Mulheres em campo, homens no vestiário

Henrique França
@RiqueFranca

 

No jogo entre sexos a coisa é sempre complicada. De um lado, homens com sua ‘cultural’ mania de olhar e tratar as mulheres como objetos; do outro, mulheres sempre querendo mais sensibilidade e proteção, aliado a independência e objetividade. Nada fácil, mesmo. Há uns bons anos a sociedade moderna tem discutido a igualdade entre gêneros – no sentido de direitos, porque querer igualar eles e elas em tudo é no mínimo antinatural -, com alguns bons resultados e outras decepções. Há um caminho árduo para isso.

Em boa parte, admitamos, as diferenças que existem no trato entre homens e mulheres está no jeito pouco ‘bom senso’ do ser masculino. Mas há um discurso na moda, inclusive encampado pelos marmanjos, sobre a queda do machismo. Aliás, ser machista hoje é totalmente démodé, para usar uma expressão distante da virilidade dos super homens. Campanhas de conscientização e combate à violência contra a mulher, iniciativas em várias instâncias da sociedade, estatísticas que apontam a ocupação do mercado de trabalho pelo “sexo frágil” – tudo indica a derrubada do muro-macho-secular.

É no campo, porém, que vemos o quanto isso é mentira – ou pelo menos uma meia verdade. No País do futebol, a coisa se revela fora da esportiva. Ali, entre quatro linhas, de chuteiras sobre a grama, o esporte imita a vida. Conclusão melhor não haveria depois de conferir três jogos das seleções brasileiras de futebol masculina e feminina. Nos últimos quatro dias, elas jogaram duas vezes e eles, uma: eles decepcionaram, elas arrasaram!

Aliás, sempre é assim: elas resolvem tudo, acertam a casa, os filhos, o próprio marido/namorado/afins e eles levam o mérito. Se o Brasil quisesse ser bem representado hoje por seu futebol escolheria a seleção das meninas para honrá-lo. Isso se essa nação não fosse tão machista. Então por que os homens, machões, que “gostam mesmo é de mulher”, não se reúnem em um bar para admira-las em campo? Ao contrário, liste-se Neymar, Pato, Ganso e todo a zoo-equipe da seleção masculina e estão todos lá, gritando a cada lance, xingando quem maltrata nossos rapazes, promovendo abraços calorosos se o gol nos cai como uma lavagem na alma. Ah, se fossem elas jogando…

Longe de uma crítica esportiva, analisar o comportamento da sociedade diante dos jogos deles e delas esta semana é comprovação pura e simples, sob observação direta, do nosso machismo enrustido. Pior: nessa linha de comportamento os homens se tornam mais engraçados, bobos e desnessariamente ligados ao que menos interessa – pelo menos é o que dizem! Na prática do futebol, a coisa se inverte: as mulheres arrasam, dão show de bola, e os homens desfilam, fazem um jogo delicado em estratégia, frágil em garra.

Questão cultural, diriam alguns. E como tornar ‘cultural’ algo que sequer é noticiado massivamente? Ontem, pós-vitória das meninas, os jornais deram chamada, materinha, bonita, mas muito aquém da beleza que o jogo merecia. Uma crônica esportiva para elas não seria crônica, seria poesia. Quem ousou? Ninguém. Enquanto isso, os rapazes e seus cabelos de cracatoa na concentração, fazendo sambinha, levantando peso na academia… tudo é motivo para uma grande reportagem, um “pra frente Brasil” que beira o piegas. Heróis da nação? Ah, se soubéssemos que elas sempre foram as grandes salvadoras do que somos e temos como princípios, carinhos e, agora, futebol.

O que é preciso para que possamos parar diante da TV, no caso dos que gostam do esporte, para vibrar com os dribles e gols lindíssimos da seleção feminina? Não seria o mesmo que nos falta para perceber que aquela mulher, mãe, avó, tia, filha, amiga é responsável por tornar a vida mais bonita? Cabe, ainda, um desafio às mulheres, para que valorizem aquilo que os homens ainda não conseguiram fazer. E saiam jogando, driblando e ganhando todas – do seu jeitinho.

Não sou fã de futebol. Tenho comigo a chacota dos amigos quando declaro assistir somente a Copas do Mundo, e geralmente quando o Brasil está em campo. Mas confesso o fascínio ao ver parte de um jogo bonito, uma sequência de dribles certeiros e um gol indefensável. Eram elas, de camisa amarela sobre aquele gramado verde, tornando o dia mais azul. De fato, não sou fixado em futebol. Sou apaixonado por arte.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 7 de julho de 2011

2 responses to this post.

  1. Posted by Juliana Bandeira on 7 de julho de 2011 at 8:39 pm

    Guerra dos sexos à parte, o descaso e desprezo que nossa seleção feminina sofre no dito país do futebol é um ultraje e, para não entrar na teoria da conspiração, no mínimo um mistério. Pensem bem: dizem que o gosto pelo esporte é natural para o brasileiro… bom elas têm feito o mesmo que os meninos (atualmente até melhor). Dizem que a mulher que não gosta de futebol, costuma acompanhar o namorado nos jogos, nem que seja para ver as pernas dos jogadores…. bom, as pernas das meninas tem todas as condições do mundo de interessar a alguns marmanjos. Dizem que o povo brasileiro só dá valor a time que ganha e só aplaude o futebol arte… poww, preciso dizer mais alguma coisa??? E as meninas estão fazendo o que???? É de palavrão que vocês sentem falta? Dá só uma espiadinha de 5 minutos nos jogos delas… tem para todos os gostos… Jogo disputado e suado? Bom, eu já vi a pobre de marta voar mais longe que qualquer Neymar depois dos “carinhos” das zagueiras…. Sei lá…. A explicação para a pouca importância que damos para nossas meninas do futebol eu estou longe de ter, mas a vonatde de assistí-las e de torcer por elas já está comigo e cresce a cada partida. Caríssimo Henrique, somos dois, e tenho certeza que sejamos mais, apaixonados por arte. Muito obrigada pelo texto. Fazia tempo que não me emocionava ao ler algo 😉

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  2. Posted by Ricardo Araújo on 12 de julho de 2011 at 5:54 pm

    Sério? Elas jogam bem, mesmo? Nunca parei para ver um jogo completo, mas os lances não negam: há muitas Garrinchas, Pelés, Romários, Bebetos, entre tantos outros que fizeram fama chutando bola por aí, no jogo das meninas do Brasil. Elas não jogam, meu caro. Dão show! Dribles são danças. Chutes a gol são assinatura de inteligência, de sabedoria. Marta que o diga, ou melhor, que nos mostre. Acredito que, enquanto os grandes patrocinadores não investirem no futebol feminino, e exijam o mesmo destaque e tratamento que a mídia dá ao futebol dos machos, em troca de gordas cotas publicitárias, o jogo do interesse não sai do zero a zero. E ficamos a ver desastres como os atuais jogos da “seleção” brasileira masculina. Temos uma seleção paraibana que se destaca lá fora mais que o Botafogo. Mas nunca vi um jogo delas na TV. Você tem razão. Belíssima avaliação do nosso esporte de campo. Quem sabe, no futuro, não teremos mais representatividade no futebol aos pés das meninas do Brasil.

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