Quem precisa de um Conselho desses?

Henrique França
@RiqueFranca

 

Ele nasceu no final dos anos 1970, parido pela pressão de uma espécie de censura anunciada sobre a propaganda brasileira. Para evitar que toda peça publicitária passasse pela aprovação prévia de uma entidade ou algo do tipo, o hoje consolidado Conar (Conselho e Autorregulamentação Publicitária) surgiu. Toda essa história, bonita e bem colocada na história da mídia tupiniquim, agora parece contrastar com o slogan presente no site do Conselho: “Ética na Prática”.

Na prática, o Conar vacilou em uma de suas últimas decisões sobre uma denúncia feita pelo Instituto Alana – que desenvolve o projeto Criança e Consumo – contra comercial do Mc Donald’s exibido durante o trailer do filme Rio. No comercial, segundo o Instituto, a multinacional de alimentos “promove distorções psicológicas nos modelos publicitários e no público-alvo […] A peça promove, além do lanche, oito brinquedos infantis colecionáveis, adquiríveis por meio de combo, mesclando assim realidade e ficção”. E mais, segundo o Instituto: “no comercial do anúncio denunciado, não é necessária a exibição explícita de todas as opções de combo ‘McLanche Feliz’ para identificação de ocorrência de publicidade de alimentos e bebidas de baixo valor nutricional” – e segue seu argumento.

A lista de motivos pedindo a suspensão da peça publicitária segue, estejamos em acordo ou não (você pode ler todo o documento em www.alana.org.br). O problema está no ‘como’ o Conar e sua “ética na prática” tratou a situação. Em seu parecer, o relator Ênio Basílio Rodrigues não só desmerece a denúncia como ridiculariza a petição do Instituto Alana. Apesar de abrir o seu relatório com o formal “Exmo. Sr. Presidente da 1ª Câmara do Conar”, Ênio Rodrigues despenca no trato e confunde linguagem coloquial com má colocação de palavras e termos em um documento que deveria ser levado a sério.

Para se ter uma ideia do desrespeito, o relator começa comparando o Instituto Alana a uma figura do mau: “a bruxa Alana, que odeia criancinhas”, brinca sem graça Ênio Rodrigues. Mais do que isso, o relator admite a ligação entre a má alimentação das crianças norteamericanas e a obesidade – fato apontado na denúncia do Instituto. Porém, novo absurdo do relator: “Sim, come mal o americano e isso produziu muitos obesos. Entretanto, essa base alimentar também produziu os melhores violinistas, escritores, bailarinos, jogadores de basquete, cientistas e fuzileiros navais”. Pode parecer exagero, mas a comparação do relator é tão ridícula quanto dizer que os nazistas mataram muita gente, mas promoveram o progresso científico, por exemplo.

Diz mais, Ênio Rodrigues: “A sociedade escandinava fez da ética um tédio onde as comunidades, por não ter em que votar, em que escolher – pois já têm tudo o que precisam – votam pela proibição da propaganda de brinquedos para crianças. Uma atitude bem luterana – crianças não devem ficar pedindo coisas, enchendo o saco, chama a tia Alana”. E: “A criança azucrina os pais por causa disso? Claro que sim! Crianças foram feitas para azucrinar e para isso existe, quando necessário o famoso NÃO!, sem precisar ameaçar chamar a bruxa”, segue o texto tão pobre em criatividade que envergonharia o mais recém-formado publicitário. “O Alana não tem o direito de decretar a hiposuficiência da família nos cuidados com os filhos, não tem o direito estalinista de tomar para si a gestão das crianças e de formatar seus hábitos.”

Muito mal representado, o Conar transformou um caso simples de veredito em notícia que o desabona no sentido de Conselho que busca o respeito ao consumidor e à ética. No que tange este último ponto, o relator do processo chega ao absurdo não apenas de achincalhar um Instituto como levanta a bandeira do palhaço Ronald McDonald’s em seu grau máximo. Suas palavras: “McDonald’s não é vício, é aspiração.” O texto é pior, bem pior. Chega mesmo a sugerir que o Brasil tem sido beneficiado, em seu combate à fome, com essa possibilidade de mais gordurinhas entre os pequenos brasileiros. “Da mesma forma que Suécia e Dinamarca têm por base evitar que suas crianças de olhos azuis fiquem gordinhas, o Brasil tem por base acabar com a desnutrição dos nossos meninos moreninhos”.

