Sadismo, violência e medo

Henrique França
@RiqueFranca 

                Perdão. Esse é o título do mais novo CD de um ex-viciado em crack que atuava diretamente na recuperação de outras vítimas das drogas. Atuava, no passado, porque ontem Abner Machado Neto foi apresentado pela polícia paraibana como o homem que seqüestrou, dopou e estuprou por horas duas crianças em João Pessoa – as vítimas tinham 11 e 9 anos de idade. O caso chocou a todos, e o homem que dirigiu um “Desafio Jovem” em Sergipe e pretendia construir a Clínica 7 Passos Para a Liberdade chorou. Perdão, ele pediu.

                Os detalhes cruéis do chamado modus operandi de Abner Neto, idealizador do Projeto “Vida100Drogas”, são de revirar o estômago. “Foi um bicho quem fez isso com minha filha”, declarou o pai da última vítima, de 11 anos, violentada por 12 horas e largada em um bairro da cidade, drogada, desnorteada e traumatizada por toda a vida. Para os que conviviam com o publicitário recuperado das drogas e até então missionário da palavra de Deus – segundo ele próprio -, ele não era um monstro. Suas atitudes, agora, estão na galeria das monstruosidades dos nosso tempos.

                O ato de constranger alguém mediante violência ou grave ameaça, resultando em conjunção carnal ou prática de ato libidinoso, o tal estupro, é um dos crimes mais agressivos e debatidos no mundo inteiro. Segundo a Organização Mundial de Saúde, uma em cada cinco mulheres foi ou será estuprada. Uma estimativa alarmante, um alerta constante. Na comunidade científica, há quem classifique o estupro como uma ação natural do sexo humano. A tese foi defendida há 11 anos pelo biólogo Randy Thornhill e pelo antropólogo Craig Palmer, ambos americanos, no livro A Natural History of Rape (“Uma História Natural do Estupro”).

                Até 1975, mulheres estupradas precisavam provar que não haviam “incitado” o estuprador ao ato. Caso estivesse usando roupas justas, portando-se de modo sensual ou mesmo que não provassem que haviam tentado resistir à violência elas poderiam ser acusadas de consentimento. O argumento absurdo veio ao chão quando a feminista Susan Browmiller lançou o livro Against our Will (“Contra nossa Vontade”), onde o estupro estava ligado violência, poder e opressão do homem sobre a mulher – longe da ideia de deseja sexual consolidado.

                Mas, o que passa pela cabeça de alguém como Abner Neto, um evangelizador que visitava hospitais, escolas, igrejas, entoava cânticos de libertação, ia sozinho com seu violão aos lugares mais carentes de afeto e ali tentava levar aquilo que agora não tem: paz, confiança, consolo, esperança? O publicitário declarou uma preferência em suas vítimas: elas precisavam ser virgens. Chegou a abordar a irmã da menina de 11 anos que sofreu por horas sob seu jugo, mas abandonou a ideia quando soube que a garota já havia tido relações sexuais. Que sadismo é esse por algo tão precioso para a mulher, tão vulgarizado pelo senso comum, tão motivo de piadas e constrangimentos?

                O mais assustador é ver naquela pessoa que chorava diante das câmeras alguém que se passou por um homem de bem, um lutador contra a dependência química, uma nova pessoa. E como não? Quem são nossos amigos, vizinhos, irmãos de clube ou de igreja? Que doença é essa que de tão guardada se torna monstruosa quando revelada? Impossível refletir sobre casos como esses e não pensar no jogo de videogame japonês onde, para vencer, o jogador precisa estuprar mãe e filhas em praça pública. Não dá para dizer que não existem aos montes sites na internet dedicados às cenas mais chocantes de meninos e meninas violentados diante das câmeras, para sadismo de tantos internautas doentes e que agora apontam o dedo para o homem preso ontem.

                O assunto, se aprofundado, provoca náuseas. Choca e constrange em uma conversa detalhada. Os olhos se voltam ao chão, envergonhados. Mas quantos, com esses mesmo olhos, no seu “direito à privacidade”, fecham-se em cômodos proibidos para fixarem seus olhos sedentos sobre o mesmo sadismo e violência relatados até aqui. São apenas reflexões de uma sociedade que, no mínimo, nos desperta o medo.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de julho de 2011

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4 responses to this post.

  1. Posted by Pianista on 31 de julho de 2011 at 4:11 pm

    Que horror! Estou indignada!!! Estou ultimamente ocupada com outras coisas e meio “por fora” de certas informações. Fiquei sabendo deste caso só agora depois de ler seu artigo. O que mais me chocou foi o fato de um antropólogo e um biólogo afirmarem que o estupro é natural. Por isso não suporto as ideias mirabolantes de Darwin, que tratava os seres humanos como animais. A coisa mais estúpida que já vi diante de tudo o que a Ciência afirma sem provas é justamente a teoria darwinista. Não somos bichos, temos senso de pudor, do que é certo e errado, e isso não foi forçado por ninguém, por nenhuma religião ou dogma. Todo ser humano sabe que machucar o próximo é errado, seja de maneira física ou psicológica, e isso não precisa de ensinamento de ninguém. Esse cara é um doente, que de evangelista não tem nada.

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  2. Posted by Carla Quintas Vieira on 1 de agosto de 2011 at 8:22 pm

    Parabéns amigo, pelo seu blog. Muito legal. Eu vi essa notícia no fim da semana passada e tive tanto nojo desse homem, que prefiro nem comentar. Deixa para os próximos textos.. bjos

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  3. Posted by Stephany Eloy on 2 de agosto de 2011 at 7:25 pm

    Seu texto está ótimo. Parabéns!
    Esse fato foi indignante mesmo. É por isso que eu sou a favor da pena de morte. Um cretino desse não ousaria cometer uma barbaridade dessas sabendo que poderia ser pego e morto.

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  4. Lendo sobre pessoas como este homem fico pensando se vale a pena ter essa disposição infinita de ver só coisas boas em todo mundo. Raramente vejo maldade nas coisas e aí de repente você se depara com esse tipo de absurdo. A gente conhece alguém ali, acha legal mesmo mal sabendo como ele realmente é. E se for um sádico? E se não for? Não sei se cabe a mim ficar julgando ninguém quando conheço, mas é impossível não ter medo de conhecer alguém assim. Tenso isso, viu? Que história bruta…

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