentados diante das câmeras, para sadismo de tantos internautas doentes e que agora apontam o dedo para o homem preso ontem.

                O assunto, se aprofundado, provoca náuseas. Choca e constrange em uma conversa detalhada. Os olhos se voltam ao chão, envergonhados. Mas quantos, com esses mesmo olhos, no seu “direito à privacidade”, fecham-se em cômodos proibidos para fixarem seus olhos sedentos sobre o mesmo sadismo e violência relatados até aqui. São apenas reflexões de uma sociedade que, no mínimo, nos desperta o medo.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de julho de 2011

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Igreja não é praça

Henrique França
@RiqueFranca

 

Uma cidade é feita de elementos essenciais para sua sobrevivência – seja como lugar de convivência, seja como sistema auto-sustentável. Por isso, é cortada por vias principais e secundárias, tomada por imóveis residenciais e comerciais, beneficiada com sistemas de transporte, esgotamento sanitário, sistemas de segurança, unidades de saúde, áreas livres de edificações, tudo focado o equilíbrio urbano.

Quando um desses itens toma o lugar de outro, vem o desequilíbrio. Ruas utilizadas como avenidas, bairros residenciais transformados em um aglomerado de edifícios, unidades de saúde de bairro que atende como em um distrito… é preciso readequar. E há decisões que precisam ser tomadas para evitar além da falta de equilíbrio urbano, o respeito aos moradores das cidades – não à toa chamados “cidadãos”.

Infelizmente, alguns líderes religiosos ainda não entenderam a necessidade do respeito ao que é comum e buscam no privilégio de seus rebanhos uma forma irregular de conquistar mais espaços. Exemplo clássico: o uso de espaços públicos, os chamados equipamentos comunitários, para a construção de templos ou imóveis ligados a denominações religiosas. O hábito do repasse de terrenos pelo poder público às igrejas tem causado insatisfação dos cidadãos e ações na Justiça.

Em cinco anos, por exemplo, foram erguidos mais de 80 igrejas e templos na cidade de João Pessoa em terrenos onde deveriam existir praças, parques e afins. Resultado: em outubro do ano passado o Tribunal de Justiça da Paraíba entrou com ações que podiam resultar até em demolições dos locais de culto. Constrangimento desnecessário se todos decidissem respeitar o espaço destinado a cada atividade.

Igreja é um equipamento social importante, mas não pode ser confundida com equipamento comunitário em sentido global – apenas no sentido estrito de comunidade doutrinária-religiosa. Não é correto, nem cristão, apropriar-se (mesmo que por doação) de um local onde deveria existir áreas de lazer, árvores plantadas, brinquedos instalados, um lugar de convivência. Um espaço comum à comunidade, vizinhança, amigos, família. Há algo mais cristão?

Pior é quando o brilho nos olhos de líderes religiosos faz disso moeda de troca – me dá um terreno e te dou um rebanho. Definitivamente não é correto. Felizmente isso tem arrefecido, mas ainda é preciso estar atento. A zona sul da cidade é o lugar mais visado pelos líderes religiosos, tanto pela expansão dessa área como pelo número de terrenos ainda livres de ocupação. Apenas no bairro do Castelo Branco, dois exemplos – dessa ocupação e suas tentativas: há alguns anos, fiéis começaram a se reunir em uma praça já existente no local. Pouco a pouco, as reuniões foram recebendo infraestrutura: cadeiras, bancos, tendas, uma pequena capela e, hoje, há no local um grande galpão com reuniões sistemáticas durante toda a semana. Repetindo: o templo-galpão está localizado literalmente dentro da praça.

Próximo dali, no mesmo bairro, uma outra área – caracterizada no mapa da Prefeitura literalmente como “equipamento comunitário” – recebeu durante a madrugada a visita de caminhões que desembarcaram ali pedras, cimento e areia. Manhã seguinte, os moradores foram informados que começara ali não a construção de uma praça, mas de um abrigo ligado a uma igreja das redondezas. Os moradores, religiosos ou não, reuniram-se e pediram, em abaixo-assinado, que a função de equipamento comunitário fosse respeitada no local. A obra foi suspensa. Para a surpresa da vizinhança, porém, há poucos meses foi feita nova tentativa de ocupar o lugar. Denúncia feita, o Ministério Público esteve no local e autuou o líder religioso e pretenso dono da obra. Até quando?

