Cartão-calamidade?

Henrique França
@RiqueFranca

 

Estratégias a parte, o anúncio do governo federal sobre a adoção de um Cartão de Pagamento da Defesa Civil destinado a despesas com assistência aos desabrigados e desalojados em conseqüência das chuvas é no mínimo delicado. Primeiro porque a novela do uso de cartões corporativos pela própria administração federal já foi assistida pelos brasileiros – e a trama beirou o drama pastelão. Quem não lembra vale reprisar as cenas do ministro dos Esportes Orlando Silva devolvendo seu “magnético” para não entrar na CPI dos Corporativos e a ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, que passou vexame depois de pagar quase R$ 3 mil com dinheiro público para despesas durante as férias.

Pois bem. Agora, a administração pública federal retoma a prática dos cartões como forma de sanar com rapidez o problema de quem perdeu tudo ou boa parte dos bens durante inundações e desmoronamentos. O cartão de débito será emitido aos estados e/ou municípios em situação de emergência ou calamidade pública reconhecida pela Secretaria Nacional de Defesa Civil. O problema vem agora: o pequeno magnético será emitido em nome de um gestor, pessoa física, que ficará responsável pela compra de alimentos, remédios, roupas e outras despesas aos desabrigados.

Aqui o alerta do brasileiro vai ao nível máximo. Ora, ora, se o uso desses cartõezinhos de retirada de benefícios (leia-se bolsa família e afins), relativamente muito mais controlados, com a adoção de cadastros de cada beneficiário e recadastramentos o ano todo, está eivado de irregularidades, falcatruas; se tem gente com mansão retirando cinquenta reais com seu ‘bolsa-família-card’, se o velho e vergonhoso “jeitinho brasileiro” credencia charlatões que sugam o dinheiro dos próprios impostos, o que dizer de uma estratégia que coloca o repasse integral de verbas para toda uma população maltratada, em sua maioria pobre e longe dos ideais de cidadania, nas mãos de uma pessoa só?

Não se trata de pura desconfiança, mas da não aceitação popular pela fiança alheia. Afinal, quem acaba pagando pelo mau exemplo dado a quem não usa bem o cartãozinho somos eu e você. Vale lembrar a fala do ministro Jorge Hage, da Controladoria Geral da União, a respeito desse tipo de cartão: “o saque sempre foi um dos problemas porque anula a transparência que o cartão proporciona”.  Aprendemos? Parece que não. O que se espera, caso o Cartão de Pagamento da Defesa Civil seja mesmo adotado, é que, passadas as chuvas, não sobrem para o brasileiro apenas as marcas de uma gestão do dinheiro público equivocada, enlameada.

 

Agressores livres

Não bastasse a liberação, pela justiça, de um dos acusados confessos de agredir pai e filho durante uma feira agropecuária no interior de São Paulo – apesar da polícia pedir a prisão preventiva -, ontem um novo suspeito se apresentou e também confessou participação no crime. A dupla de agressores e outros dois ainda não identificados são acusados de surrarem pai e filho simplesmente porque ambos estavam abraçados e foram tidos como homossexuais pelos criminosos. O pai não apenas trouxe no corpo hematomas como teve parte da orelha decepada. O saldo, até agora, é ridículo: os dois suspeitos confessos tiveram prisão preventiva negada pela Justiça. Se continuar assim, vão acabar prendendo pai e filho por um abraço considerado atentado ao pudor.

Em tempo: até agora, ninguém dos “movimentos” LGBT e religiosos apareceu para propor algo decente em protesto ao ocorrido na feira agropecuária. Será que o fato de pai e filho não serem homossexuais e, ao que tudo indica, não freqüentarem nenhuma igreja arrefeceu os ânimos geralmente tão exaltados?

 

(*) Texto publicado na Coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 21 de julho de 2011

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