Sarney, Merlino e o Sigilo Eterno

Henrique França
@RiqueFranca

 “Coincidência previsível” 1: provavelmente você nunca ouviu falar no jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino. Seja porque ele atuava na região sudeste do País, seja porque ele morreu em julho de 1971. Porém, hoje, a Justiça de São Paulo voltará a tratar sobre ele, quando ouvirá os testemunhos de quem presenciou seus últimos momentos de tortura e morte por militares dentro do DOI-Codi, uma espécie de cento de traquinagens do mau instituído pelo Exército Brasileiro durante a ditadura militar. Se de um lado as testemunhas ficam no âmbito dos ex-militantes do Partido Comunista, historiadores, escritores e jornalistas próximos a Merlino, na outra extremidade que falar a favor do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra – acusado dessa e outras tantas mortes – estão três generais da reserva, e o atual presidente do Senado e ex-presidente do Brasil, José Sarney.

“Coincidência previsível” 2: depois de ouvir de  um jornalista pergunta sobre sua aposentadoria como ex-governador, no valor de R$ 24 mil, o senador Roberto Requião retrucou com a inacreditável pergunta: “você quer apanhar?” seguida de alguns palavrões nada “senadoráveis”. Depois disso, tomou o gravador das mãos do repórter, apagou a memória do equipamento antes de devolver o objeto de trabalho do profissional da imprensa e depois correu para a internet, em plena rede social, para desdenhar, debochar e esnobar o ocorrido. O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal pediu que o Senado abrisse inquérito acusando Requião de quebra de decoro. O Senado entendeu que não houve quebra de decoro – isso mesmo! Enfim, o presidente do Senado mandou arquivar o processo e deu o caso por encerrado. Seu nome? José Sarney.

“Coincidência previsível” 3: Aprovado pela Câmara Federal, o Projeto de Lei (PLC 41/2010) que propõe uma tabela temporal para abertura de documentos considerados ultrassecretos em 25 anos prorrogáveis por mais 25 anos está empacado no Senado. O argumento dos que são contrários à propositura é que a divulgação desses conteúdos poderia comprometer ou constranger o Brasil diante de outras nações. Detalhe: há entre os ultrassecretos documentos que datam do Séc. XIX, relacionados à Guerra do Paraguai! Dia desses, e isso já foi dito neste espaço, o Vaticano anunciou a abertura de parte de ser arquivo contendo, entre outros, documentos relacionados ao processo de Galileo Galilei, instituído pela Congregação do Santo Ofício. Mas o detalhe vem agora. Ao lado de Fernando Collor de Melo, um senador se opõe veementemente à abertura dos ultrassecretos, mesmo depois de 50 anos. Ele se chama José Sarney.

O fato é que não há coincidências quando o envolvimento de interesses particulares está em jogo – especialmente se esses interesses recaírem sobre gente que se considera dona de um Estado e, por que não?, de um País. Daí a previsibilidade no encontro de um mesmo nome, o mesmíssimo personagem, sempre político e poderoso, nessas três narrativas. Mas a ideia não é revelar as artimanhas de um homem público, seja ele quem for. Importante perceber que há uma tentativa de arrefecer essa vergonhosa mania de varrer para baixo do tapete não apenas as vergonhas do Brasil como até mesmo informações importantes para historiadores, estudiosos, cidadãos em geral – e que têm direito a saber sobre o passado do seu País -, sonegadas pela arrogância particular.

Não custa lembrar que o mesmo José Sarney retirou dos corredores do Senado um painel que retratava o episódio histórico do impeachment do seu colega e também ex-presidente da República Fernando Collor de Melo (“coincidência” 4: a dupla de ‘ex’ quer derrubar o Projeto de Lei de acesso à informação). Se com a história recentíssima, contada em tempo atual, o caro senador se considera no direito de burlar a memória coletiva brasileira com sua autoridade parlamentar, o que dirá daquilo que passou e está sob a guarda do Estado. O sigilo é necessário. Sua eternidade, não.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 27 de julho de 2011

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2 responses to this post.

  1. Posted by Luciana on 28 de julho de 2011 at 7:28 pm

    Que massa, Henrique. Sabia da sua habilidade em escrever sobre cultura e competência como jornalista de “cidades”. Não sabia que estava se aventurando no jornalismo político também. Gostei. Escreve sobre a política local!

    Responder

  2. Posted by Renata Lopes. on 26 de agosto de 2011 at 5:31 am

    Infelizmente nossa sociedade capitalista exerce o silêncio e os esquecimento opicional(memória individual),quando o assunto é:o uso da memória histórica em benefício,busca,resgate,bem como transmissão da informação.A situação se agrava e provoca revolta quando os nossos representantes,que deveriam nos proteger,e lutar por nossos direitos,são os já conhecidos políticos corruptos:Sarney e Collor.Mais uma vez,esses malandros conseguem “dá o pulo do gato” em nós,negando/escondendo a informação do cidadão.Os arquivos com todas as suas informações memorialísticas é o mediador entre o Estado e o cidadão.Sou contra esses malandrinhos:FORA SARNEY E COLLOR.

    Excelente texto Henrique.Parabéns!

    Responder

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