Igreja não é praça

Henrique França
@RiqueFranca

 

Uma cidade é feita de elementos essenciais para sua sobrevivência – seja como lugar de convivência, seja como sistema auto-sustentável. Por isso, é cortada por vias principais e secundárias, tomada por imóveis residenciais e comerciais, beneficiada com sistemas de transporte, esgotamento sanitário, sistemas de segurança, unidades de saúde, áreas livres de edificações, tudo focado o equilíbrio urbano.

Quando um desses itens toma o lugar de outro, vem o desequilíbrio. Ruas utilizadas como avenidas, bairros residenciais transformados em um aglomerado de edifícios, unidades de saúde de bairro que atende como em um distrito… é preciso readequar. E há decisões que precisam ser tomadas para evitar além da falta de equilíbrio urbano, o respeito aos moradores das cidades – não à toa chamados “cidadãos”.

Infelizmente, alguns líderes religiosos ainda não entenderam a necessidade do respeito ao que é comum e buscam no privilégio de seus rebanhos uma forma irregular de conquistar mais espaços. Exemplo clássico: o uso de espaços públicos, os chamados equipamentos comunitários, para a construção de templos ou imóveis ligados a denominações religiosas. O hábito do repasse de terrenos pelo poder público às igrejas tem causado insatisfação dos cidadãos e ações na Justiça.

Em cinco anos, por exemplo, foram erguidos mais de 80 igrejas e templos na cidade de João Pessoa em terrenos onde deveriam existir praças, parques e afins. Resultado: em outubro do ano passado o Tribunal de Justiça da Paraíba entrou com ações que podiam resultar até em demolições dos locais de culto. Constrangimento desnecessário se todos decidissem respeitar o espaço destinado a cada atividade.

Igreja é um equipamento social importante, mas não pode ser confundida com equipamento comunitário em sentido global – apenas no sentido estrito de comunidade doutrinária-religiosa. Não é correto, nem cristão, apropriar-se (mesmo que por doação) de um local onde deveria existir áreas de lazer, árvores plantadas, brinquedos instalados, um lugar de convivência. Um espaço comum à comunidade, vizinhança, amigos, família. Há algo mais cristão?

Pior é quando o brilho nos olhos de líderes religiosos faz disso moeda de troca – me dá um terreno e te dou um rebanho. Definitivamente não é correto. Felizmente isso tem arrefecido, mas ainda é preciso estar atento. A zona sul da cidade é o lugar mais visado pelos líderes religiosos, tanto pela expansão dessa área como pelo número de terrenos ainda livres de ocupação. Apenas no bairro do Castelo Branco, dois exemplos – dessa ocupação e suas tentativas: há alguns anos, fiéis começaram a se reunir em uma praça já existente no local. Pouco a pouco, as reuniões foram recebendo infraestrutura: cadeiras, bancos, tendas, uma pequena capela e, hoje, há no local um grande galpão com reuniões sistemáticas durante toda a semana. Repetindo: o templo-galpão está localizado literalmente dentro da praça.

Próximo dali, no mesmo bairro, uma outra área – caracterizada no mapa da Prefeitura literalmente como “equipamento comunitário” – recebeu durante a madrugada a visita de caminhões que desembarcaram ali pedras, cimento e areia. Manhã seguinte, os moradores foram informados que começara ali não a construção de uma praça, mas de um abrigo ligado a uma igreja das redondezas. Os moradores, religiosos ou não, reuniram-se e pediram, em abaixo-assinado, que a função de equipamento comunitário fosse respeitada no local. A obra foi suspensa. Para a surpresa da vizinhança, porém, há poucos meses foi feita nova tentativa de ocupar o lugar. Denúncia feita, o Ministério Público esteve no local e autuou o líder religioso e pretenso dono da obra. Até quando?

É preciso pensar no equilíbrio da cidade, assim como se pensa no equilíbrio espiritual. Não se trata de um discurso contrário a qualquer atividade, mas do respeito às particularidades. Templos são peças necessárias à arquitetura urbana. Parques públicos também. Mas, definitivamente, igreja não é praça.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 28 de julho de 2011

Anúncios

3 responses to this post.

  1. Posted by Simão on 29 de julho de 2011 at 3:55 am

    Se o desequilíbrio só fosse esse ainda seria bom!

    Responder

  2. Posted by Gustavo Henn on 29 de julho de 2011 at 2:16 pm

    Igreja e estado andam juntos no Brasil. Sempre andaram. Não há sequer 1 câmara de veradores que não tenha sua “bancada evangélica”, mesmo em cidades pequenas. Esse exemplo das praças é café pequeno. Muito pior é quando essa “bancada evangélica” atrasa o país atrapalhando avanços como células-tronco, legalização do aborto, descriminalização de drogas, combate ao preconceito, ensino evolucionista, estado laico, diminuição do número de feriados religiosos….

    As igrejas já são bastante beneficiadas pelas isenções fiscais, em troca do muito pouco que dão de volta à sociedade.

    Responder

  3. Posted by Pianista on 31 de julho de 2011 at 4:21 pm

    Gustavo Henn, concordo completamente com o que Henrique escreveu, mas você também precisa entender que não é só a “bancada evangélica” que possui princípios conservadores. Qualquer pessoa que tenha consciência de que a sociedade precisa melhorar e não retroceder questionaria a descriminalização das drogas e a legalização do aborto, por exemplo. O que a bancada evangélica (que não é só composto por evangélicos, diga-se de passagem) faz é representar a classe brasileira mais conservadora. Isso não é retrocesso. O preconceito também existe de pessoas que não respeitam os mais conservadores. Mente aberta significa respeito, seja de um lado, seja de outro.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: