Até o Vaticano entendeu…

Henrique França
@RiqueFranca

 

O Vaticano anunciou que abrirá parte do seu arquivo contendo documentos e testemunhos polêmicos, entre eles relatos sobre o genocídio armênio ocorrido durante o Império Otomano entre 1915 e 1916 e, pasmem, as atas do processo de Galileo Galilei, instituído pela Congregação do Santo Ofício. Também estão na lista de documentos abertos pelo Estado independente católico a carta dos membros do Parlamento Inglês ao papa Clemente VII sobre questões matrimoniais de Enrique VIII, em 1530.

O que esse anúncio do Santo Padre tem a ver conosco, além do inusitado da notícia? Se você tem acompanhado as ações dos caros ex-presidentes do Brasil José Sarney e Fernando Collor de Melo sabe que o Estado independente católico está provando, com a exposição de seus documentos históricos, que o Congresso Nacional tupiniquim não passa de uma tentativa de igrejinha quando o assunto é acesso à informação.

E na capela-brasillis, Collor e Sarney dividem o púlpito para distribuir a hóstia nada consagrada dos tempos em que ocultar informações era justificado pela cruzada cristã da Idade Média. Agora, pleno século 21, era da informação, internet como a via expressa do mundo, a dupla de “ex” – seria uma duplex? – insiste em não concordar com o acesso a documentos ultrassecretos da história do Brasil argumentando coisas do tipo ‘ameaça à segurança nacional’ ou ‘constrangimento junto a outras nações’. Balela! Constrangimento mesmo estamos passando com esse entrave do senhor Collor de Melo, relator do Projeto de Lei (PLC 41/2010), que já se colocou contra a abertura dos documentos públicos, mesmo após os 50 anos máximos estipulados pelo texto já aprovado na Câmara Federal.

Agora, vejamos. Alguém teria mais motivos para manter secretos documentos que revelam suas mazelas históricas – como no caso de Galileo Galilei – do que o Vaticano e a Igreja Católica? Mesmo assim, com uma postura exemplar e condizente com as mudanças da sociedade da informação, os documentos da madre igreja serão postos em exposição e ainda integração um livro. Por aqui, parece que precisaremos de muita reza para convencer Collor e Sarney a liberar documentos históricos que versam, por exemplo, sobre a Guerra do Paraguai, ocorrida entre nada menos que 1864 e 1870 – ou seja, século 19. Assim não há santo que resista a um riso irônico.

Enquanto isso, do inferno, torturadores atuantes na Ditadura Militar brasileira e chefes de estado com seus meios fundamentalistas de dirigir o País sorriem com as tramas do menino de Alagoas e do dono do Maranhão (que, não custa relembrar, elegeu-se senador pelo estado do Amapá). Do purgatório, historiadores, arquivistas, jornalistas, entidades ligadas aos Direitos Humanos, pesquisadores e pessoas de bom senso – todos com direito a reivindicar e ter acesso ao que é público e histórico – pressionam para que o Projeto, que pode ser votado ainda este mês, seja aprovado. Seremos salvos e veremos a luz? Que o Brasil diga amém.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 11 de julho de 2011 at 8:12 pm

    Sir Ney eh o cara mais poderoso do Brasil. Até Lulinha só se elegeu depois que beijou sua mão. O Papa tem muito mais medo. Sir Ney não tem medo de nada.

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  2. Parabéns Henrique França! Belo texto. Coeso, simples e direto.

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