Na velocidade da palavra, os radares eletrônicos

Henrique França
@RiqueFranca

 

Se a palavra fosse um automóvel e a língua um acelerador, muitos de nós seríamos constantemente flagrados falando “acima da velocidade”. Ah, e se multa houvesse para isso… Mas, nem uma coisa nem outra, palavra é feita para comunicar, automóvel para locomover e regras existem – tanto no falar quanto no dirigir – para que possamos nos entender, respeitar e sobreviver.

O que se tem visto e ouvido recentemente, porém, são ataques a essas normas de equilíbrio e a incitação do que achamos ser correto. Parlamentares, comunicadores e ouvintes reuniram-se em ideais, dia desses, para criticar a instalação dos radares eletrônicos instalados na BR-230 e que têm como função, a priori, o controle de velocidade na via.

Seria nobre sua utilidade, assim como seria nobre a utilidade de formadores de opinião, não fosse tudo tão desviado de sua função. Às chamadas lombadas eletrônicas, críticas de sinalização escassa e foco na chamada “indústria de multas”. Pode ser, e denúncia como essa merece investigação, mas vociferar sobre o nada, simplesmente para manutenção da audiência ou da postura de “oposição” político-partidária enfraquece a imagem desses homens públicos.

Dizer, em alto e bom som, que as lombadas devem ser retiradas, que andar em uma rodovia a 80 quilômetros por hora é muito lento, prejudica o veículo, dá nos nervos, que falta sinalização antes dos equipamentos é no mínimo frágil. Quem dirige habitualmente sabe que é, de fato, difícil controlar os pedais e “segurar” o carro a 80 km em vias “rápidas” como BRs e afins.

Esses mesmos que conduzem seus veículos também devem saber – e se não souberem procurem um oftalmologista com urgência! – que antes de cada um desses radares existem tantas placas que, colocadas outras tantas, não teríamos mais a chance de visualizar a paisagem à margem da pista. Exagero pelo exagero, o argumento é vil e sem fundamento.

Basta ligar a TV, sintonizar o rádio, ler jornais ou revistas e acessar sites de notícia para saber que, diariamente, motoristas são flagrados atropelando pessoas, prejudicando imóveis e, pior, tirando a vida de inocentes por causa da imprudência ao volante – quase sempre com uma pitada generosa de alta velocidade. Enquanto houver confusão entre um automóvel e um objeto de auto-afirmação, esse cenário persistirá. Mas pode ser mudado, questão de hábito.

Alguém lembra quando o anúncio de fiscalização aguda e multas começariam a ser aplicadas pelo não uso dos cintos de segurança? Quem os usava, antes disso? Que não os usa, hoje? Questão de hábito. Alguns se acham com o direito, a “liberdade”, tolhidos. Colocar a vida de outrem em risco, porém, está longe de tornar-se direito de quem quer que seja. E pode significar ausência de liberdade tanto para quem se vê aprisionado pela dor de uma perda quanto para quem pode (e deve) ser levado ao cárcere.

O argumento do abuso no número de multas, na falta de fiscalização ou comprovação das penalidades aplicadas é importante. Que algo seja feito. Se existe a suspeita, cabe às autoridades tornar o processo transparente. Daí a pedir a retirada dos equipamentos, como se correr em alta velocidade, à revelia da lei, fosse uma prerrogativa dos irritados, é absurdo.

Palavra, definitivamente, não é automóvel. Mas tem corrido pelas vias parlamentares e dos meios de comunicação como um Porsche a 150 km por hora que joga uma picape sobre um poste. Faz estrago – e para o mal. Língua não é acelerador. Daí a importância de refletir sobre ambos. Antes que seja tarde, é momento de tirar o pé do acelerador e usar mais o freio da língua.

 

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 16 de agosto de 2011

Anúncios

One response to this post.

  1. Posted by Simão on 17 de agosto de 2011 at 1:35 am

    Agora o que eu acho mais absurdo em tudo é ser necessário existir uma lei para obrigar um indivíduo a fazer algo em seu benefício. O caso do cinto de segurança: foi preciso a coerção da lei para que passássemos a utilizá-lo como hábito. Do mesmo jeito os radares. Acho que precisamos de um pouco menos de palavras e um pouco mais de reflexão.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: