Morar no buraco é chique!

Henrique França
@RiqueFranca

 

Está cada dia mais distante o sonho de comprar e se estabelecer em uma residência decente – repito: decente. Os números, claro, parecem destruir a premissa, já que ‘nunca antes na história desse país’ se viu tanta gente ter acesso a tão sonhada casa própria. Mas o que vem sendo construída, de fato, é a falsa ideia de casa é casa – e ai de quem reclamar, “de barriga cheia”. Pois tem gente ficando de barriga cheia d’água e barro por não ser respeitada no direito de morar bem. Uma residência, caros, traz consigo a ideia de condições mínimas muito além do enclausuramento entre quatro paredes, e expande o bem-estar para seu entorno: o mínimo de saneamento, caminhos desobstruídos para veículos (inclusive coletivos) e pedestres, energia, água, luminosidade e segurança.

Diante dessa listagem básica para se morar bem, alguém precisa explicar qual o critério para que um imóvel localizado em bairros carentes de infraestrutura básica seja comercializado a preço de condomínio fechado. Claro, estamos em período chuvoso, tudo é mais difícil, certo? Errado! Quem conhece esses locais – e principalmente quem mora ali – sabe que se durante as chuvas o problema é a lama e os buracos, na estação seca impera a poeira e persistem os mesmos buracos, secos como uma cacimba de estiagem, só que no meio das avenidas.

A chamada região Sul, por exemplo, grita seu contraste. Com bairros em inegável expansão, a área deve possuir o maior número de buracos por metro quadrado da cidade. Trinta e quatro bairros compõem a ala sul, todos eles sugados pelos vampiros da especulação imobiliária sem dó – e que devem possuir bons carros 4X4. Talvez por serem dois dos mais “classe média”, os bairros Bancários e Cidade Universitária são pródigos no assunto. Por lá existem imóveis com preços superiores a R$ 1 milhão. O detalhe é que, ao pagar por isso, o comprador deveria receber um kit do tipo “como sobreviver às intempéries de seu bairro”, com capas de chuva, botas de borracha, bote inflável e, nas mais caras, um motor para bombear a água dos quintais alagados de volta à rua.

Nada! Esta semana um texto divulgando as maravilhas da região Sul apontava a área como economicamente promissora. E comemorava: “o setor imobiliário também já se programa para explorar esta região em franco crescimento.” É impressão ou o setor já está explorando fortemente a zona sul há um bom tempo? Uma sugestão: pergunte a um morador desses bairros, por exemplo, o que ele chama de “economicamente promissor” no que se refere à casa onde mora. Essas promessas econômicas incluem promessas de bem-estar?

Algumas ações da população podem responder a essa questão. Recentemente, moradores lançaram um blog na internet chamado “Paraíba Fail” e postaram lá texto e fotos de um dos metros quadrados mais caros da cidade. Trecho do endereço eletrônico: “Olha o estado em que se encontram os bairros Bancários e Jardim Cidade Universitária. Carinhosamente iremos batizá-los de BURANCÁRIOS e JARDIM CRATERA UNIVERSITÁRIA, com direito a festa, faixa de inauguração com os novos nomes, bolo de metro e banda militar. A situação está tão caótica no local, que os moradores sentem dificuldade em chegar às suas casas, pois as estradas estão intransitáveis. A linha de ônibus, que passa no bairro, muda constantemente a sua rota por conta das péssimas condições da pista, prejudicando a vida dos moradores que não sabem se, naquele trecho, a sua condução conseguirá chegar.”

Seria apenas uma graça não fosse a seriedade do assunto. Há quem garanta que tem gente por aí preparando um vídeo-denúncia chamado “O buraco mais caro da cidade”. Até dá pra sorrir, porque o brasileiro é, essencialmente, um bem-humorado. Mas não dá pra gargalhar – não como gargalham os que exploram a zona sul como uma mina de ouro e a transformam, literalmente, em uma esburacada e precária Serra Pelada.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 14 de julho de 2011

 

Anúncios

6 responses to this post.

  1. A-do-rei o texto! Arrasou… já vou divulgar entre meus amigos.
    Abraços!!

    Responder

  2. Primoroso! Como moradora da famigerada zona sul não poderia me sentir melhor representada, Henrique! Parabéns!!!

    Responder

  3. Posted by Juliana Marques on 15 de julho de 2011 at 3:04 pm

    Execelente texto, eu como moradora dos Bancários concordo com tudo. Tem um buraco numa rua que cruza a principal dos Bancários seguindo até chegar às três ruas, que já deve estar fazendo aniversário, porque antes do período das chuvas eu já tinha entrado em contato com a SEINFRA informando do buraco e pedindo para fecharem, fiz outras 3 solitições, por telefone, e-mail e twitter e até agora nada. Outro dia tive até um susto porque quando me aproximei do buraco tinha um homem bêbado sentado apenas com a cabeça pra fora, pense num susto. É realemente um absurdo, o pior é que agora as chuvas são justificativa pra tudo, coitado de São Pedro, sobrou pra ele!

