Salário de professor: o mais barato da praça

Henrique França
@RiqueFranca 

                Há uma frase circulando pela internet, atribuída ao humorista Jô Soares, que diz: “O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!”. Pela acidez verdadeira da oração, se a afirmação não veio do apresentador beijoqueiro, só pode ter vindo de algum representante do Governo Federal. Afinal, o descaramento com que a administração pública nacional trata os docentes deste Brasil é tão absurda que uma piadinha a mais vinda do Palácio do Planalto seria fichinha diante da seriedade do desmonte que se pretende no setor da Educação tupiniquim.

                Esse é um bom momento para tratar do assunto, quando docentes de universidades e instituições federais de todo País – sem contar aqueles, ainda mais massacrados, que atuam em unidades de ensino municipais e estaduais – se organizam para deflagrar e/ou discutir greves, mobilizações e ações de enfrentamento a propostas indecentes que correm apressadas pelos corredores e plenárias da Câmara e Senado federais.

                Uma dessas propostas é o Projeto de Lei Complementar 549/2010 que, resumidamente, aponta para o congelamento do salário de servidores públicos por nada menos que dez anos, além de impedir a realização de concursos para reposição de pessoal e controle a rédea curta os gastos com investimento na administração pública. Quem propõe tal absurdo é ninguém menos que a Casa Civil, autora do texto já aprovado no Senado e que tramita na Câmara dos Deputados.

                Curioso é que, como abordado há poucos dias, neste espaço, há casos em que Projetos de Lei tramitam por mais de uma década em Brasília, sem que haja uma decisão a respeito da matéria. Quando o assunto é sucatear ainda mais o serviço público – em especial, aqui, a Educação – os trâmites são exemplarmente céleres. Daí, em boa parte, a correria por mobilizações, mesas de negociações e greves nas instituições Brasil afora. Como sempre, depois de acesa a centelha são os servidores quem precisam correr até Brasília para tentar apagar o incêndio.

                No caso dos professores de instituições federais, existe um agravante. É que grande parte da população acredita piamente que docente de Ensino Superior, no Brasil, é rico. Belíssimo engano. Na verdade, essa é provavelmente a categoria que menos ganha entre os lotados no serviço público federal, se comparados níveis e titulações. Aliás, nem chega a isso. Uma lista de “tristes curiosidades do Brasil”, que está publicada inclusive na página e-democracia, da Câmara Federal na Internet, aponta que “um diretor sem diretoria do Senado ganha o dobro do que recebe um professor universitário federal concursado, com mestrado, doutorado e prestígio internacional”. Até ontem, ninguém da Câmara havia respondido ou mesmo retrucado a informação contida no site oficial.

                Não é raro encontrar alunos nos corredores conversando sobre o status de professores, suas riquezas e afins. O que parece, de fato, é que muitos docentes evitam comentar salários não por charme de riquinho, mas por certo constrangimento. Afinal, não é difícil encontrar aluno que ganha, como autônomo, empresário ou ‘filhinho de papai’ mais do que seu professor. Não que isso seja errado ou houvesse uma competição entre classes, mas diante dos anos de estudo dedicados e da responsabilidade que carrega um docente, a situação é mesmo vergonhosa.

                Vamos lá. Para se ter uma idéia, um professor de Instituto Federal com mestrado recebe, em seu vencimento básico, R$ 1.115,02. O restante do vencimento no contracheque vem de gratificações nunca incorporadas e que podem mudar ao sabor dos ventos de governos. Ali, nos IFs, a greve é por 14% de reajuste e aumento de 10% do PIB para a Educação. Em uma Universidade Federal o vencimento básico de um docente com doutorado e dedicação exclusiva – ou seja, esse profissional não pode exercer qualquer outra função fora da Instituição – é de meros R$ 2.318,71. Há uma lista de oportunidades em concursos, até mesmo para o nível médio, onde os salários iniciais passam muito acima dessas cifras. Sinceramente, você passaria por um concurso em três fases, depois de ter encarado pelo menos mais seis anos pós-graduação, para ganhar isso?

                Sim, muitos se esforçam por isso. E o fazem porque professor de verdade é vocação, tem que gostar do que faz. Mas vocação, apenas, não enche barriga, não produz dividendos para criar filhos, não significa ignorância financeira. E ninguém gosta de ser tratado como “o material mais barato que existe na praça”.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 5 de agosto de 2011

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10 responses to this post.

  1. Posted by Pianista on 7 de agosto de 2011 at 7:06 pm

    E ainda reclamam quando os professores fazem greve. A maior raiva que dá é que políticos como Tiririca, que nem o ensino fundamental têm, ganham absurdamente melhor que os profissionais com pós-graduação, que se dedicam à pesquisa e ao ensino. Até quando o povo vai baixar a cabeça para isso? Por que o brasileiro não se movimenta, não faz “greve de trabalho”, não faz nada? Brasileiro é muito relaxado. Duvido que se isso fosse na Europa, e essa corrupção absurda e os salários dos mestres fosse como os nossos, a população iria “deixar quieto”.

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  2. Jesus amado. Vergonha dessa país! Vergonha! Fui professora, convivi com muitos professores e sei que a realidade não é nada colorida. Ótimo texto!