É preciso pensar no equilíbrio da cidade, assim como se pensa no equilíbrio espiritual. Não se trata de um discurso contrário a qualquer atividade, mas do respeito às particularidades. Templos são peças necessárias à arquitetura urbana. Parques públicos também. Mas, definitivamente, igreja não é praça.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 28 de julho de 2011

Sarney, Merlino e o Sigilo Eterno

Henrique França
@RiqueFranca

 “Coincidência previsível” 1: provavelmente você nunca ouviu falar no jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino. Seja porque ele atuava na região sudeste do País, seja porque ele morreu em julho de 1971. Porém, hoje, a Justiça de São Paulo voltará a tratar sobre ele, quando ouvirá os testemunhos de quem presenciou seus últimos momentos de tortura e morte por militares dentro do DOI-Codi, uma espécie de cento de traquinagens do mau instituído pelo Exército Brasileiro durante a ditadura militar. Se de um lado as testemunhas ficam no âmbito dos ex-militantes do Partido Comunista, historiadores, escritores e jornalistas próximos a Merlino, na outra extremidade que falar a favor do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra – acusado dessa e outras tantas mortes – estão três generais da reserva, e o atual presidente do Senado e ex-presidente do Brasil, José Sarney.

“Coincidência previsível” 2: depois de ouvir de  um jornalista pergunta sobre sua aposentadoria como ex-governador, no valor de R$ 24 mil, o senador Roberto Requião retrucou com a inacreditável pergunta: “você quer apanhar?” seguida de alguns palavrões nada “senadoráveis”. Depois disso, tomou o gravador das mãos do repórter, apagou a memória do equipamento antes de devolver o objeto de trabalho do profissional da imprensa e depois correu para a internet, em plena rede social, para desdenhar, debochar e esnobar o ocorrido. O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal pediu que o Senado abrisse inquérito acusando Requião de quebra de decoro. O Senado entendeu que não houve quebra de decoro – isso mesmo! Enfim, o presidente do Senado mandou arquivar o processo e deu o caso por encerrado. Seu nome? José Sarney.

“Coincidência previsível” 3: Aprovado pela Câmara Federal, o Projeto de Lei (PLC 41/2010) que propõe uma tabela temporal para abertura de documentos considerados ultrassecretos em 25 anos prorrogáveis por mais 25 anos está empacado no Senado. O argumento dos que são contrários à propositura é que a divulgação desses conteúdos poderia comprometer ou constranger o Brasil diante de outras nações. Detalhe: há entre os ultrassecretos documentos que datam do Séc. XIX, relacionados à Guerra do Paraguai! Dia desses, e isso já foi dito neste espaço, o Vaticano anunciou a abertura de parte de ser arquivo contendo, entre outros, documentos relacionados ao processo de Galileo Galilei, instituído pela Congregação do Santo Ofício. Mas o detalhe vem agora. Ao lado de Fernando Collor de Melo, um senador se opõe veementemente à abertura dos ultrassecretos, mesmo depois de 50 anos. Ele se chama José Sarney.

O fato é que não há coincidências quando o envolvimento de interesses particulares está em jogo – especialmente se esses interesses recaírem sobre gente que se considera dona de um Estado e, por que não?, de um País. Daí a previsibilidade no encontro de um mesmo nome, o mesmíssimo personagem, sempre político e poderoso, nessas três narrativas. Mas a ideia não é revelar as artimanhas de um homem público, seja ele quem for. Importante perceber que há uma tentativa de arrefecer essa vergonhosa mania de varrer para baixo do tapete não apenas as vergonhas do Brasil como até mesmo informações importantes para historiadores, estudiosos, cidadãos em geral – e que têm direito a saber sobre o passado do seu País -, sonegadas pela arrogância particular.

