Três flagrantes, duas mortes, um condutor

Henrique França

@RiqueFranca

Um motorista embriagado é flagrado durante operação policial, dentro da cidade. Meses depois, o mesmo condutor tem novo encontro com os homens da lei, dessa vez trafegando em uma rodovia – e, novamente, ele está sob efeito de bebida alcoólica. Em qualquer lugarejo minimamente decente essa pessoa já teria ao menos o seu direito de dirigir um veículo cassado ou suspenso. Porém, o mesmo homem flagrado duas vezes sob embriaguez voltou a encontrar-se com a polícia, na madrugada do último sábado. E sobre ele, além da mistura álcool e direção, há uma nova acusação: a de ter provocado a morte de um jovem de 19 anos e uma adolescente de 17 anos, depois que o carro em que eles vinham, junto com outras duas pessoas, foi atingido em cheio pela picape do motorista flagrado e reflagrado.

O mais absurdo em toda essa história é que o condutor, que se recusou a fazer o teste do bafômetro, até já havia sido “condenado” pela justiça. A pena? A doação de duas cestas básicas, cada uma no valor de R$ 100, além de se comprometer a comunicar oficialmente caso precisasse mudar de cidade ou de endereço e – olha que maldade, essa pena! -, comparecer todos os meses em cartório para assinar um formulário que comprovasse sua permanência na cidade. Agora, a dúvida é a seguinte: ele foi levar as cestas básicas e sempre comparecia ao cartório dirigindo o próprio veículo ou ia de táxi? Melhor: a preocupação da justiça era com um condutor embriagado, independente da geografia, ou somente que ele não saísse para matar ninguém com sua picape alcoolizada em outras cidades?

É simplesmente ridículo quando o sistema dois-pesos-duas-medidas se desnuda assim de forma tão explícita. E a situação, por aqui, está ficando cada vez mais crônica. Que o digam os familiares da defensora Fátima Lopes e da família Ramalho, que perdeu três de seus membros – todos em veículos atingidos por condutores visivelmente, segundo testemunhas e imagens, embriagados. O primeiro caso completou um ano no último mês de janeiro. Já o acidente que matou três pessoas da família Ramalho ocorreu em 2007. A grande pergunta: alguém punido? Algum exemplo para a sociedade? Alguma punição real para que outros pretensos bebuns ao volante possam sentir um mínimo de respeito à lei – já que, nesses casos, o respeito à vida inexiste a começar pela do próprio ébrio-condutor.

No ano passado, foram registrados 3.845 acidentes nas estradas da Paraíba, que deixaram 192 mortos e 2.258 feridos. Isso representa uma morte nas pistas a cada dois dias. Seria um bom dado jornalísticos se não fosse aquém do necessário para sensibilizar condutores irresponsáveis, polícia, justiça e afins. Para a família de quem encerra a vida debaixo de toneladas de ferro retorcido lançado em alta velocidade por pessoas que não deveriam mais tocar em um volante de veículo, cada familiar, cada amigo, vale mais do que qualquer estatística. E cada motorista embriagado deveria valer menos do que conveniências, influências e malemolências jurídicas.

Qualquer pessoa flagrada duas vezes dirigindo sob efeito de bebida alcoólica em menos de 12 meses não deveria continuar conduzindo veículo algum, sem qualquer critério, sem qualquer reaprendizado. O que ele fez par merecer conduzir um carro novamente? Pagar cestas básicas ao custo de R$ 200 mudou seu critério de responsabilidade? Comparecer ao cartório mensalmente para tomar cafezinho, provavelmente dirigindo sua caminhoneta de riquinho, transformou-o em alguém mais responsável, gentil no trânsito?

Nessas horas tem gente com propostas tão mirabolantes quanto risíveis, se o assunto permitisse algum sorriso. Houve quem sugerisse, por exemplo, acabar com o cruzamento onde foram mortos Fátima Lopes e os primos da família Ramalho. Como assim? É como dizer que a culpa da enchente é do rio. O que nós, meros guardadores de esperança na lei, podemos dizer? Parabéns ao “sistema” – que, nunca esqueçamos, é feito por pessoas. Agora, porém, temos um motorista duplamente flagrado com sinais de embriaguez e que retornou às ruas com uma terceira permissão para dirigir e, se comprovado, matar. “Você tem três chances”, teria dito a ‘lei’ ao condutor. Mas a justiça, cega, esqueceu de perguntar: que chance os jovens mortos na pista teriam de voltar a viver?

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 19 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. Posted by Davi Leal on 19 de julho de 2011 at 10:27 pm

    Excelente texto. Realmente ficamos à mercê da sorte para não cruzar com um assassino irresponsável, já que não existe nada que venha a impedir que outros “motoristas” imprudentes como estes parem de praticar tais absurdos no trânsito. A sociedade deve se unir em favor da vida e não se conformar com estes crimes brutais.

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  2. Muito bom o texto. Até hoje eu não entendo Lei Seca : te param , você se nega a fazer o bafômetro, você paga uns trocados e tudo certo.

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