Quanto custa a fé?

Henrique França
@RiqueFranca

 

Nunca se vendeu tanto a fé. Aquela mesma, advinda da certeza das coisas que não se vêem, agora precisa ser exibida, televisionada, impressa no papel, gritada aos microfones, e adquirida ou potencializada a partir do que o fiel pode ou quer adquirir: sejam bens materiais, sejam pedaços do paraíso no céu, sejam aplausos na terra. Pior: o modelo que se espalha Brasil afora se assemelha muito à comida de baixo valor nutritivo do new gospel importando do primeiro mundo: busca saciar de imediato, não acumula energia e pode ser descartada facilmente quando a fome passa. É a fé que busca a cura para a dor de cabeça, mas não é solicitada para a depressão, para a formação de um homem/mulher melhor, para retransmitir aquilo que Aquele que nos deu a fé sem qualquer cobrança ensinou.

A fé tornou-se propaganda de margarina. Sorrisos largos, música emocionante, lágrimas de reencontros, 30 segundos de uma ante-sala do paraíso. Aprendemos que a fé vem pelo ouvir a Deus, mas ultimamente e cada vez mais ela vem pelas ondas do rádio, pelo home teacher, pelas caixas de som sobre os grandes palcos com iluminação pirotécnica e fumaça. Nada demais, não fosse isso tudo, no geral, muito superficial, sem profundidade com a certeza daquilo que não se vê. É alimento para os olhos, para a auto-estima, para a vaidade humana, não para a alma. Fast-food-fé.

Há muita gente em busca da fé pelo sobrenatural, pelo milagre de outro mundo, quando seu quintal carece de atitude, de atenção, de uma varrição, de limpeza. Outros buscam na fé a retomada financeira, a garantia de plenitude, de prosperidade material, enquanto precisam mesmo ser prósperos em carinho, bondade, paciência, sorrisos e amor. Impressionante como, na fé atual – ou seria na “neo-fé” -, o foco está mais no homem do que no próprio Deus. Acesse alguns sites de missionários e afins e perceba: há sempre uma foto bem produzida do pregador, uma luz perfeita, um currículo invejável do ponto de vista espiritual e nada mais – ou quase nada.

Slogans são criados para esses homens da fé: “o raio-x de Deus nos olhos”? Nem o próprio Filho de Deus procurou para si definições ou frases de efeito tão marketeiras. Aliás, se estivesse hoje por aqui será que acreditaríamos nEle, que de tão modesto nos pareceria um “ninguém” em meio a tantos astros da fé? Afinal, diante da concorrência com canais de TV, tantas vozes gritantes, tanta maquiagem, iluminadores, como Jesus conseguiria se destacar contando com 12 homens que sabiam, em sua maioria, pescar? A resposta: pela essência.

Falta aos caros mercadores da fé a essência do cristianismo e da fé: humildade, amor, mansidão. Mais atitude, menos verborragia espiritualista; mais mãos estendidas para o próximo, menos mãos estendidas ao céu; mais olhares de carinho, menos olhos fechados; mais lágrimas compartilhadas, menos choro individualista, como se Deus quisesse uma relação de via única, vertical. Se assim fosse, porque teria insistido em enviar um Filho que se preocupasse tanto com homens falhos e sem fé?

Sem dúvida, esse é um debate que supera o espaço, o entendimento, essas linhas. Mas vela a reflexão. Muito menos pelo dogma e pela religiosidade, e sim totalmente voltado à busca por uma essência mais verdadeira, até mesmo mais humana. Diante de tantas maravilhas vendidas pela TV, na internet, cabe o questionamento da fé. Não cabe, aqui, fazer outros julgamentos. Também não interessa o incômodo que porventura essas linhas tenham causado a outrem. Sobre isso, ficam as palavras de Martin Luther King:

“A covardia coloca a questão: ‘É seguro?’
O comodismo coloca a questão: ‘É popular?’
A etiqueta coloca a questão: ‘É elegante?’
Mas a consciência coloca a questão: ‘É correto?’
E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular,
mas o temos de fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta”

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 12 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. Infelizmente como evangélico, ou melhor, Cristão (quem segue a Cristo), tenho que concordar com seu texto, pois infelizmente o “evangelho” de Cristo que tem sido pregado e propagado nas TVs e na mídia no geral, não é o verdadeiro ensinamento de Deus. Pois as pessoas hoje, querem tratar Jesus Cristo como ‘garçon”, só fazem pedir, só querem as coisas…mas largar seus pecados e vida mundana, como Ele pede, ninguém está disposto.
    Mas também não podemos generalizar, pois no meio disso tudo, na TV mesmo, ainda temos pessoas pregando a verdadeira Palavra de Cristo. A essecência! E digo, baseado na própria Palavra de Deus, o evangelho de Jesus Cristo é simples, e bem claro, para nos achegarmos a Ele, basta nos arrependermos (DE VERDADE) de nossos pecados, e seguirmos o que ensina a Palavra. Pronto, simples assim!
    E como disse, glória a Deus, ainda existem igrejas evangélicas sérias, como a que sou membro – Bola de Neve Church – , que seguem a risca os ensinamentos Cristãos.
    Parabéns pelo texto Henrique França. Deus te abençoe!

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  2. Meu caro Élcio. Eu também tenho visto e vivido experiências boas e ruins nesse universo de busca pelo verdadeiro cristianismo – ultimamente, infelizmente, mais essas do que aquelas. Concordo com você: ainda há muita gente disseminando a boa semente, seja na pequena igreja do interior, seja na grande rede de TV. Mas são poucos que, não raro, acabam seguindo a roda mais fácil. É muito melhor, humanamente falando, ser uma estrela, um grande palestrante, artistas etc, do que pagar o preço de ser simples, humilde, amoroso, cristão. Vamos juntos, porque quando leio tuas palavras mantenho a convicção na esperança que vem do alto. Grande abraço e muito obrigado por compartilhar comigo essas ideias textuais.

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  3. Posted by Simão on 13 de julho de 2011 at 1:29 pm

    E o que mais preocupa é a cultura de medo associada à intolerância que alguns líderes religiosos têm feito questão de espalhar. A partir desse momento, o problema não é mais só de quem se rende à tentação da salvação fácil e passa a atingir quem não tem nada a ver com a história.

    Muito bom, cabra!

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  4. Posted by Ellyka Akemy on 16 de julho de 2011 at 11:49 pm

    A História está aí para mostrar que a venda da fé não começou ontem ou anteontem. Essa comercialização vem desde a criação da Igreja Católica (e se dissipou como uma doença por outras religiões). Talvez (não sei), porque alguns de seus integrantes eram formados por homens (de pouca fé) e precisavam propagar a religião aos quatros ventos.
    Ocorre que hoje, com a tecnologia, ficou ainda mais fácil promover a fé. E muito mais do que isso, investiram em um “novo” universo religioso – para não dizer comercial – que usa o nome de Deus para fins lucrativos. Triste e lamentável
    Herinque belo texto e ótima discussão. Abraços.

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