Não custa lembrar que o mesmo José Sarney retirou dos corredores do Senado um painel que retratava o episódio histórico do impeachment do seu colega e também ex-presidente da República Fernando Collor de Melo (“coincidência” 4: a dupla de ‘ex’ quer derrubar o Projeto de Lei de acesso à informação). Se com a história recentíssima, contada em tempo atual, o caro senador se considera no direito de burlar a memória coletiva brasileira com sua autoridade parlamentar, o que dirá daquilo que passou e está sob a guarda do Estado. O sigilo é necessário. Sua eternidade, não.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 27 de julho de 2011

Só os fracos sobrevivem

Henrique França
@RiqueFranca

 

A notícia veio por um amigo jornalista, visivelmente dividido entre atordoado e emocionado com a notícia recebida quase em tempo real. Até aquele momento, poucos comentavam sobre a morte da cantora Amy Winehouse – especialmente aqui no Brasil. Dali em diante, porém, jornais, revistas, sites, emissoras de rádio e TV do mundo inteiro massificariam o fato de modo tão obsessivo quanto forçado. Uma constelação de estrelinhas até então anônimas começou a gravitar nos noticiários em torno da estrela maior: o motorista que comprou frangos para a Amy; a costureira que ajustou um de seus vestidos e, com os retalhos, fez saias para as netas; a moça que sugeriu uma depilação bem brasileira a Winehouse, os fãs reunidos próximo a casa onde a jovem artista morreu e toda a eloqüência para reforçar a perda, a comoção, o vazio na música deixado por uma jovem de 27 anos de voz belíssima e uma terrível trajetória de vida.

Amy começou cedo na música, cantava profissionalmente aos 16 anos e tornou-se conhecida mundialmente em 2006, quando lançou o disco Back to Black. Nesse trabalho, nenhuma sutileza sobre quem era ela. “Tentaram me mandar pra reabilitação / Eu disse não / Eu não tenho tempo / E mesmo meu pai pensando que eu estou bem / Ele tentou me mandar pra reabilitação / Mas eu não vou” é o trecho de uma das canções mais tocadas de Winehouse: Rehab – ou Reabilitação, em português. Em outra faixa do mesmo disco, onde canta suas reviravoltas amorosas conturbadas – não são poucos os que apontam o ex-namorado, orgulhosamente viciado, como o pivô da derrocada da cantora -, a voz grave e debochada avisa: “você sabe que eu não presto”.

O que chama a atenção na curtíssima história de Amy Winehouse, londrina descendente de judeus que conquistou o mundo pelo exotismo de sua voz ou pelos famosos vexames, é uma espécie de legado da decadência para fãs inveterados da cantora. A ausência de alguém tão jovem e talentoso, evidentemente, causa impacto e traz a reflexão questões sobre a fugacidade da vida. Porém, há uma certa confusão especialmente entre os mais apaixonados pela estrela da música, entre a arte que emana de Winehouse e sua filosofia de vida – se é que ela tinha uma. Amy fez escolhas – e escolheu entregar-se às drogas, ao álcool, a medicamentos, à depressão, a um homem de péssima influência que a tratava com desrespeito extremo, à morte.

A própria mãe da cantora chegou a declarar que sua partida era uma questão de tempo. Apesar disso, o que se vê, apesar de todo um histórico previsível não fosse pela esperança de uma recuperação, é uma corrida aos discos, à casa da cantora, aos pôsteres, aos penteados a lá Winehouse, uma caça aos últimos minutos de Amy como se eles fossem determinar algo na vida de qualquer um. E surge, no meio desse circo montado pela indústria cultural, uma espécie de culto aos transgressores. Sim, muitos outros ícones da música morreram tão jovens quanto aquela que cantou sua não-reabilitação; a grande maioria deles por causa das drogas, todos talentosíssimos nas canções, mas nada afinados com a vida.

Talvez fosse o momento para alertar sobre a mistura fatal entre o excesso de drogas e a pouca vontade de viver. No entanto, no culto a Amy não cabem críticas diretas. O luto por uma cantora fora do comum é tão raso quanto alienado: chora-se a ausência, mas não aponta-se o dedo na ferida. Talvez derrubar a imagem de que músicos, celebridades e afins trazem em seu check list o ingrediente alucinógeno seja altamente estraga-prazer. Afinal, o que há de transgressor em um roqueiro careta, que não se pica, fuma crack ou, no mínimo, pega um baseado para encarar o público? Vale levantar a bandeira em um momento tão especial para a indústria de ídolos? Os discos de Amy praticamente sumiram das prateleiras, tributos vêm sendo negociados, até mesmo a saia da neta da costureira que ajustou um vestido da cantora agora é alvo da mídia. Pra que falar em drogas, em relacionamentos doentios, em negação familiar e depressão? Quem quer saber dos “fracotes” sentimentais, limpos de corpo e mente? Esses não entrarão no reino das celebridades.

