Dia do Homem – quem comemora?

Henrique França
@RiqueFranca

Sim, ele existe. Merecedor ou não, o homem teu o seu dia. Nada que impeça uma certa confusão de datas tipicamente masculina: alguns comemoram o Dia Internacional do Homem no dia 19 de novembro, mas no Brasil há todo um direcionamento para que a comemoração seja mesmo hoje, 15 de julho. Pelo menos é o que tem motivado a indústria de produtos masculinos brazuca, em busca de boas vendas a um gênero de consumidor cada vez mais exigente, vaidoso e consumista – coisa de neo-macho.

Do lado de cá do balcão, não custa parar e refletir um pouco sobre o que, de fato, deveríamos comemorar nesse Dia do Homem, ainda não tão popular quanto as datas destinadas a elas. Tudo bem: vale dar uma conferida nas promoções, fazer charme para a namorada/esposa/filhos sobre a compra daquele sapato, navegar pelas promoções na web, passar mais tempo diante das vitrines e experimentar perfumes… bem, em tempos de “metro” e “ürbersexual” a lista segue extensa, cheia de adjetivos.

Mas, sejamos objetivos (pelo menos tentemos). O melhor presente que o homem pode ganhar neste dia é sua própria condição de… homem! Que tal usar toda a sua força, os músculos que muitos nutrem como uma horta sagrada, para erguer seus filhos, abraçar os amigos, segurar as mãos da pessoa a quem tanto ama. Aliás, vale retomar o amor, substantivo masculino, hoje em dia tão distante do universo macho-dominador. É claro, o mundo já não é “dominado” por “eles”, mas a ilusão desse poderio deve-se manter por um bom tempo, ainda.

Que tal permanecer como o mantenedor: trabalhando para que nunca falte à sua casa o sorriso que alimenta, o toque que dá segurança aos filhos, o olhar de admiração que fortalece o respeito aos pais. Que tal manter-se “o cabeça” da relação: corpo e mente são no momento de dirigir, entrar no estádio para torcer, manter a cabeça no lugar na hora topar ou não um negócio ilícito, que arrisque e comprometa sua reputação de homem.

Que tal subverter esse orgulho decididamente masculino em orgulho de sentir-se uma pessoa melhor, que presta mais atenção ao que está ao redor. Que tal chorar mais? Olhar mais nos olhos, mantendo longe pelo menos uma vez a intenção de seduzir implícito (para eles) nessa frase. Que tal fazer uma oração bem masculina? Sim, agradecer por esse dia – não exatamente pela data comemorativa, mas por tudo que você alcançou até aqui.

Dizem que o Dia do Homem, neste 15 de julho, foi instituído pelo estadista soviética Mikhail Gorbachev, aquele do “mapinha” na cabeça. Sendo assim, que tal tatuar na cabeça a ideia de uma moderníssima perestroika(*) na sua macho-vida, promovendo nela a glasnost(*) tão necessária tanto na diplomacia internacional quanto naquela (con)vivida na cozinha, no quarto, nos bares, no trabalho, na capela, no campo. Que tal preocupar-se mais com a saúde, baixar a guarda do preconceito na hora de procurar um médico, levantar as mãos para o alto e agradecer por cada dia, por não padecer dores – ou por estar vivo para padecê-las.

Talvez este não seja um texto tipicamente masculino. Mas homem que é homem lê só para poder criticar depois, não é mesmo? Não, não é. Homem que é homem entende que a masculinidade passa ao largo da agressividade, sisudez, preconceito e força bruta. O homem, em sua essência, tem tanto a oferecer quanto a aprender. E haja aprendizado. Se aprenderem, talvez um dia alguns ‘meninos’ consigam trazer na cabeça a sagacidade do falcão e nos olhos a força do sol junto à sensibilidade da lua – assim mesmo, exatamente como o deus grego Hórus, com “H” maiúsculo.

(*) perestroika significa reestruturação, em russo;
(*) glasnost significa abertura e transparência, na mesma língua.

Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 15 de julho de 2011

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