Censura livre para quem?

Henrique França
@RiqueFranca

 

“O programa a seguir é livre para todos os públicos”. A frase em off ou inserida em caracteres, no canto inferior da tela da TV, tem se transformado em um dos maiores engodos burocráticos da mídia nos últimos tempos – em especial no que se refere aos canais abertos de televisão. O que deveria servir como bússola para pais atentos no que seus filhos devem ou não assistir virou peça de decoração publicitária, bem semelhante à frase “beba com moderação” depois de uma boa propaganda de cerveja nada ‘moderada’.

Até mesmo a ideia de programa matinal ligada a tranquilidade, variedades, culinária, comportamento e saúde tem caído em desuso na grade das emissoras caça-ibope-a-qualquer-custo. Porém, a frase em tarja verdinha, “livre”, continua liberando “todos os públicos” para assistir. Ingênuo é quem acredita. Experimente fazer uma lista, em apenas um programinha desses, e conferir se as notícias/quadros veiculados ali podem ser assistidos por qualquer idade.

Eis uma listagem feita há dois dias, no período de tempo inferior a 15 minutos diante da TV, por volta das 8h30 da manhã. Abrindo a atração, imagens de dois assaltantes espancando um homem com socos, chutes e pauladas. As cenas, gravadas por uma câmera de segurança em via pública, são repetidas exaustivamente até que a vítima fique no chão, desacordada, enquanto os bandidos saem andando pela rua. É preciso sorver o café para não descer seco o “bom dia” televisivo.

Antes do segundo gole, porém, nova notícia: “mãe tenta matar suas quatro filhas dando a elas veneno de rato”. Isso mesmo. O desenrolar da trama – ciúme, fim de relacionamento com o marido, não aceitação da separação, vingança do pai das crianças, tentativa de assassinato por envenenamento – é seguida de comentários aguados como começa a parecer o café que agora já não parece tão saboroso. Mas o prato principal ainda estaria por vir, afastando de qualquer um ainda não afetado pela carniça servida comumente no horário do almoço, o apetite.

Na sequência, a reportagem sobre tragédias no trânsito traz carros retorcidos, vítimas ensangüentadas, parentes desesperados, trilha sonora em suspense e um depoimento que encerra de vez qualquer tentativa de começar o dia “bem” informado: “Não, moço. Não atira mais no meu pai. Hoje é o Dia dos Pais. Por favor, não atira mais”. Essas foram as palavras de um dos filhos de um empresário morto à queima-roupa depois de um desentendimento no trânsito. O condutor do outro veículo envolvido na confusão simplesmente desceu do carro e sem dizer qualquer coisa descarregou a arma no homem, pai de três filhos.

“Livre para todos os públicos, livre para todos os públicos”. A frase martela na cabeça enquanto o homem é espancado, ou a mãe diz que mataria suas filhas com veneno de rato, ou a pessoa que reproduz as palavras de dor de um filho que assistiu ao assassinato do próprio pai. Estariam crianças preparadas, livres para sentar diante da TV, nessas horas? A portaria 796, de setembro de 2000, regulamenta a classificação em programas de rádio e televisão. Além dela, o Estatuto da Criança e do Adolescente versa sobre o assunto. Ambos concordam: é proibido “transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado ou sem aviso de sua classificação”.

O aviso até existe, mas é enganoso. Não, os programas da televisão brasileira, especialmente os canais abertos, não são confiáveis a partir do aviso regulamentar. Uma criança de cinco anos (seis, sete, oito?) não deveria tomar café da manhã assistindo a crimes, espancamentos, investigações que beiram autopsias, cenas que causam indigestão, temas tão estranho quanto agressivos ao universo desses pequenos. E olhe que tem multa para quem desrespeitar a classificação. Doce ilusão.

Solução? Para quem não pode ou não quer pagar canais fechados de TV, o jeito é fazer uma pré-seleção dos programas liberados por você. A tarja verde terá que ser sua, pai/mãe/responsável. Porque se depender das TVs – concessões públicas, vale lembrar -, o “livre” do aviso sempre será confundido com o “livre” da busca pelo primeiro lugar na audiência. Mesma que ela esteja em náuseas.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 13 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 14 de julho de 2011 at 12:30 am

    Na verdade a solução manter a televisão desligada.

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  2. Este envenenamento midiático nos propicia abalos a cada cena exposta, mas o que me enfurece, como é citado no texto acima, é o fato das emissoras injetarem o caos, terror, pânico, malevolência nas mentes das nossas crianças. Há pessoas que interpretam este tipo de “mídia excrementar” como característica da pós-modernidade. Diante disto me questiono: O que passa na TV é progresso absoluto? É… talvez definhar mentes ou entorpecer espíritos com ódio seja a nova projeção cultural. A entropia atual nos coloca na esfera do “off” ou seja, sem censura total de tudo e isso caráter pós-moderno. Gostaria de saber onde se encontra a ética e a deontologia universal. Trazendo uma frase dos nutricionistas, onde diz: “Você é aquilo que você come”, reformulo para aqueles que assistem os excrementos televisivos pós-modernos: Você é aquilo que você ver, assiste, absorve.

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  3. Posted by Pollyana Souza on 14 de julho de 2011 at 11:27 pm

    “…vítimas ensanguentadas, parentes desesperados, trilha sonora em suspense…” É o que existe de mais inovador nas emissoras de TV na hora do almoço também. E ainda existe quem diga que o sensacionalismo, na base do sofrimento dos outros, deu certo porque a população se identifica. Se pararmos para pensar um pouco, é de interesse do governo que a população “se identifique” como esse tipo de programa e telejornalismo. Já prestou atenção no linguajar utilizado? Quanto mais abobalhada a população for, mais fácil fica de manipula-lá. Afinal de contas, de onde vem mesmo a permissão de cada emissora de TV, se não do governo!
    E a “…Solução? Para quem não pode ou não quer pagar canais fechados de TV, o jeito é fazer uma pré-seleção dos programas liberados por você…” Essa é uma boa solução, porém, triste é saber que são pouco os pais que têm essa preocupação.

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    • Você tem razão, Pollyana. Essa indiganação é clara e acredito mesmo que podemos, um a um, dar um freio nisso. Começa assim, com um texto, uma resposta, você repassa a ideia de se recusar a assistir essas coisas a outros, consegue contagiar. quem tem filhos desliga a TV e vai brincar, ler, ouvir música… e assim a gente vai mudando. Pode parecer utópico, mas quem não resguarda seus idealismos vive sem esperanças…

      Muitíssimo obrigado pelas palavras. Seja sempre bem-vinda a este espaço.

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