Na expansão de pedra e cal, falta conhecimento

Henrique França
@RiqueFranca

                O dia ontem foi de festa para quem torce pela expansão da oferta de vagas em instituições federais de ensino, no Brasil. O lançamento do pacote de expansão da rede federal de educação superior, profissional e tecnológica, pela presidente Dilma Rousseff, é inegavelmente uma vitória histórica no que tange a construções, implantações e ampliação de sedes de ensino no País. Porém, uma pergunta se coloca em meio a tanto confete: em que condições esses campi funcionarão?

                Longe da tentativa de banhar em água fria tantas comemorações no setor educacional brazuca, a questão merece reflexão e, mais ainda, exposição. O salto é claro: de em 2003 a 2011, o número de universidades federais passou de 45 para 59 – e outras quatro unidades devem ser abertas até o próximo ano. No mesmo período (2003-2011), a quantidade de unidades técnicas federais de ensino elevou-se de 140 para 354 unidades, além de 88 novas delas até o próximo ano.

                É muito ampliação de pedra, cal e cimento para pouca ampliação do conhecimento. Explica-se: nesses oito anos, o número de professores que precisam integrar esse sistema democrático de educação cresceu muitíssimo aquém da chamada expansão. O cálculo é simplesmente gritante. Se dividirmos o número de professores lotados em Instituições de Ensino Superior (IES) do País, este ano, apenas pela quantidade de campi anunciados pelo governo federal (230 mil docentes, segundo o Censo da Educação Superior, dividido por 290 campi, segundo anúncio do Ministério da Educação) serão 793 professores para cada unidade educacional.

Parece muito? Para se ter uma ideia, em uma hipótese de divisão igualitária, cada um dos quatro campi da Universidade Federal da Paraíba conta hoje com 509 docentes (a UFPB conta com 2.037 professores, segundo último levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais feito em 2009). Quem estuda na UFPB pode responder: o número é suficiente? Se colocarmos na equação os Institutos de Ensino Superior, foco maior da expansão anunciada ontem, o número de docentes cai drasticamente.

Não à toa a cena se repete, como há dez anos: de um lado, o governo federal comemora bons números de prédios e abertura de vagas em instituições de ensino; do outro lado, fora da festa, milhares de professores protagonizam cenas de greve e amargam rodadas de negociação que parecem literalmente andar em círculos. Só na Paraíba, foram anunciadas seis novas unidades do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Enquanto elas não vêm, as nove unidades paraibanas do IFPB já existentes estão em greve.

Há unidades, por exemplo, onde não existe ainda sequer um laboratório – mas as aulas seguiriam a todo vapor, não fosse a paralisação docente. No interior, unidades de ensino superior contam com infraestrutura capenga, faltam salas de aula, bibliotecas adequadas e professores. Evidentemente, expandir imóveis, interiorizar unidades de ensino e mais salas de aula é extremamente necessário. Não há mais como assistir aula sob as árvores e isso é fato.

Contudo, há que se pensar. Um ranking divulgado em março deste ano pela THE (Times Higher Education), principal referência no campo das avaliações de universidades no mundo, apontou que o Brasil é o único país dos BRICs (que reúne Brasil, Rússia, Índia, China) a não ter nenhuma instituição de ensino superior entre as cem mais bem avaliadas por acadêmicos do mundo inteiro. Detalhe: o foco da pesquisa está na qualidade do ensino e não simplesmente na estrutura física.

Para que haja boas instituições de ensino é preciso que o conhecimento permeie cada corredor e cada sala de aula aberta. Porém, apesar de afirmar que “escolas, institutos e universidades” são “o alicerce do conhecimento”, o vídeo institucional do Governo Federal sobre a expansão comemorada ontem mostra, em três minutos e 40 segundos, prédios, laboratórios, alunos felizes, e aponta números e mais números – mas nenhum deles direcionado aos professores. Os números existem. Mas, para os educadores, até agora, a equação não fecha. Já podemos mesmo comemorar?

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 17 de agosto de 2011

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One response to this post.

  1. Posted by oengenheiroustavo on 17 de agosto de 2011 at 8:17 pm

    As universidades federais brasileiras (institutos federais inclusos) são caóticos. Salas de aula com 60 alunos até mais, bibliotecas péssimas, laboratórios péssimos – quando existem -, quadro de professores reduzido – quando se pode chamar de “quadro”, instalações administrativas improvisadas (lembra do “tem aluno estudando na dispensa”?). Essa é a realidade, e não será diferente em, sei lá, para ser bonzinho, 20 anos.

    O governo federal desde Lula decidiu que o Brasil vai ser a nação com o maior número de bacharéis do mundo, e está conseguindo. Nunca antes na história desse país tantas pessoas lograram o diploma do ensino superior – sem saber de nada. O MEC não fiscaliza como deveria fiscalizar as instituições de ensino privado. As federais fazem o que querem e estão aproveitando a mão aberta do governo para criar cursos que muitas vezes são modismos ou invenção de professores políticos mas que no frigir dos ovos não vai servir à sociedade. Os professores ficam de mãos amarradas pois não podem reprovar – é preciso mostrar que o curso está a pleno vapor e jogando profissionais no mercado – nem podem lecionar com a qualidade desejada – são turmas de 60 alunos, como fazer? .

    Pra terminar, é bom lembrar que a melhor universidade brasileira sequer é federal. É a USP, do estado de São Paulo. Que tem além da USP, a UNESP e a UNICAMP entre as 10 melhores universidades do país.

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