Amy Winehouse tornou-se uma musa como Melpômene, a cantora da mitologia grega. Considerada a musa da tragédia, a mitológica mulher usava uma máscara soturna e um aspecto grave. No meio de tantos desabafos e desencantos, uma frase que ela mesma cantou: “Não aprendi muito na escola / Mas sei: as respostas não estão no fundo de um copo”. É pouco para uma estrela de brilho próprio, com intensidade duradoura, mas que escolheu ser (de)cadente.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 26 de julho de 2011

A lógica inversa

Henrique França
@RiqueFranca

 

Quem ainda se emociona ao cantar a frase “dos filhos deste solo és mãe”, parte do belíssimo Hino Nacional Brasileiro, deve perder o tom com a nossa mãe-nação quando o assunto é a proteção de seus filhotes. A prática é histórica, mas de uns tempos pra cá mamãe-brazuca corre o sério risco de ser enquadrada por abandono de incapaz pela corte internacional – isso se fôssemos incapazes.

A nossa capacidade como herdeiros da terra-brasilis é feita de extremos. De um lado, interesses de poucos comandantes aliados a gestores pactuados e divididos entre o comodismo do poder e o incômodo da reivindicação popular. Do outro lado, o povo, a massa, a população que lota as ruas, os coletivos, consome o que aqueles poucos produzem e faz a engrenagem girar. E aqui nasce a lógica inversa que ronda o País.

Ela existe no mercado, de forma geral. Alimentos, vestimentas, transporte, bens de consumo e até mesmo atitudes. Está em um simples pacote de biscoito recheado, por exemplo. Compre um e comprove: o fabricante pode colocar a quantidade de gordura trans que lhe for necessária à liga do recheado. Porém, o ingrediente pode provocar pressão alta, acúmulo de placas de gordura nos vasos e diabetes se ingerido. Questão de saúde pública, sem dúvida. Porém, diferente de países como a Dinamarca e a Suíça, onde a “trans” foi totalmente proibida, aqui permite-se o comércio do que é prejudicial á saúde e a responsabilidade da escolha fica a cargo do consumidor. Livre arbítrio, livre comércio ou livre descaso?

Não custa lembrar que existe medida da Anvisa obrigando fabricantes a informarem a quantidade da gordura ruim nas embalagens de alimentos. Mas aqui o patamar considerado “livre da trans” é um meio-livre, já que os alimentos com de 0,2 gramas de gorduras trans por porção e máximo de 2 gramas de gorduras saturadas por quantidade não já precisam alardear etiquetas de super saudáveis em sua embalagens. Resultado? Marcas ficam mais caras por “não conter” a saturada – mesmo contendo-a! – enquanto as mais gordurosas perdem valor de mercado. E a escolha novamente recai sobre o consumidor: quer comprar produtos mais saudáveis? Pague mais.

A lógica de Estado seria garantir o básico a seus filhotes: saúde, educação, segurança, lazer… mas ficamos à mercê de um “livre mercado” que subverte essa obrigação e nos coloca, como sociedade, diante de uma escolha-sem-opção. Caso semelhante ocorre com produtos chamados ecologicamente corretos. Que tal usar apenas papel reciclável? O governo incentiva seu uso, o futuro pede a nova postura, mais consciente, mas quem já comprou ou tentou adquiri-lo uma resma de reciclável sabe que o preço muda consideravelmente para mais em relação ao papel “branco”. E aí, novamente, a “escolha” do cidadão passa não pela consciência, mas pelo bolso do consumidor.

Finalmente, chegamos a um dos problemas mais graves e ilógicos da “mãe gentil”: a safra que chega à nossa mesa. A partir da gênese da questão, temos órgãos de controle agrícola que permitem o uso de venenos nas plantações de forma criminosa – tanto para a natureza quanto para quem consome esses frutos. O curioso é que o mesmo responsável pela liberação do envenenamento alerta: “evite consumir frutas e verduras com agrotóxicos”. Ou é uma pegadinha ou muita demência administrativa.

