O passeio do homem da lei

Henrique França
@RiqueFranca

                 A cena não chamaria a atenção dos mais desatentos, mas merece o registro. Ao largo de uma das principais avenidas da Zona Sul da cidade, veículos estacionados irregularmente sobre calçadas, passagens de pedestres interrompidas e motociclistas sem capacete são vistos por quem quiser ver. Até mesmo por um agente de trânsito todo paramentado, sobre a moto equipada com giroflex, que viu, mas fingiu não ver.

Não custa perguntar o porquê dessa omissão. Afinal, no cumprimento do dever, um agente de trânsito pode fazer cumprir a lei ao verificar uma cena irregular. Se um motociclista trafega sem capacete ou um veículo circula sem placa, por que não pará-lo, autuá-lo ou minimamente orientá-lo a regularização? Em plena campanha pela desobstrução das calçadas, especialmente por veículos irregulares, o que desmotiva um homem da lei na iniciativa de multar quem desrespeita o espaço não reservado a carros e motocicletas?

Eximir-se da responsabilidade de autuar e multar veículos em situação irregular, durante seu horário de expediente, é como aceitar que um policial em missão veja um assalto e passe ao largo. Policiais, agentes de trânsito, homens da lei não precisam esperar grandes operações para atuar. Se cada um fizer a sua parte, de forma coerente e correta, seremos todos recompensados. E teremos, até mesmo no horário de expediente, mais possibilidades de um passeio tranqüilo.

 

Fiscalizar é preciso, ordenar é fundamental

O Código Brasileiro de Trânsito (CBT) é claro: a preferência no sistema trafegário do País é do pedestre. Pelo menos nos papel, quem anda despido de lataria e motores – sejam integrados por cavalos potentes ou pôneis “malditos” – deve ser foco de atenção e respeito. Porém, na prática, na hora de acelerar, quem tem pernas que corra para não ser atropelado. Questão (difícil) de educação.

Esta semana, uma medida contundente começou a ser tomada pela Prefeitura de São Paulo. A regra que sempre existiu agora será fiscalizada de perto e resultará em multas para quem insistir em desrespeitá-la. Pagamento de R$ 191,53 e sete pontos na carteira para quem não der a preferência a pedestre ou veículo não motorizado na faixa ou aqueles que não tiverem concluído a travessia – cena triste de ver quando o semáforo abre e ainda há pessoas atravessando a pista. Há outras penas, tomadas como novidade e que não passam de apelo ao bolso de algo que já está na Lei.

Diferente de São Paulo, na capital paraibana o respeito à faixa de pedestre pela grande maioria dos motoristas é notória. Dá gosto de ver o trânsito desacelerando para estudantes, senhoras, crianças e jovens terem a chance de continuar seus caminhos sem medo, com segurança. Não é raro, inclusive, ouvir de motoristas além-fronteiras elogios à prática. Fruto de campanhas e do engajamento popular, o trânsito em João Pessoa está mais educado, pelo menos no tocante às “zebrinhas” sobre o asfalto.

Há algo, porém, que precisa ser respondido. Tanto na ‘Terra da Garoa’ como na ‘Capital onde o sol nasce primeiro’, como dar a preferência quando o desenho de trânsito não deixa claro a direção, o cruzamento, a passagem, a margem da via? Parece confuso? Pois é confuso, mesmo. Centro da cidade, o semáforo verde para os veículos. É possível seguir em frente ou dobrar a direita. Porém, à direita pessoas ainda precisam cruzar a via. O semáforo não previu o tempo dessa passagem. O que fazer? Parar o veículo e arcar com a interrupção do tráfego de veículos automotores ou seguir e cair no desrespeito ao pedestre?

Não faltam exemplos de cruzamentos, semáforos, bifurcações confusas e escusas aos personagens dessa trama: motoristas, pedestres e agentes de trânsito. Cumprir a lei é fundamental. Fiscalizar com rigor, ainda mais. Porém, para que se mantenha certa ordem e uma base necessária ao cumprimento da norma é preciso ajustar o que ainda anda torto, e muito, pelas ruas da cidade.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotianaMente, do Jornal A União, edição de 9 de agosto de 2011

 

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3 responses to this post.

  1. hehe Adorei isso aqui! É, eu também já ouvi comentários positivos sobre o respeito a faixa mesmo, mas ser parâmetro não quer dizer estar perfeito, né? Nem precisa ser homem da lei pra notar como as pessoas relaxam com a fiscalização. Infelizmente esse é um ponto fraco brasileiro, eu diria. Ninguém acredita realmente que vá ser multado, parado ou sei lá mais o que. Aí fica por isso mesmo. As pessoas andam como querem, os homens da lei fazem vista grossa para os pequenos, porém não desimportantes, desrespeitos à norma. Somos todos muito cômodos… Fato.

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  2. Foi muito feliz na comparação de um agente de trânsito e um policial,pois até mesmo quando autuados sabemos que sempre existe o “jeitinho brasileiro” de tratar alguns desses tipos de autoridades.Onde tais visam apenas o “próprio nariz”.
    Fiscalizar é fundamental!

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  3. […] – O passeio do homem da lei […]

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