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  3. Esse é o cenário, Danielle / Pianista. Infelizmente, pior é que tem gente simplesmente contra a mobilização e a indignação dos professores sem saber sequer os motivos dessa indignação. Contra pelo contra…Todo mundo quer passar pela universidade e correr para o mercado de trabalho, ganhar bem, ser valorizado como profissional… mas na hora de valorizar quem forma essa turma, a coisa muda de figura. O Brasil tem um dívida, isso sim, com a Educação. Dívida das grandes, que vai muito além da questão salarial. Debatermos isso é um bom passo… Obrigado pela presença de vocês por aqui, sempre.

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  4. Posted by Christinne Eloy on 10 de agosto de 2011 at 1:54 pm

    E, para completar, o Governo faz apelo para que nada seja alterado em relação aos seus gastos para os próximos 2 anos… Bem, acho que os professores, além de também não aumentarem seus gastos, precisarão reduzi-los, uma vez que a greve é, em grande medida, para que seja reajustado segundo a inflação que já engoliu o valor de seus vencimentos…
    Enquanto isso… o nosso Governo, que diz que investe em educação, acabou de reduzir os impostos para as empresas automobilísticas, o que vai reduzir em seu orçamento meros 25bilhões. Se isso fosse revertido para a educação…sonho!
    Enquanto a educação não for prioridade verdadeira no país, continuaremos nos divertindo com programas de televisão medíocres para passar o tempo, já que a maioria não tem dinheiro para lazer de verdade.
    Vergonha!

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  5. Realmente há um descaso com a educação neste país, muitas vezes não somente em investimentos na infra-estrutura, mas sim, investimento no pessoal (corpo docente, discente, funcionários).

    Muitas das vezes nós professores temos que arcar com despesas de educação continuada para acompanhar o desenvolver da ciência nos congressos, encontros, mesas redondas, enfim, pagamos para sermos os melhores profissionais, onde deveriam investir em nossa capacitação e ainda por cima quando fazemos este tpo de investimento não somos reconhecidos.

    Parabéns Henrique pelo texto e aguardo os próximos pois sempre são interessantes.

    Abraço.

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  6. Essa situação se agrava quando pensamos nas universidades privadas. Acho que educação nunca deveria ser comercializada, mas já que acontece, vemos que só quem ganha são os donos das universidades. A mensalidade de apenas 2 alunos já paga o salário de um professor, retirando os gastos com a estrutura, ainda resta bastante. Pra onde será que vai este restante?

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  7. Sou professor (por enquanto só do ensino médio) e digo a meus alunos: pra ser professor no Brasil é preciso gostar muito do que faz, mas muito mesmo! Se vocês tiverem uma boa lábia é melhor ser comerciante ou coisa parecida do que professor!
    Acredito mesmo que há um plano de sufocamento desta categoria e de tudo que diz respeito ao ensino no Brasil. O caso dos professores das instituições federais é só mais um. Este vídeo corrobora com isso que estou afirmando: http://www.youtube.com/watch?v=TLUgk17V4c4

    Vejam o que acontece no Chile: http://www.youtube.com/watch?v=HTr_YOLq2wg

    Mais de 1 milhão de pessoas em protesto nas ruas pela educação. Alguém já imaginou isso aqui no Brasil?? Estão todos esperando um milagre cair do céu com um controle remoto na mão e uma televisão ligada na sua frente. Assim até parece que vai tudo muito bem por aqui. Sem pressão nada vai mudar!!

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  8. Posted by Renata Lopes. on 28 de agosto de 2011 at 3:40 pm

    Quem escolhe SER professor “atualmente” é um heroí,que trabalha por paixão e coragem(péssimo salário).Acredito na mobilização dos professores,tem que fazer greve mesmo,lutar pela categoria,é um absurdo estudar 8 ou 10 anos(graduação,mestrado e doutorado) de sua vida p/ganhar R$ 2.318,71.O nosso país não valoriza a educação,e consequentemente os professores,estes que são responsáveis pela educação dos filhinhos de vocês(a ilusão de que “jogar” os filhos na escola é o lugar aonde eles vão ter a educação ainda permanece);Os professores tem que fazer greve,manifestações,debates etc.É uma pena que o Brasil não valorize a educação,que é a alma do caráter de uma nação.

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  9. […] Na lógica produtivista do Ministério da Educação, quanto mais alunos “bem sucedidos” (leia-se aprovados em nota), mais possibilidade de recursos, projetos e afins. Muitas reprovações podem significar baixa qualidade no ensino (professores “ruins”?), mesmo que a escola ofereça condições estruturais mínimas, esteja instalada junto a bocas de fumo, seja alvo de vandalismos e apresenta altos índices de gravidez entre alunas e criminalidade entre os alunos. Assim, esse arremedo de escola deverá receber cada vez menos verbas e atenção. Acaba se tornando motivo de vergonha para os índices, especialmente se seus estudantes forem vistos como um péssimo investimento econômico. E que os do norte não nos ouçam, mas do lado de baixo do Equador os professores são detentores dos piores salários registrados. […]

    Responder

  10. […] de que, no Brasil, ser professor significa fazer parte de uma das categorias do serviço público com piores salários – em algumas instâncias, eles chegam a ser de longe os mais baixos. O mais irônico – para não […]

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