Valor-notícia e valor-humano: quem dá mais?

Henrique França
@RiqueFranca

 

Há no jornalismo um conceito amplo e perseguido pelos profissionais da imprensa – mesmo sem saber – chamado valor-notícia. Trata-se, na verdade, de uma série de critérios elencados que podem determinar a importância de um fato ou acontecimento. Quanto maior o ‘valor’, mais relevante o assunto se torna, do ponto de vista de notícia. Assim, quesitos como amplitude, freqüência, negatividade, caráter inesperado, referência a pessoas conhecidas e o pitoresco podem ser considerados valorosos para o jornalista e a empresa de comunicação.

Porém, o valor-notícia é colocado em questão quando entram na roda de discussões das redações critérios éticos. Exposição perigosa de fontes, excesso de imagens (textuais ou pictóricas) de caráter grosseiro, permissão de linguajar inadequado, violência extrema são exemplos de freios para arrefecer a ânsia de noticiar tudo, no calor da adrenalina jornalística. Infelizmente, o que temos assistido recentemente é uma ausência de questionamentos diante do que consideramos digno de notícia.

Especificamente sobre o caso do homem que confessou ter estuprado duas crianças e já foi reconhecido por cerca de outras dez vítimas, há questões que merecem sensibilidade e reflexão. Entre os deslizes, profissionais da imprensa que reiteram os nomes das vítimas – meninas de 9 e 11 anos, que estão vivas -, programas que levaram a garota violentada por 12 horas para um estúdio, onde a pequena concedeu entrevista. No final do dia, os pais da vítima aparecem diante das câmeras, cara limpa, comentando o ocorrido e a prisão do acusado. Celebridades?

Comentários internos revelam que a menina, vitimada há poucas semanas, teria dito aos pais: “não quero mais falar sobre isso. Quero esquecer esse assunto e esse monstro”. Como esquecer um momento tão traumático se repórteres perguntam “como você se sente?”, “como aconteceu?”. Como fica uma família que se expõe – ou é exposta – dessa forma? Como retomar a vida? E depois, que contrapartida a mídia dará para a reabilitação dessa criança? Afinal, uma certeza: sua história infeliz e dramática serviu para alavancar índices de audiência das emissoras. Mas… vale?

 

 

Mais sobre igrejas e praças

A respeito do texto “Igreja não é praça”, publicado neste espaço no último dia 28 (quinta-feira), o professor e historiador José Flávio, da Universidade Federal da Paraíba, trouxe valiosa contribuição comentando não apenas a ocupação de áreas de equipamentos comunitários por templos religiosos como retomou um fato histórico pouco conhecido: a demolição de templos no início do século 20, para a instalação de praças públicas. Leia a mensagem na íntegra:

 

Caro Henrique,

         Lendo  artigo “Igreja não é Praça”, de sua autoria, de hoje, chamou-me a atenção pelo fato corriqueiro dos responsáveis pelas igrejas invadirem os terrenos públicos.

         Resido no bairro do Cristo Redentor, próximo ao IML, na rua Poeta José Limeira, na confluência dessa rua com a Cunha Lima, onde há uma igreja erguida. Não sei dizer se o terreno contempla toda a área da igreja. Assim sendo, ficaria uma baita construção. Só que, a igreja evangélica construída não utilizou 1/3 do terreno.

         Observando a área construída e a livre dei-me conta que uma praça serviria bem àquela comunidade residencial. Fui falar com um dos responsáveis pela administração da igreja com a proposta como porta-bandeira. Falou-me ele que a igreja tinha projeto. Voltei cabisbaixo. Essa conversa decorre uns dez anos e até hoje não vejo qualquer feitura, a não ser um muro cercando o terreno, ato realizado logo após nossa conversa.

          Segundo, houve uma inversão de ordem. Na década de 20 do século passado, as igrejas coloniais N. S. do Rosário, N. S Mãe dos Homens, N. S. da Conceição e N. S. das Mercês foram derrubadas pelo poder público para construção das praças, respectivamente, Ponto de Cem Reis, Praça Antônio Pessoa, Mausoléu em homenagem a João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque e Praça 1817. Ressalve-se que as igrejas destruídas foram reconstruídas, perdendo caráter e sorriso estético, peculiar nelas.

 Atenciosamente,
José Flávio – professor

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de julho de 2011

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2 responses to this post.

  1. Na minha opinião, tanto não vale quanto não se pode culpar os pais ou as vítimas. Conheço alguns casos de pessoas que se expõe desse modo acreditando que é uma forma de buscar justiça a todo custo, o que é muito comum. Mas nesse caso, a exposição não justifica nada. Acho que um jornalista diante desses casos é obrigado a entender a situação de responsabilizar pelo que está levando ao público. Ele deve SER a vítima por alguns minutos. Como é possível representar o povo sendo seu crucificador?

    Ah, gostei, viu? Serei sua leitora assídua. ;]

    Responder

  2. Posted by Pianista on 2 de agosto de 2011 at 11:46 pm

    Infelizmente é uma pena os valores humanos serem diminuídos em troca do valor-notícia. Lembrei-me do filme “O quarto poder”, onde naquela história de ficção o jornalista foi responsável direto pelo suicídio de um dos personagens principais – personagem que era o foco da reportagem daquele jornalista. Lembrei também desses apresentadores paraibanos fazendo um show com as mortes de adolescentes por causa do tráfico ou com pessoas vítimas de acidentes fatais. O show sanguinário está acima até mesmo do valor-notícia. Não há mais um parâmetro ético do tratamento da notícia. Não respeitam sequer crianças que foram violentadas. É uma pena que o jornalismo que é uma profissão tão linda, interessante e admirável consegue se vender por tão pouco.

    Responder

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