Crianças obesas, princesas-frankenstein

Henrique França
@RiqueFranca

 

É difícil saber onde o problema é mais crônico: se no corpo das crianças e adolescentes brasileiros ou na cabeça de seus pais e responsáveis. Nos pequenos, o presságio é de sério risco à saúde. Nas meninas em puberdade, principalmente, total inversão de valores. Tudo ignorado ou, pior, chancelado por quem deveria orientar, proteger e educar.

A primeira afirmação, sobre os riscos de saúde às crianças brasileiras, tem como base o aumento das estatísticas da obesidade infantil no País. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, referentes a 2008 e 2009, mostram que os casos de obesidade no Brasil mais do que quadruplicaram entre crianças de 5 a 9 anos. Nos meninos, os índices chegam a 16,6%, enquanto 11,8% das meninas apresentam perfil obeso.

Se o foco for ampliado para crianças com excesso de peso, a situação se agrava ainda mais. Entre os garotos, o sobrepeso saltou mais que o dobro, e triplicou entre as garotas. Para quem gosta de números, tem mais: atualmente, uma em cada três crianças brasileiras dos 5 aos 9 anos está acima do peso ideal para sua idade. E a cena não é menos preocupante para pré e adolescentes entre 10 e 19 anos, faixa em que a irregularidade na balança – para cima! – é de aproximadamente 20%.

A lista de motivos para esse novo e preocupante quadro de nossas crianças não poderia ser mais óbvio: mudanças nos hábitos alimentares, agressividade na oferta de produtos cada vez mais calóricos, coloridos e “venenosos” a longo prazo e, finalmente, a diminuição das atividades físicas até na hora do lazer. Os médicos se preocupam, os pais também. Mas nem toda essa agonia tem conseguido reverter o quadro de engorda das crianças brasileiras.

Mas a preocupação dá lugar à comodidade na hora de incentivar o filho a comprar lanchinhos feitos de corante e açúcar ou óleo e gorduras na escola, no hábito de agradar os pequenos permitindo refeições diante da TV, o pouco compartilhamento de atividades físicas em comum com os filhotes e, especialmente, no péssimo exemplo de pais para filhos. Os resultados vão além de pequenos “cheinhos”: não raro crianças apresentam quadro de hipertensão, estresse e depressão, facilmente linkados com o excesso de gordura no organismo. Isso é muito mais que estética.

 

Neo-siliconadas

Por falar em estética, o segundo problema crônico aqui apontado diz respeito a meninas adolescentes que voltaram das férias escolares diferentes. Não, elas não viajaram para conhecer novos lugares ou iniciaram um novo namoro – sequer leram um novo livro. Simplesmente muitas delas retornaram às salas de aulas ostentando novos seios, aos 15 ou 16 ou 17 anos, siliconados.

O assunto virou moda nos últimos dias. De um portal de notícias seguiu para uma reportagem na TV e daí para o orgulho das belas meninas, ainda com seus corpos em descoberta, submetidas – por insistência delas mesmas – a procedimentos cirúrgicos mutiladores, dolorosos e desnecessários. Os casos são tão absurdos que beiram o ridículo. Uma das neo-siliconadas afirma que ganhou os implantes de 300 ml dos pais, como presente antecipado de aniversário.

A indústria de princesas-frankenstein é tão sarcástica que em concursos de Miss Teen Brasil o prêmio concedido é de R$ 20 mil, pasmem, em cirurgia plástica. Isso mesmo. As vencedoras não podem usar o dinheiro para comprar algo, viajar ou abrir investir em educação, por exemplo. O pagamento é direcionado à indústria da modelagem do corpo. Não à toa os índices são gritantes. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, entre setembro de 2007 e agosto de 2008 foram realizados 629 mil procedimentos cirúrgicos estéticos, e 37.740 deles em adolescentes.

Do jeito que a coisa vai, com crianças cada vez mais obesas, pais cada vez mais omissos e uma indústria de belos frankenteins sedenta por dinheiro, prestígio e afirmação, não haverá de se estranhar se um dia começarmos a ouvir falar em lipoaspiração infantil. Seria um pouco demais… será?

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 10 de agosto de 2011

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2 responses to this post.

  1. Olha não discordo em nada. A verdade é que os valores de antigamente foram totalmente esquecidos, não querendo ser romântica demais, mas me diga uma coisa quem não gosta de um bom dia, boa tarde, boa noite, com licença, obrigada, você está bem?… Por muitas vezes trabalhar, trabalhar, trabalhar, ganahr dinheiro, passa por cima dos valores antes existentes nas famílias, acompanhar o filho até a escola, preparar seu café da manhã, jogar bola com ele, enfim, a corrida em busca de dinheiro parece agora mais importante do que correr contra o tempo apra aproveitar os pequenos antes que saiam da infância repentina. Não que eu como mãe que trabalha fora de casa, não me torne ausente em muitos momentos com minha cria, mas penso muitas vezes se valerá a pena estar longe agora e no futuro não poder colher bons frutos e ser uma estranha para ela e não uma mão amiga que ela pode contar comigo o tempo todo…

    Mais uma vez parabéns Henrique!

    Abraço.

    Responder

  2. Henrique, tem um programa que passa acho que discovery home and health que se chama pequenas misses. É um desfile de pequenas frankesteins e suas mães desesperadas por um pouco de fama e se não houve ainda casos de lipo há casos de plástica.

    Isso tudo é muito sério e inevitavelmente acaba levando a outros problemas até maiores, todos carregados de violência. Os tempos mudaram e nós pais de hoje não temos como educar nossos filhos da única forma que nós conhecemos bem – a forma como nossos pais nos educaram. Alguns pais desistem e deixam tudo por conta da escola e das babás. Outros insistem em educar da mesma forma de 30/40 anos atrás. O que os pais devemos fazer é tentar entender o mundo de hoje e nos esforçarmos para educar nossos filhos para este mundo. Não adianta buscarmos “valores” e formas de educação de antigamente. O mundo é outro.

    O principal pra mim é educar sempre com amor e pensando no bem da criança, mesmo que isso nos tire o sono. E ser responsável no sentido de carregar e suportar as dificuldades que os filhos venham a enfrentar, trazer para si as coisas ruins que porventura possam acontecer e não simplesmente dizer: “toma essa grana bota 300ml em cada seio e seja feliz”.

    Responder

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