A lógica inversa

Henrique França
@RiqueFranca

 

Quem ainda se emociona ao cantar a frase “dos filhos deste solo és mãe”, parte do belíssimo Hino Nacional Brasileiro, deve perder o tom com a nossa mãe-nação quando o assunto é a proteção de seus filhotes. A prática é histórica, mas de uns tempos pra cá mamãe-brazuca corre o sério risco de ser enquadrada por abandono de incapaz pela corte internacional – isso se fôssemos incapazes.

A nossa capacidade como herdeiros da terra-brasilis é feita de extremos. De um lado, interesses de poucos comandantes aliados a gestores pactuados e divididos entre o comodismo do poder e o incômodo da reivindicação popular. Do outro lado, o povo, a massa, a população que lota as ruas, os coletivos, consome o que aqueles poucos produzem e faz a engrenagem girar. E aqui nasce a lógica inversa que ronda o País.

Ela existe no mercado, de forma geral. Alimentos, vestimentas, transporte, bens de consumo e até mesmo atitudes. Está em um simples pacote de biscoito recheado, por exemplo. Compre um e comprove: o fabricante pode colocar a quantidade de gordura trans que lhe for necessária à liga do recheado. Porém, o ingrediente pode provocar pressão alta, acúmulo de placas de gordura nos vasos e diabetes se ingerido. Questão de saúde pública, sem dúvida. Porém, diferente de países como a Dinamarca e a Suíça, onde a “trans” foi totalmente proibida, aqui permite-se o comércio do que é prejudicial á saúde e a responsabilidade da escolha fica a cargo do consumidor. Livre arbítrio, livre comércio ou livre descaso?

Não custa lembrar que existe medida da Anvisa obrigando fabricantes a informarem a quantidade da gordura ruim nas embalagens de alimentos. Mas aqui o patamar considerado “livre da trans” é um meio-livre, já que os alimentos com de 0,2 gramas de gorduras trans por porção e máximo de 2 gramas de gorduras saturadas por quantidade não já precisam alardear etiquetas de super saudáveis em sua embalagens. Resultado? Marcas ficam mais caras por “não conter” a saturada – mesmo contendo-a! – enquanto as mais gordurosas perdem valor de mercado. E a escolha novamente recai sobre o consumidor: quer comprar produtos mais saudáveis? Pague mais.

A lógica de Estado seria garantir o básico a seus filhotes: saúde, educação, segurança, lazer… mas ficamos à mercê de um “livre mercado” que subverte essa obrigação e nos coloca, como sociedade, diante de uma escolha-sem-opção. Caso semelhante ocorre com produtos chamados ecologicamente corretos. Que tal usar apenas papel reciclável? O governo incentiva seu uso, o futuro pede a nova postura, mais consciente, mas quem já comprou ou tentou adquiri-lo uma resma de reciclável sabe que o preço muda consideravelmente para mais em relação ao papel “branco”. E aí, novamente, a “escolha” do cidadão passa não pela consciência, mas pelo bolso do consumidor.

Finalmente, chegamos a um dos problemas mais graves e ilógicos da “mãe gentil”: a safra que chega à nossa mesa. A partir da gênese da questão, temos órgãos de controle agrícola que permitem o uso de venenos nas plantações de forma criminosa – tanto para a natureza quanto para quem consome esses frutos. O curioso é que o mesmo responsável pela liberação do envenenamento alerta: “evite consumir frutas e verduras com agrotóxicos”. Ou é uma pegadinha ou muita demência administrativa.

E lá vem a lógica invertida: assim como o papel reciclável, o setor de hortifrutigranjeiros “livre” de venenos compõe uma área VIP dos supermercados, bem mais caros. E quem consegue se alimentar melhor comprometendo outras necessidades básicas como a vestimenta, o transporte, o lazer? Que tipo de escolha é essa? Oh, mãe-Brasil, essa sua liberdade toda, de fato, tem desafiado o nosso peito a própria morte. Pátria amada, nos salve-salve!

Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 23 de julho de 2011

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3 responses to this post.

  1. Posted by gisa on 25 de julho de 2011 at 4:40 pm

    Vc está ficando cada vez mais afiado. Adoro seus textos.

    Responder

  2. Otimo texto.
    Lembrei do slogan do governo Médici: Brasil, ame-o ou deixe-o.
    Mas eh difícil deixar nossa mãe, mesmo que esta seja pouco gentil. É difícil esquecer um colo que te identifica como teu! Mãe é mãe, já diz minha mãe: ¨É o único amor verdadeiro¨. Deixa-la significa,talvez, deixar-se; abandonar de maneira mais dura sua própria identidade, sua própria raiz.

    Amar apesar de falhas, de agrotóxicos, em meios a roubos e furtos, assaltos e assassinatos -palavras duras pra ser ditas a uma mãe-, é amar. É sentir-se desprotegido, mas exatamente por isso, lutar. Isso não é pra todos, muitos vão embora viver em terras europeias. Mas quem fica, fica implorando em frases cotidianas um abraço da mãe, um abraço gentil.

    Responder

  3. Gisa, uma honra receber sua visita por aqui e ainda mais suas palavras de carinho e motivação. Responsabilidade a mil!

    Kalyne, maravilha o comentário. É isso. Talvez a “mãe” apenas esteja sofrendo calada pela desordem dos filhos. Eu, você e outros tantos não somos os filhotes perfeitos, mas conseguir ver nos “olhos” da nação o reflexo do que não deveríamos ser já é um começo.

    Muito obrigado!

    Responder

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