E lá vem a lógica invertida: assim como o papel reciclável, o setor de hortifrutigranjeiros “livre” de venenos compõe uma área VIP dos supermercados, bem mais caros. E quem consegue se alimentar melhor comprometendo outras necessidades básicas como a vestimenta, o transporte, o lazer? Que tipo de escolha é essa? Oh, mãe-Brasil, essa sua liberdade toda, de fato, tem desafiado o nosso peito a própria morte. Pátria amada, nos salve-salve!

Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 23 de julho de 2011

A lei pela lei

Henrique França
@RiqueFranca

                 A intenção pode até ser boa, mas a execução de certas leis anunciadas como moralizantes, redentoras de novos problemas sociais, não raro empaca na falta de conhecimento de nossos parlamentares a respeito daquilo que eles teriam como dever saber: o funcionamento da sociedade para a qual legislam. É o caso da Lei 9.432, publicada ontem no Diário Oficial da Paraíba, que prevê punição para hospitais e clínicas particulares instaladas no Estado que ultrapassarem o tempo de 30 minutos para atender seus pacientes. Isso mesmo. A partir de sua entrada em uma dessas unidades de saúde, aqueles atendentes sempre simpáticos terão meia hora, no máximo, para encaminhá-lo até a equipe médica.

Claro que isso é bom, mas é real? Funciona, ou melhor, temos condições de fazê-la funcionar? Pelo texto, compete ao Procon Estadual fiscalizar e autuar hospitais e clínicas pelo descumprimento da nova Lei. Porém, e aqui está o cerne de tantas dúvidas, o Procon da Paraíba conta apenas com seis fiscais para atuar em 223 municípios. Fazendo uma conta simples, isso significa pouco mais de 37 municípios para cada fiscal. Não são estabelecimentos, ruas ou bairros. São 37 cidades para uma pessoa tomar conta. Como fiscalizar? Como fazer cumprir a lei, nessas condições?

Não se trata, em momento algum, de uma postura negativa em relação à intenção da nova Lei. Mas de uma reflexão sobre como esse instrumento de cidadania pode ser melhor explorado e efetivamente utilizado. Tomemos como exemplo outra lei, igualmente tão justa quanto complicada em sua aplicação: a Lei das Filas. Qualquer usuário de banco sabe o quanto a limitação do tempo em 20 minutos naquelas filas exaustivas merece cada palavra do texto legal. Porém, nem toda sorte de palavras lançadas à gerência, funcionários, órgãos de fiscalização e mesmo à imprensa tem conseguido moralizar o abuso.

Os bancos, não muito diferentes das unidades hospitalares privadas, são riquíssimos e fartos em lucratividade ascendente. Porém, na curva que aponta o retorno de investimentos no atendimento básico a seus clientes/pacientes – razão de sua existência, vale enfatizar -, há um declínio raso e desrespeitoso. Daí as imensas filas, apesar de um ‘agendamento’ para ser atendido, a uma sensação de que a unidade bancária está fazendo um imenso favor àquele povo todo incomodando funcionários e prejudicando a temperatura das centrais de refrigeração.

Tão frio quanto o clima no interior dos bancos é o atendimento, mesmo que não generalizado, em clínicas e hospitais. São tantas coincidências que não haverá surpresa quando a aplicação da lei que dá um prazo limite para atendimento seguir direto para a UTI. Outras questões: o número de médicos contratados é suficiente para a demanda? E se houver pressão da direção dessas unidades para que as consultas tenham tempo determinado, exames sejam feitos de forma mais apressada, a agilidade no horário não representará riscos de negligência médica não-intencional?

