E como crescer sem sentir dor?

Henrique França
@RiqueFranca

 

“Escrever dói”. A frase do escritor João Ubaldo Ribeiro ainda ressoa, quase cinco anos depois de proferida, entre intelectuais e leitores do romancista baiano. Mas sua afirmação vai além desse gueto, encontra raízes no dia a dia do povo, do esforço da lavadeira de roupas ao psiquiatra mais renomado – ambos no desafio de alvejar vesti-mentas e mentes-vestidas de questionamentos. A dor a que João Ubaldo se refere é aquela sentida por quem se dedica a algo, por quem luta pela conquista, e busca a tranqüilidade de saber-se melhor.

Parece contraditório. Não é. A dor está no esforço do atleta que busca o insuperável desempenho, é parceira da mãe que não se acovarda em parir um bebê, é cúmplice do estudante que pretende ser aprovado em concurso, é uma espécie de anti-heroína das histórias de amor. A escrita, o movimento, o estudo, o profissionalismo, o ouvir, o amar, cada um à sua maneira, andam de mãos dadas com a dor – e esse ingrediente necessário ao nosso bem-estar anda faltando nas prateleiras da vida.

Talvez a premissa beire o pieguismo,  mas eis uma boa forma de enxergar o cenário brasileiro atual. Nossa ‘lei do menor esforço’ misturada ao ‘jeitinho brasileiro’ ainda tem sido o prato principal de muita gente sem sal e atitudes açucaradas por aí. Faz mal à saúde, ao intelecto e à dignidade! Não fosse assim, alguém poderia explicar o porquê de alguns, não poucos, buscarem formas mais amenas e desprovidas de algum sacrifício para crescer, conquistar, desenvolver e olhar o mundo?

Este não é um tratado pelo sofrimento e a dor aparentemente exaltada aqui nunca deve ser confundida com um entrave ao prazer, à felicidade ou ao bem-estar. Crescer, amadurecer, aprender e descobrir novos caminhos têm lá suas dores – sejam em aspectos físicos ou intelectuais. Porém, quem sequer concorda com essas palavras? Daí o absurdo do comodismo, do afastar-se do desafio, do caminho menos pedregoso quando são as pedras que ajudam a tornar a água do riacho mais límpida.

Há muita coisa que machuca nossa convicção de sociedade, de esperança no futuro, rolando por aí. Nos trâmites burocráticos-parlamentares, há quem sugira a manutenção do sigilo indefinido, sem acesso, a documentos da história do Brasil, que deveriam ser públicos, abertos; há defensores de um desmonte ainda pior na educação brasileira, das bases do ensino infantil ao cume da montanha do ensino superior; existem ainda aqueles que pregam  a flexibilização de testes como o da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que envergonhou escolas de Direito privadas da Paraíba. Finalmente, há quem se indigne mas não age quanto a mudanças em um Código Penal onde milhares de apenados são “beneficiados” com a liberdade para voltar às ruas sem nunca receber uma faísca sequer da tão sonhada ressocialização.

Mas, quem? Quem está disposto a mobilizar, reclamar, mesmo enviar uma mensagem ao parlamentar o qual confiou seu voto para exigir dele uma postura adequada? Quiçá dos que ainda pensam em sair às ruas, compactuar com a dor dos que se desprendem da poltrona fofinha e sonolenta montada na sala de estar pela mídia, forrada pela falta de informação, perfumada pelo sucateamento da educação e o apagamento do pavio chamado senso crítico. Para esses, dói demais ter que levantar, desligar a TV, ler, refletir, viver mais o mundo físico em detrimento ao universo digital, caminhar, ouvir mais, mobilizar, desacelerar, agir com propósitos, perceber que enquanto os cães maquiados da TV e do mundo ‘virtual’ ladram mecanicamente, a caravana da vida real passa, segue seu rumo. Não perceber a passagem da caravana é pura surdez, não acompanhá-la é estupidez.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 8 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. A ociosidade social me parece ser cultural no Brasil, salvo exceções. Infelizmente, muitos ainda querem deixar o abacaxi para os netos. Ils ne sont pas l’Etat, l’Etat c’est moi.

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  2. Bem, escutei o Vandré (Geraldo, aquele que a ditadura pegou pra “capá”) dizer que protesto é pra quem não tem poder. Adentrando nesses aspectos, se visualiza na sociedade brasileira uma peripécia em apontar a desgraça social e nunca tratá-la em épocas necessárias (vide a eleitoral). Não sei se isso é de brasileiro. Creio que não. Mas acho interessante. Inclusive, acho que quase todo mundo (pelo menos eu acho…) age dessa forma. Sabemos de todas as mazelas que amedrontam nosso meio, mas se nos deparássemos com questões como: qual a solução? Existe? Por onde começa? Onde pode terminar? E por que solucioná-la? Talvez a coisa começasse a mudar.

    Me desculpe se fui extenso… mas acho que a consciência e razão humana perpassam pela educação. Me refiro desde aquela aplicada aos filhos em casa até aquela da escola, do ensino superior, do mestrado, do doutorado. Acho que cada etapa possuirá seus desdobramentos. E no fim, o que sobra? Só o tempo dirá, junto com 4 + 4, que sequencialmente vai formando nossa cadeia eleitoral.

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  3. Creio que fragilidade da educação no Brasil a que Dacles se refere responde bem à ociosidade social citada por Glaucco. É isso, meus caros. Mesmo que aparentemente não possamos “salvar o mundo”, esse debate, essa inquietação é essencial para que algum passo seja dado – seja ele um debate via web, seja uma reivindicação junto a algum “representante do povo”, seja uma mobilização estudantil ou uma conversa mais “politizada” (sem exageros) com os filhos, em casa. Se mantivermos o debate e propusermos ações, estaremos na contramão – o que significa estarmos no caminho certo. Grande abraço e obrigado por compartilhar dessas ideias textuais.

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  4. […] dói.” A expressão, dita pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, ocupou este mesmo espaço, há algum tempo e em contexto bem diferente. Esta semana, a dor exposta textualmente foi além do […]

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