Professores, serviçais da educação?

Henrique França
@RiqueFranca
 

                É decepcionante constatar a situação de descaso, não raro de escárnio, quando o assunto é a educação no Brasil. Enquanto uma febre de greves toma conta de instituições federais País afora, o Governo Federal repete o discurso pronto da crise estabelecida. Uma pseudo-crise que não evitou o mesmo poder estabelecido de gastar R$ 25 bilhões há duas semanas para empresários, inclusive os do setor automobilístico. Ou seja: andar de carrão é preciso; valorizar o educador, não.
                Mas a decepção dá lugar à tristeza quando o desrespeito, que novamente beira o escárnio, parte de quem deveria ser aliado da educação e do educador: o estudante. No calor das discussões mais recentes, impropérios, acusações e contradições de alguns alunos têm como alvo certo o professor. Palavras, aliás, têm sido facilmente transformadas em agressões físicas quando a insatisfação dos alunos chega ao ponto da intolerância.
                Basta circular pela web para encontrar um docente que levou tapas e um murro de um aluno de 24 anos, em uma escola do Recife – isso na última terça-feira -, outro professor de 63 anos atingido por socos e pontapés por um estudante de 14 anos. Há mais: professora de matemática atingida por uma carteira jogada por um adolescente dentro da sala de aula prestou queixa à polícia; e, finalmente, um aluno e sua mãe foram flagrados jogando um professor contra o muro da escola, em Minas Gerais.
                Há muito mais. As delegacias têm registrado cada vez maior número desse tipo de ocorrência. Existe uma fase prévia, porém, que precisa ser apontada e cuidada. É a fase da agressão verbal, da confusão entre liberdade de expressão e excesso de pretensão. O que se vê, muitas vezes até nos corredores das universidades, são manifestações-motins, infantilizações, birras, fofocas e pouco diálogo, menos ainda sinceridade.
                Em uma instituição de ensino superior da Paraíba, por exemplo, um grupo de alunos postou na Internet uma série de acusações e até xingamentos abertos a professores de seus próprios cursos. “Professores inescrupulosos. Sem ética. Abaixo esses canalhas”, foram algumas das palavras dos universitários. Vale ressaltar que o curso onde atuam esses tais “antiéticos e canalhas” é um dos que mais inserem profissionais no mercado e está entre os que mais aprovam alunos formados lá em concursos Brasil afora. Canalhice de bons resultados, não?
                Outra constatação decepcionante é que muitos estudantes sequer percebem que estão sendo levados por grupos organizados e muito “politizados” – ou seriam partidarizados? – a entrar na linha de um discurso pronto e longe do diálogo e do respeito que tanto exigem esses tais movimentos. Durante uma troca de mensagens via internet um desses grupos estudantis, contrário à greve dos docentes de sua instituição, escreveu: “Professores, vão para a sala de aula! Vocês foram contratados para isso!”. Ora, se alunos começam a tratar seus mestres como serviçais nessa fase da vida, quiçá quando esses se tornarem patrões.
                Contestados sobre a forma de trato com seus professores, o movimento não se intimidou. “Deixe de querer calar a voz estudantil. Acorde!”. E tratam a decisão dos estudantes como “soberana”. A soberania desses movimentos é tamanha que suas palavras, mesmo que em bits, deixam transparecer aquele reizinho na barriga que aprendemos a evitar desde crianças. Aliás, apesar de já terem passado da idade do ABC, muitos desses alunos, inflamados da cega razão, gritam aos quatro ventos suas birras e calam a reflexão, o poder do diálogo e a força do ouvir.
                Falta informação, formação e educação. E isso, todos sabemos, vem de casa. Quem respeita os próprios pais deve saber portar-se em sala – de aula ou de bate-papo via web. A escola, a universidade, a unidade de ensino, funciona como um lar, onde respeito e diálogo são pontos de equilíbrio e convivência. Pode parecer piegas. Mas é melhor ser piegas do que ser vil.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, no Jornal A União, edição de 13 de agosto de 2011

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6 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 15 de agosto de 2011 at 8:28 pm

    O único movimento estudantil legítimo é estudar. Quando o estudante não faz isso, está errado. Os estudantes deveriam aderir à greve e fazer sua própria greve sempre que acharem que estão sendo prejudicados – o que no caso das IFES é o tempo todo. Mas como é tudo um grande jogo de interesses e o brasil é o país que valoriza o papel e não a qualidade do conhecimento, os estudantes preferem se formar de qualquer jeito e ter o canudo nas mãos. E vamos sobrevivendo.

