Perigos da discordância

Henrique França
@RiqueFranca

    Se na atual conjuntura do estado democrático Brasileiro você optar por discordar de algo, cuidado! Tudo o que você disser pode ser usado contra você no futuro como se um pensamento, uma idéia, uma postura acerca de algo fosse imutável como uma viga de concreto que sustenta o status quo opinativo tupiniquim. Exemplos não faltam: hoje em dia é proibido discordar de um gestor público ou suas ações, de um movimento social (especialmente se ele estiver inserido no universo das ‘minorias’), de programas assistencialistas federais, da postura de um craque de futebol que se portou de forma vergonhosa em gestos e palavras, da inclusão de frases que causam estranheza a nosso aprendizado da língua portuguesa-brasileira, enfim, há perigo em discordar de quase todo assunto em evidência na mídia – especialmente se o discurso midiático já tiver dado seu direcionamento acerca do tema.

    No olho do furacão dessa linha tênue entre quem discorda e quem é inimigo é a chamada Lei da Homofobia. Um Projeto de Lei que poderia ser cada vez mais amplamente debatido, esclarecido, flexibilizado se preciso, tornou-se espada e escudo forjados por políticos, líderes religiosos e cabeças de movimentos sociais manipuladores. Um tapete vermelho onde desfilam a empáfia e o interesse acima da boa informação – melhor ainda, da formação -, um discurso de agregamento e não agregador, um clima de acareação mesmo entre cidadãos, nas ruas. Você é contra ou a favor? De fato, pouco importa o porquê em resposta à questão. Apenas responda sim ou não e engrosse as fileiras estatísticas dos que são ‘pró’ ou ‘anti’. Pior: se alguém ao menos titubear na resposta, leva de imediato o rótulo – homofóbico, se for contra; herege, se for favorável.

    Outro risco sério é discordar de uma ação parlamentar. Senso comum, se alguém se levantar para dizer “não concordo com essa ação, Vossa Excelência” terá a frase traduzida em algo como “sou contra você, partidário do outro lado da trincheira”. Vergonhoso como estamos conduzindo – ou nos deixando conduzir – nessas questões. Ora, se qualquer um discorda de pai e mãe, de amigos, colegas de trabalho sem que isso signifique aversão à pessoa em discordância, o que teriam nossos caros parlamentares e/ou gestores de mais especial do que esse universo social básico, adotando a postura de Luis XIV, da França… L’Etat C’est Moi?

    Recentemente, a inserção de frase do tipo “os carro mais interessante estão emprestado” em um livro didático do Ministério da Educação causou fuzuê entre lingüistas, juristas, alpinistas e surfistas. Novamente, discordar pegou mal. Preconceito!, acusaram os defensores da novidade. Enquanto isso, os ‘preconceituosos’ afunilaram o debate apenas na tentativa de ridicularizar o material, chamado ironicamente de “Por uma vida melhor”. Alguém se dignou a parar o embate e explicar o conceito, o porquê dessa liberdade extremamente coloquial em um livro oficial? Por outro lado, alguém quis ouvir e abrir-se à explicação?

    Pois a discordância é salutar, faz crescer e nos dá lições muitas vezes inesquecíveis. Fazer do olhar diferente do outro uma ameaça é, no mínimo, de uma postura ortodoxa fundamentalista chinfrim. É no debate – não no embate – que aprendemos a ouvir (e para isso temos que ouvir) e a falar. Quando discordo de algo, no geral, estou precisando muito mais de subsídios para entender melhor o assunto do que simplesmente construindo um muro de negação ao que foi colocado. E, se no final de tudo, a discordância ainda prevalecer, que assim seja. A concordância não pode faltar, jamais, no respeito ao espaço do outro – espaço de manifestar-se, de colocar-se, de arriscar uma opinião e ouvir contraargumentos. Há que se concordar que, assim, seremos muito mais democráticos, muito mais sensatos, muito mais humanos. Concorda?

(*) Teto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 1º de julho de 2011

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2 responses to this post.

  1. Adorei o texto e infelizmente não tenho nada para discordar dele.
    Realmente o que acontece hoje é um levantar sem fim de bandeiras. O problema é que nem todo assunto quer ter sua bandeira levantada.
    Ou se está do lado de lá ou se está do lado de cá e quem não está nem lá e nem cá se vê perdido no meio dessas marchas a favor de qualquer coisa.
    Ainda prefiro o questionar o sim e o não… isso é ser um “em cima do muro” ?
    Whatever…

    Responder

  2. Posted by Pianista on 27 de julho de 2011 at 12:30 am

    Com certeza! Isso vale para tudo na vida. Quem não sabe ouvir, não sabe argumentar. Quem não ouve, não compreende as ideias diferentes, o porquê delas. Quem não ouve, não respeita o próximo e quebra todo vínculo de paz que poderia haver. Qual o problema de discordar? Qual o problema de haver mais de uma opinião sobre o assunto? No mundo não há iguais, mas há diferentes: todos são diferentes. Quanto mais ouvimos opiniões divergentes das nossas, mais raciocinamos de maneira mais ampla, o que não nos obriga a concordar com o outro. Portanto, não há dúvidas de que quanto mais ouvimos os diferentes, mais crescemos em conhecimento.

    Responder

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