    Responder

  4. Posted by Leandro Ramalho on 15 de julho de 2011 at 3:19 pm

    O problema existe, mas discordo um pouco da argumentação. A falta de estrutura é fruto descaso do poder público e conivência total da sociedade (pessoas, empresas, todo mundo). O governo constrói mal, repara pior ainda e permite a ocupação de áreas por moradores, sem garantir o básico antes. Aí, quando tá cheio de gente e a especulação/valorização imobiliária acontece, tem que parar tudo pra criar estruturas básicas de funcionamento: luz, telefone, pavimentação, água, esgoto.

    O que a gente vê hoje nos Bancários, aconteceu antes em bairros como Manaíra e Bessa. “Valorizados” há quase 30 anos, ainda hoje estão implementando serviços básicos lá. Resultado: ruas esburacadas por remendos das concessionárias de serviço e qualidade de estrutura beeeem capenga.

    A Zona Sul passou anos abandonada. Aí alguém enxergou o óbvio. A região muito bem localizada na geografia da cidade e as praias não suportam mais tanta gente morando por lá. De novo, falha do poder público que há 20, 30 anos não planejou o crescimento ordenado da cidade e preparou as áreas para tal.

    Não acho que a especulação/valorização seja a culpada por tudo. Dos empresários, deve-se exigir as contrapartidas, mas junto com um Estado atuante e que cumpra também a sua parte. E da sociedade, do cidadão de João Pessoa, mais cobrança e também responsabilidade nas suas ações.

    Alguém hoje tá fazendo um planejamento de moradia ordenada das nossas cidades? Elas continuam crescendo e a valorização de áreas, antes pouco visadas, continua acontecendo. Onde e como estaremos daqui 30 anos?

    Responder

  5. Posted by Simão on 16 de julho de 2011 at 3:35 am

    Leandro, não senti no texto uma tentativa de culpar os empresários pelos problemas dos bairros, e sim apontar os exageros nos preços por lugares sem infraestrutura. Mas, na verdade, nem disso eles têm culpa, só sugam o que o sistema permite.

    Henrique, valeu pelo texto!

    =)

    Responder

  6. Posted by Ricardo Araújo on 16 de julho de 2011 at 11:52 pm

    Excelente texto para reflexão daqueles que ainda acham que vão enganar muitas famílias em João Pessoa. Sou morador do Jardim Cidade Universitária, minha casa valorizou mais de 300% nos últimos 3 anos. Poderia estar feliz e orgulhoso do investimento, mas nem tanto. O bairro carece de serviços básicos, basicão mesmo. Tome por exemplo o transporte público coletivo, que, além de ter apenas uma única linha para circulação por todo o bairro, deixou de passar por muitas ruas e agora moradores têm que andar pelo menos 500 metros das suas casas para pegar um ônibus para sair do bairro. Motivo? Buracos, meu caro. Buracos, centenas e mais centenas pipocam por todo canto, todos os dias, com belíssimas lagoas de água acumulada e esgotos a céu aberto. As empresas não querem colocar mais ônibus e ter despesas com manutenção dos seus veículos. Os moradores reclamam, ligam mas sequer são ouvidos.

    Muitas ruas ainda precisam ser bem iluminadas. Não é a toa que ocorrem tantos assaltos a residências e transeuntes. Falta policiamento preventivo e quando a polícia é chamada, só chega horas depois às ocorrências. Os relatos e reportagens na imprensa não mentem.

    A Cagepa instalou a rede de esgotos há dois anos mas ainda não fez a devida ligação do sistema. Residências e edifícios fazem ligação clandestina, criminosa, e o esgoto acaba vazando em ruas distantes da origem do despejo. Resultado: é comum encontrarmos lamas apodrecidas cortando as ruas e ninguém, nem a Cagepa, consegue identificar a origem das ligações clandestinas. A podridão, o risco de contrair doenças bacterianas e a proliferação de mosquitos infernizam muitos moradores.

    A exploração imobiliária e a expansão de moradias são desenfreadas. Sem terrenos para construção dos famosos edifícios R8, as construtoras estão comprando casas (de famílias com até cinco pessoas) e construindo prédios para 8, 12 e até 34 famílias no mesmo espaço que antes servia apenas para uma residência e uma família. É uma multiplicação do espaço geográfico sem critérios e planejamento urbano. Isso é um dos graves motivos para a frequente falta de água em todo o bairro, pois o sistema de distribuição já não está mais suportando a sobrecarga de consumo. A água sai das torneiras com a cor de Fanta. Dia sim, dia não. Agora pergunto: será que os ansiosos corretores relatam esses problemas do bairro para futuros compradores? Claro que não. É óbvio que não. Oferecem preços absurdos com promessas de que é um bom lugar para investimento imobiliário e comercial. Os bancos financiadores também não fiscalizam. Por isso é o buraco mais caro da cidade. Uma realidade que só sabe quem mora aqui! O texto não mente.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: