Homofobia ou monofobia?

Henrique França
@RiqueFranca

O assunto tem causado febre entre debatedores e pode-se apostar que só o fato de usar no título deste texto a palavra “homofobia” torna esse espaço merecedor da atenção de alguns (novos) leitores. Porém, infelizmente para muitos, as palavras de hoje não buscam fortalecer grupos contra ou a favor da união homoafetiva, da PL 122 ou a suspensão dos tais “kits” pela presidente Dilma Rousseff. O debate que se pretende trazer aqui parece muito mais reflexivo do que ostensivo e menos repressor – seja de que lado for.

O Brasil tem passado por transformações gritantes, especialmente no que tange à legislação, mas que beira o oportunismo parlamentar, jurídico e ‘onguístico’ (voltado às ONGs). Parece que tudo em solo tupiniquim, agora, se resolve no âmbito da legalidade ou não. Se passar como Lei, cadeia! E muito se tem difundido de que esse seria o único caminho para uma mudança social, o desenvolvimento de uma nação, a quitação de uma dívida milenar com quem quer que seja.

Ninguém parou para perguntar como está a base de toda essa tentativa de mudança. Ou, melhor, se o foco não deveria ser mais abrangente em vez dessa segmentação tacanha e bairrista que se vê atualmente. Na arena, negros, índios, ciganos, homossexuais, transgêneros, mulheres, consumidores de maconha, religiosos se digladiam por um lugar ao sol jurídico, legal. E parece que o Brasil agora é Brasília. Que os parlamentares, agora, são os especialistas em todos os assuntos – sabem o que é melhor em âmbitos ambientais, sexuais, religiosos, educacionais e transcendentais.

Acontece que os “sábios” de Brasília entendem muito pouco ou quase nada sobre a matéria que esses grupos estão propondo – ou reivindicando – e muito, muitíssimo, sobre politicagem, troca de favores. A queda de braço, na verdade, não está entre bancada pró-gays e bancada religiosa. O nó da questão continua sendo situação e oposição. Um código, um projeto de lei, ou qualquer decisão que saia das paredes do Palácio do Planalto tem como motorregulador os mesmos e históricos interesses.

Pior é que, quando a intransigência aprovada por interesses se torna lei, começa uma espécie de caça às bruxas – muitas vezes às avessas. O momento é tão delicado que basta alguém declarar-se contrário à união homoafetiva que é logo taxado homofóbico. Basta se colocar em posição simplesmente de reflexão, de dúvida, para ser visto com alguém que não apóia o movimento. Para quem propaga tanto a diversidade, o movimento LGBT deveria portar-se menos radicalmente em relação a quem não apóia suas causas. E entender que isso não representa desrespeito algum.

Da mesma forma, por que a igreja cristã brasileira tem se colocado como um exército de interesses próprios e nada mais? ‘Laico’, ao lado de homofobia, é talvez a palavra mais surrada pela verborragia partidária/partidarista dos últimos tempos em terra brasillis. Mas a laicidade brasileira tem sido sutilmente desrespeitada quando representantes religiosos tentam impor vontades religiosas (e segmentadas) ao Estado. Diálogo? Que nada. A moda agora é chegar com uma proposta, submetê-la ao parlamento e toda sua leva de interesses próprios, e fazer disso um cabo de guerra social, étnico, sexual e/ou religioso.

Alguém pediu, em projeto ou campanha midiática, ação que instrua o povo, dos mais novinhos aos mais velhos, acerca do respeito ao outro, seja ele quem for? Temos boas leis sobre inclusão de portadores de necessidades especiais, negros, proteção às mulheres e crianças. A pergunta é: isso tem diminuído os índices de violência contra mulheres, tem representado queda no preconceito aos negros e a suspensão de casos de pedofilia ou abuso contra crianças e adolescentes? Talvez o foco não seja a imposição da lei, mas a dialética da grei, em seu sentido de povo, nação.

Preocupante essa nova guerra colocada à mídia como banquete de notícias, mas com pouquíssimo aprofundamento. Voltamos, mesmo com tanta massa informacional disponível, à era dos especialistas? Talvez sim, não porque o conhecimento esteja encarcerado a poucos – mas dessa vez por motivos de acomodação à superficialidade sobre assuntos que bradamos em defender tão bem, mas conhecemos tão pouco.

E tudo permanece assim, na superfície dos debates, onde só há voz e imagem a quem pega o microfone, quem empunha a caneta, quem bate o martelo. Se continuarmos assim, estaremos incorrendo no gravíssimo erro de gritar não como alerta à homofobia, mas pela prática sutil e destruidora da monofobia.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 27 de maio de 2011

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8 responses to this post.

  1. Ótimo artigo.
    Acho sinceramente que nenhum tipo de apologia compensará ações motivadas por ignorância ou intolerância. Sejam as cotas, PL122 ou qualquer outra tentativa compensatória adotada por nossos governantes.
    Deveriamos todos lutar por uma mudança cultural profunda para agirmos todos commais ética e cidadania, em todos os aspectos de nossas vidas.

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  2. Posted by Vandeck Santiago on 19 de julho de 2011 at 11:14 am

    Parabéns pelo blog, Henrique.
    Gostei do “onguístico”….

    Abraço e sucesso,
    Vandeck Santiago

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    • Muito obrigado pelas palavras, Vandeck. Aliás, meu caro jornalista-pesquisador-historiados e grande nordestino, sua presença neste espaço é uma honra. Novamente, obrigado pelo carinho.

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  3. Já está ficando repetitivo, mas, mais uma vez, PARABÉNS Henrique França. Belo texto! Simples e sóbrio.
    O que devemos buscar, é o ensinamento de Cristo “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amo”. Isso quer dizer respeito de amabas as partes. Todos têm o direito de expressar seus pensamentos e opiniões, e isso tem que ser respeitado. Mas além de nossos ensinamentos Cristãos, temos que respeitar nossa legislação, nossa Constituição. Seu texto base, e que não pode ser alterado, foi feito para todos, e não para privilegiar alguns.
    Deus te abençoe!

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    • Élcio e Túlio. É isso. A luta deveria ser por uma mudança global de comportamento, uma nova postura na escola, em casa, nas igrejas, no cinema. Acima de bandeiras, guardamos a essência da sabedoria advinda da humanidade em nós. Só nos falta aprender. Obrigado pelos comentários e sejam sempre muito bem-vindos a este espaço.

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  4. […] o desenvolvimento de uma nação, a quitação de uma dívida milenar com quem quer que seja. … Veja Mais via […]

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  5. […] assunto já foi abordado neste mesmo espaço, no texto intitulado “Homofobia ou Monofobia?”, mas a notícia sobre a ida de Alcântara e Marinho para outro país e, consequentemente, a […]

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  6. […] da grande mídia, rico e poderoso, Laerte parece ideal para empunhar a bandeira contra a homofobia. Mas, que homofobia? Alguém parou para pensar que meninas de 10 anos talvez tenham medo simplesmente de homens vestidos […]

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