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  2. Posted by Gustavo on 15 de agosto de 2011 at 8:31 pm

    Quanto a isso de serviçais da educação é um problema mais grave. Antigamente, ou nem tão antigamente assim, os alunos temiam os professores. Os pais respeitavam os professores dos seus filhos. Hoje os professores temem os alunos desde a mais tenra idade. E os pais, que entregam toda a educação dos filhos para a escola, cobram dos professores como se cobrassem do rapaz do cafezinho expresso. Inversão de valores das mais graves que se deve ao fato das escolas públicas brasileiras serem de péssimo nível.

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  3. Realmente a falta de respeito e educação hoje em dia está muito expressiva nas salas de aulas absurdas a perda de respeito aos nossos mestres professores que passam boa parte de suas vidas em pesquisas e estudando para então repassar para os alunos é o que deveria se tornar diálogo hoje em dia transforma-se em desrespeito aos nosso admirados mestres que tenho muito admiração, mesmo assim NÃO DESSITAM DE NÓS ALUNOS NUNCA! POIS PRECISAMOS DE VOCÊS NESSA CAMAINHADA, TENHO CIÊNCIA DE QUE TUDO QUANDO FAZEM É APENAS PELO AMOR E DEVIDAÇÃO A LINDA PROFISSÃO QUE E SER PROFESSOR.

    Jackeline Souza de Azevedo
    Campus V
    9ª Período Noite
    Arquivologia

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  4. Não é questão de desmobilizar e desacreditar o movimento estudantil. Mas fica claro que não sabemos pelo o quê lutam tais estudantes. Apoiam a causa da educação?

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  5. Posted by Pianista on 17 de agosto de 2011 at 11:14 pm

    O problema todo foi que certos profissionais espalharam pelo mundo que as pessoas não devem baixar a cabeça pra ninguém. Os pais não podem educar os filhos, pq isso pode provocar sérios “traumas” nas crianças… Os estudantes não podem obedecer os professores, até pq hoje em dia esses profissionais são apenas “facilitadores”… O diálogo inexiste, pois a juventude de hoje é tirana, mal-educada, infantil. Digo isso com propriedade por fazer parte dessa juventude, mas, graças a Deus, não tive a educação que a maioria deles recebeu. Minha educação foi a melhor possível, a educação concedida por pais que não baixaram a cabeça para os novos “profissionais” que espalham aos quatro cantos do mundo que se deve “negociar” com os filhos e não impor. Quanta burrice!!! Formaram uma sociedade fria, intolerante, com “reizinho” na barriga (termo que vc mesmo citou), que não dialoga e pouco se importa com o próximo. Isso tudo que está acontecendo entre estes estudantes não passa de reflexo da PÉSSIMA educação familiar que estão recebendo. Estão cegos, não enxergam o sofrimento dos professores, o estudo deles, a dedicação, o empenho. Burros! Estudantes BURROS! Se eles refletissem pelo menos que com melhorias para os professores eles automaticamente tb ganhariam com isso, não se comportariam assim. Estudantes BURROS!!! E muitos deles serão os futuros professores! Só podem ser muito BURROS MESMO!

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  6. Posted by Renata Lopes. on 28 de agosto de 2011 at 6:21 pm

    Ainda permanece a responsabilidade que os professores tem que educar os nossos filhos,os pais se esquecem de que a educação tem que ser imposta e praticada em casa,na convivência,sem esse exercício de base,acontece o que estamos vendo:alunos que não respeitam seus professores,com agressões físicas e morais.Antigamente a educação era instrumento de luta pela inserção social,bem como,movimentos sociais radicais populares;hoje serve p/domésticar certos animais.

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