A Lei é boa, tem direcionamento certo, mas se não for bem adequada – o que não significa “flexibilizada” aos infratores – pode se tornar uma nova Lei das Filas, ainda inócua e risível para os bancos. Afinal, alguém já viu uma unidade bancária pagar multa pesada pelo desrespeito a que se prestam? Aos legisladores, vale pensar em unir forças com órgãos de defesa do consumidor municipais e até mesmo conselhos, sindicatos e associações de profissionais de saúde. Ao usuário/cidadão/paciente, e bote ‘paciente’ nisso, vale esperar a efetivação da lei, exigir seu cumprimento, denunciar abusos, fazer cumprir o novo direito. A nova lei é boa. Oxalá não se torne uma nova decepção.

Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 22 de julho de 2011

Cartão-calamidade?

Henrique França
@RiqueFranca

 

Estratégias a parte, o anúncio do governo federal sobre a adoção de um Cartão de Pagamento da Defesa Civil destinado a despesas com assistência aos desabrigados e desalojados em conseqüência das chuvas é no mínimo delicado. Primeiro porque a novela do uso de cartões corporativos pela própria administração federal já foi assistida pelos brasileiros – e a trama beirou o drama pastelão. Quem não lembra vale reprisar as cenas do ministro dos Esportes Orlando Silva devolvendo seu “magnético” para não entrar na CPI dos Corporativos e a ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, que passou vexame depois de pagar quase R$ 3 mil com dinheiro público para despesas durante as férias.

Pois bem. Agora, a administração pública federal retoma a prática dos cartões como forma de sanar com rapidez o problema de quem perdeu tudo ou boa parte dos bens durante inundações e desmoronamentos. O cartão de débito será emitido aos estados e/ou municípios em situação de emergência ou calamidade pública reconhecida pela Secretaria Nacional de Defesa Civil. O problema vem agora: o pequeno magnético será emitido em nome de um gestor, pessoa física, que ficará responsável pela compra de alimentos, remédios, roupas e outras despesas aos desabrigados.

Aqui o alerta do brasileiro vai ao nível máximo. Ora, ora, se o uso desses cartõezinhos de retirada de benefícios (leia-se bolsa família e afins), relativamente muito mais controlados, com a adoção de cadastros de cada beneficiário e recadastramentos o ano todo, está eivado de irregularidades, falcatruas; se tem gente com mansão retirando cinquenta reais com seu ‘bolsa-família-card’, se o velho e vergonhoso “jeitinho brasileiro” credencia charlatões que sugam o dinheiro dos próprios impostos, o que dizer de uma estratégia que coloca o repasse integral de verbas para toda uma população maltratada, em sua maioria pobre e longe dos ideais de cidadania, nas mãos de uma pessoa só?

Não se trata de pura desconfiança, mas da não aceitação popular pela fiança alheia. Afinal, quem acaba pagando pelo mau exemplo dado a quem não usa bem o cartãozinho somos eu e você. Vale lembrar a fala do ministro Jorge Hage, da Controladoria Geral da União, a respeito desse tipo de cartão: “o saque sempre foi um dos problemas porque anula a transparência que o cartão proporciona”.  Aprendemos? Parece que não. O que se espera, caso o Cartão de Pagamento da Defesa Civil seja mesmo adotado, é que, passadas as chuvas, não sobrem para o brasileiro apenas as marcas de uma gestão do dinheiro público equivocada, enlameada.

 

Agressores livres

Não bastasse a liberação, pela justiça, de um dos acusados confessos de agredir pai e filho durante uma feira agropecuária no interior de São Paulo – apesar da polícia pedir a prisão preventiva -, ontem um novo suspeito se apresentou e também confessou participação no crime. A dupla de agressores e outros dois ainda não identificados são acusados de surrarem pai e filho simplesmente porque ambos estavam abraçados e foram tidos como homossexuais pelos criminosos. O pai não apenas trouxe no corpo hematomas como teve parte da orelha decepada. O saldo, até agora, é ridículo: os dois suspeitos confessos tiveram prisão preventiva negada pela Justiça. Se continuar assim, vão acabar prendendo pai e filho por um abraço considerado atentado ao pudor.

Em tempo: até agora, ninguém dos “movimentos” LGBT e religiosos apareceu para propor algo decente em protesto ao ocorrido na feira agropecuária. Será que o fato de pai e filho não serem homossexuais e, ao que tudo indica, não freqüentarem nenhuma igreja arrefeceu os ânimos geralmente tão exaltados?

 

(*) Texto publicado na Coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 21 de julho de 2011