Só os fracos sobrevivem

Henrique França
@RiqueFranca

 

A notícia veio por um amigo jornalista, visivelmente dividido entre atordoado e emocionado com a notícia recebida quase em tempo real. Até aquele momento, poucos comentavam sobre a morte da cantora Amy Winehouse – especialmente aqui no Brasil. Dali em diante, porém, jornais, revistas, sites, emissoras de rádio e TV do mundo inteiro massificariam o fato de modo tão obsessivo quanto forçado. Uma constelação de estrelinhas até então anônimas começou a gravitar nos noticiários em torno da estrela maior: o motorista que comprou frangos para a Amy; a costureira que ajustou um de seus vestidos e, com os retalhos, fez saias para as netas; a moça que sugeriu uma depilação bem brasileira a Winehouse, os fãs reunidos próximo a casa onde a jovem artista morreu e toda a eloqüência para reforçar a perda, a comoção, o vazio na música deixado por uma jovem de 27 anos de voz belíssima e uma terrível trajetória de vida.

Amy começou cedo na música, cantava profissionalmente aos 16 anos e tornou-se conhecida mundialmente em 2006, quando lançou o disco Back to Black. Nesse trabalho, nenhuma sutileza sobre quem era ela. “Tentaram me mandar pra reabilitação / Eu disse não / Eu não tenho tempo / E mesmo meu pai pensando que eu estou bem / Ele tentou me mandar pra reabilitação / Mas eu não vou” é o trecho de uma das canções mais tocadas de Winehouse: Rehab – ou Reabilitação, em português. Em outra faixa do mesmo disco, onde canta suas reviravoltas amorosas conturbadas – não são poucos os que apontam o ex-namorado, orgulhosamente viciado, como o pivô da derrocada da cantora -, a voz grave e debochada avisa: “você sabe que eu não presto”.

O que chama a atenção na curtíssima história de Amy Winehouse, londrina descendente de judeus que conquistou o mundo pelo exotismo de sua voz ou pelos famosos vexames, é uma espécie de legado da decadência para fãs inveterados da cantora. A ausência de alguém tão jovem e talentoso, evidentemente, causa impacto e traz a reflexão questões sobre a fugacidade da vida. Porém, há uma certa confusão especialmente entre os mais apaixonados pela estrela da música, entre a arte que emana de Winehouse e sua filosofia de vida – se é que ela tinha uma. Amy fez escolhas – e escolheu entregar-se às drogas, ao álcool, a medicamentos, à depressão, a um homem de péssima influência que a tratava com desrespeito extremo, à morte.

A própria mãe da cantora chegou a declarar que sua partida era uma questão de tempo. Apesar disso, o que se vê, apesar de todo um histórico previsível não fosse pela esperança de uma recuperação, é uma corrida aos discos, à casa da cantora, aos pôsteres, aos penteados a lá Winehouse, uma caça aos últimos minutos de Amy como se eles fossem determinar algo na vida de qualquer um. E surge, no meio desse circo montado pela indústria cultural, uma espécie de culto aos transgressores. Sim, muitos outros ícones da música morreram tão jovens quanto aquela que cantou sua não-reabilitação; a grande maioria deles por causa das drogas, todos talentosíssimos nas canções, mas nada afinados com a vida.

Talvez fosse o momento para alertar sobre a mistura fatal entre o excesso de drogas e a pouca vontade de viver. No entanto, no culto a Amy não cabem críticas diretas. O luto por uma cantora fora do comum é tão raso quanto alienado: chora-se a ausência, mas não aponta-se o dedo na ferida. Talvez derrubar a imagem de que músicos, celebridades e afins trazem em seu check list o ingrediente alucinógeno seja altamente estraga-prazer. Afinal, o que há de transgressor em um roqueiro careta, que não se pica, fuma crack ou, no mínimo, pega um baseado para encarar o público? Vale levantar a bandeira em um momento tão especial para a indústria de ídolos? Os discos de Amy praticamente sumiram das prateleiras, tributos vêm sendo negociados, até mesmo a saia da neta da costureira que ajustou um vestido da cantora agora é alvo da mídia. Pra que falar em drogas, em relacionamentos doentios, em negação familiar e depressão? Quem quer saber dos “fracotes” sentimentais, limpos de corpo e mente? Esses não entrarão no reino das celebridades.

Amy Winehouse tornou-se uma musa como Melpômene, a cantora da mitologia grega. Considerada a musa da tragédia, a mitológica mulher usava uma máscara soturna e um aspecto grave. No meio de tantos desabafos e desencantos, uma frase que ela mesma cantou: “Não aprendi muito na escola / Mas sei: as respostas não estão no fundo de um copo”. É pouco para uma estrela de brilho próprio, com intensidade duradoura, mas que escolheu ser (de)cadente.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 26 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. A pergunta a se fazer é só uma: será que sem álcool, sem drogas, sem uma paixão maluca, ela seria Amy Winehouse ou seria somente uma voz bonita? Acho que não é culto ao transgressor, é reconhecer nela o mesmo que foi reconhecido em todos os grandes artistas que se foram cedo (da música ou não): uma mistura exata e sincera de vida e arte.

    Ela poderia muito bem envelhecer rica cantando com seu vozeirão amores que não viveu e experiências que não teve. E daí? Ela seria mesmo uma pessoa melhor por isso? Seria?

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  2. Posted by Pianista on 27 de julho de 2011 at 12:17 am

    Adoro seus textos porque eles são sinceros ao extremo! Ninguém gosta de tocar nas feridas… Amy tinha uma veia musical espetacular, uma voz linda e uma interpretação que só ela possuía. Contudo, escolhas erradas a fizeram parar logo cedo, muito embora alertas médicos fossem constantemente dirigidos a ela. Com toda sinceridade, embora eu saiba que vício é doença, às vezes creio que ela quis morrer no auge, quis morrer vítima das drogas. Se bem que Amy não precisava disso, pois já estava fazendo história, e continuará fazendo, pois artistas como ela dificilmente surgem por aí. Foi realmente uma grande perda para a música e, particularmente, lamentei pela morte dela.

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  3. Parabéns, Henrique! Muito bom o texto!
    Uma triste verdade: “todos talentosíssimos nas canções, mas nada afinados com a vida.”

    Fiquei bem triste ao ver que Amy tinha minha idade e jogou a vida fora desse jeito.
    Ela e tantos outros famosos, e anônimos, que perdem a vida por causa de drogas e bebida.
    E outros que, tragicamente, se tornam vítimas de motoristas bêbados.
    O mundo precisa de Deus para preencher esse vazio interior!

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  4. Muuuuuuito bom seu texto.
    Pouco conhecia, ouvia, admirava Amy, mas a tragédia ”esclareceu” para nós que foi, o que fez e como fez. Como você citou, ela num foi a primeira a ser talentosa e partir rápido em virtude das drogas. Sempre expressou toda sua vida em suas músicas e se diferenciou por isso. Porque aquilo era real, não historinhas bonitas como ouvimos. Ela optou por viver dessa forma e até a sua morte não fez nada que num tivesse uma legião de seguidores, amadores, amantes. Poderia ter vivido mais, claro, mas não teria brilhado tanto, não teria seu legado.

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