Finalmente, o que temos eu e você a ver com o assunto? Em uma palavra: futuro. Quem tem filhos deve estar de olhos arregalados com as palavras do senhor Ênio Rodrigues e a aprovação de seu discurso pelo Conselho de Ética do Conar. Quem ainda não os tem, deveria ficar alerta. O Instituto Alana tem conquistado respeito na defesa do que atinge as crianças brasileiras com sua forma minimamente séria de atuar. Trata-se de uma iniciativa que congrega, entre outros, pais e mães preocupados com o futuro de seus pequenos. O Conar parece não se importar em mostrar-se nu diante da defesa do próprio gueto. E mais: parece mesmo ter suas preferências nesse mercado de “aspirações”.

Quem conhece o trabalho do Alana – ou pelo menos assistiu ao documentário “Criança, a alma do negócio” – sabe a importância de se debater a publicidade voltada para o público infantil. É preciso regulamentar, debater, aconselhar e agir com ética. Nunca achincalhar e achar que tudo não passa de um brainstorm, que uma peça de avaliação de um órgão que se diz ético pode ser transformada em rascunho de frases forçadas como uma propaganda mal feita. Vale ler o relatório, vale conhecer o trabalho do Instituto Alana e colocar tudo na balança. Por enquanto, fica a pergunta: que tipo de Conselho precisamos?

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 6 de julho de 2011

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6 responses to this post.

  1. Acho essa uma questão muito séria, de fato. Não é de hoje que me interesso pelo assunto. Até porque já fui uma pequena vítima dessa coisa nojenta que é a publicidade para o público infantil. O Instituto Alana tem todo meu apoio, sou admirador do trabalho deles desde os idos de 2007, quando voltei minha atenção pra essa questão, abordando-a em meu programa final da disciplina de radiojornalismo no curso de Comunicação da UFPB. As coisas não podem ficar assim como estão. Odeio essa sensação de que parece que as pessoas estão hipnotizadas diante das coisas mais graves e absurdas da sociedade.

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  2. Parabéns, Henrique, por você estar sempre atento aos casos que são ocultados de nossos olhos e ouvidos, e por nos tornar conscientes dos fatos. Assim podemos ser voz ativa nessas discussões. Se dependesse de mim, todos os comerciais desse gênero seriam banidos.

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  3. Meu caro Douglas. Bom demais compartilhar assuntos tão sérios e perceber olhares atentos a eles, a crítica a um sistema escamoteado em “moderno” ou “livres” demais. O Instituto Alana é seriíssimo e merece nosso respeito como pessoas que olham para o futuro desse país. OBrigado por sua visita e comentário ao blog.

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  4. Eu nunca vi com bons olhos a maioria das ideias de autorregulamentação. No caso da publicidade, principalmente. Acho que é restringir a quem faz as cagadas o direito e o dever de corrigir distorções que atingem toda a sociedade. Tenho acompanhado o trabalho do Instituto Alana e sei que é sério. Mas, mesmo que não fosse, uma resposta infantil e mal fundamentada como aquela só reforça minhas más opiniões sobre o Conar.

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  5. […] vamos receber e comentar os posts que vocês fizerem sobre o assunto.Já tem gente participando.O Henrique França colocou uma questão importante:  “Que temos eu e você a ver com o assunto? Em uma palavra: […]

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  6. Posted by Arlindo Porto on 7 de dezembro de 2011 at 12:58 pm

    para quem ainda não viu: McDonald’s é convidado a explicar denúncia de trabalho escravo: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/994109-mcdonalds-e-convidado-a-explicar-denuncia-de-trabalho-escravo.shtml

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