A segurança nos coletivos anda estacionada

Henrique França
@RiqueFranca

                A notícia de um ônibus incendiado por assaltantes, em João Pessoa, rodou o País. A ação de dois homens que invadiram o coletivo com garrafas PET cheias de material inflamável em mãos, renderam passageiros, cobrador e motorista e roubaram do veículo meros R$ 100 foi estampada em portais de notícias nacionais e comentada por apresentadores de programas policiais na TV. Na investigação, policiais ouviram testemunhas e ainda procuram pistas. Porém, até agora ninguém foi preso pelo crime. A dificuldade da polícia e o trauma vivido pelas vítimas poderiam ser evitados – ao menos arrefecido – se as empresas respondessem positivamente a uma questão simples e necessária: onde estão as câmeras de segurança desses veículos?
                A pergunta se coloca diante de uma possível sugestão simplesmente porque a instalação dos equipamentos de segurança em cada um dos ônibus que circulam pela capital paraibana havia sido prometida pelas próprias empresas, há cerca de dois anos. Um busca simples na internet revela a promessa, em manchetes do tipo “ônibus de João Pessoa serão equipados com câmeras de vídeo”. O texto da matéria, escrita em 2009, é otimista, mas inócuo: “Para inibir a ação de criminosos no interior dos ônibus que circulam pela capital paraibana, as seis empresas de transporte público que atuam em João Pessoa continuam com a meta de equipar, até o final deste ano, toda a sua frota operante com a instalação de câmeras de vídeo no interior de seus ônibus.”
                Segundo a notícia que encheu usuários de esperança por um transporte coletivo mais seguro, a iniciativa faria parte de um projeto de melhoria do serviço prestado à população, “cujo objetivo maior é aumentar a satisfação do usuário.” A meta, ainda de acordo com a notícia, seria de instalar duas a três câmeras nos 430 veículos que integravam a frota da Capital, naquele ano. Infelizmente, até hoje essa meta não foi cumprida. Se assim fosse, talvez a polícia tivesse, agora, identificado e capturado os bandidos que invadiram, assaltaram e atearam fogo ao ônibus-notícia-nacional.
                Diante da violência iminente e do prejuízo recorrente por causa de assaltos e abordagens criminosas a coletivos no Brasil inteiro – e João Pessoa não está imune a isso -, a instalação de câmeras que qualquer loja ou residência possui, hoje, seria o mínimo muito menos pelo público-cliente do que pela seguridade das empresas, sua frota, funcionários, patrimônio. Porém, ao contrário, os assaltos se repetem e sequer uma imagem é revelada, comentada; um bandido sequer capturado por causa da tecnologia prometida e até não cumprida.
                Pior: a ocorrência de assaltos a coletivos na cidade tem aumentado. No último dia 27, um homem rendeu um cobrador e assaltou um ônibus no bairro do Geisel. Em 23 de abril, mesmo procedimento – só que no bairro da Torre. Imagens? Elas até existem, mas não são dos bandidos. Quem se mostra na tela são passageiros vitimados, motoristas e cobradores traumatizados, testemunhas indignadas.
                Vale lembrar que o Projeto Caminho Livre, anunciado recentemente pela Prefeitura de João Pessoa privilegia, em concordância com o conceito de sustentabilidade, a melhoria no fluxo e comodidade de circulação dos transportes coletivos na Cidade. Então, nada mais justo que todo esse cuidado pelo poder público seja minimamente correspondido por empresários que têm autorização para transportar os cidadãos da Capital. Quem dera não houvesse um ônibus incendiado para que essa discussão viesse à tona. Mas, apesar de rodar muito bem, a frota de veículos que fazem o transporte coletivo em João Pessoa parece realmente estacionada quando o assunto é segurança.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 3 de agosto de 2011

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One response to this post.

  1. Ô, tudo que se refere a trânsito/transporte público nessa cidade tá bem caótico, viu? A qualidade dos ônibus eu não nego, mas semana passada fui atingida por um resto de comida que alguém achou muito conveniente jogar nos passageiros. Outro dia minha mãe chegou tarde em casa, porque o ônibus dela foi atingido por uma pedra. Direto no meu bairro saem notícias de assaltos em ônibus e agora isso… Segurança não tá sendo prioridade mesmo.

    Aliás, em aspecto nenhum, porque pelo que eu soube, os assassinatos aumentaram, os assaltos em geral também… E os engarrafamentos? Hoje, em plenas 10h da manhã, passei 15min parada na Epitácio, dentro do ônibus, só para andar cerca de 10 metros e parar de novo. Foi uma batida. Enquanto isso eu recebo mapas e projetos das soluções para o fluxo no trânsito propostas pela Prefeitura todos os dias pelo Twitter. Onde????

    Quando será que vão começar a pensar numa cidade para a população e não para as empresas, para os carros, para as corporações, para o dinheiro…?

    [Ei, Henrique, lembrei de uma coisa que eu andei lendo/assistindo esses dias, daí meu comentário. Não tem muito a ver com o texto, mas acaba tendo também. http://cidadesparapessoas.com.br/%5D

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