“LuluBus” – o coletivo da Luluzinha!

Henrique França
@RiqueFranca

Imagine você apressado, quase atrasado para chegar ao trabalho, quando o ônibus desponta na esquina. O veículo para no ponto e o que seria sua salvação torna-se pura frustração. Tudo porque você, caro atrasado, é homem, E o coletivo parado à sua frente é de uso exclusivo às mulheres. Parece absurdo, mas essa é a proposta que o vereador Mangueira anunciou ontem, para a cidade de João Pessoa: a criação de uma linha específica de transporte público só para elas, nos horários de pico.

As tais linhas seriam chamadas “Rosa”, mas, para seguir “a linha” de raciocínio parlamentar, elas bem poderiam ser denominadas “LuluBus”, em referência ao clube da Luluzinha. A proposta, segundo o vereador, tem como base as muitas denúncias e reclamações de mulheres que já sofreram assédio sexual ou presenciaram algum ato libidinoso dentro dos coletivos que circulam pela Capital. As denúncias teriam sido feitas ao próprio Mangueira.

Então, aquele ônibus que o funcionário atrasado não conseguiu utilizar por ser ele do sexo masculino nunca deveria ser encarado como frustração, mas como uma atitude de cavalheirismo, já que o LuluBus estaria evitando a violência contra as mulheres. A proposta seria justa, não fosse tão injusta. Primeiro, não é correto considerar todos os homens como maníacos sexuais. Segundo, ou estamos em processo de regressão ou jogamos no lixo uma luta histórica – das mulheres, por sinal – de direitos iguais, espaços iguais, democracia acima de tudo.

Mangueira argumenta que algumas capitais brasileiras já utilizam esse sistema sexista de transporte coletivo. Até onde se sabe, apenas o Rio de Janeiro mantém sistema de vagões de metrô exclusivos para mulheres. Detalhe: a medida foi tomada em 2006 e sancionada pela então governadora carioca Rosinha Matheus, que nem se importou em chamar a linha de “Rosa”, mas decidiu marcar os veículos com faixas rosas. Ainda bem que por aqui não houve proposta para que os coletivos fossem pintados de cor-de-manga.

Mas o vereador pessoense tem razão. Se o Rio já usa o sistema, São Paulo e Brasília estão tentando emplacar os coletivos de uso exclusivo das mulheres. As propostas, aliás, são tão parecidas que parecem combinadas: nas capitais paulista e paraibana e no Distrito Federal a ideia é a mesma: transporte-rosa nos horários de pico. Em um giro machista pelo mundo é possível encontrar propostas semelhantes em países como Guatemala, México e Israel. Em Tel Aviv, a proposta foi defendida pelo Ministro dos Transportes que pediu ônibus diferenciados destinados ao setor ultraortodoxo da população.

O sistema israelense de transporte separatista, ironicamente, se mostra mais “democrático”. Lá, homens e mulheres ficam separados dentro do mesmo veículo: eles na parte da frente e elas na parte traseira do coletivo. Não custa salientar o que dizem os rabinos ultraortodoxos sobre a separação: a medida serva para “preservar a decência” na sociedade.

Ainda não chegamos a esse nível de indecência que, quiçá, nunca alcancemos esse estágio de regressão social. Daí a importância de refletir sobre medidas aparentemente radicais como a proposta pelo vereador Mangueira. Seria essa a solução para o fim dos abusos no interior dos coletivos? Se o sistema de transporte público não proporciona o conforto necessário para que todos transitem sentados, por exemplo, e se a segurança pública não contém os abusos no interior desses veículos a saída seria segmentar?

Para o promotor Rodrigo Terra, que se posicionou contra a adoção dos vagões exclusivos às mulheres, nos metrôs do Rio de Janeiro, a segregação não impede a ocorrência de assédios nos coletivos – até porque, lá como aqui, a regra proibitiva só vale para os homens. Mulheres poderiam trafegar em veículos “Rosa” ou “unissex”. Terra vai além e pondera: a mulher que não fizer questão do tratamento privilegiado não seria julgada como uma “prostituta”? E o homem que entrasse em vagão especial deveria ser apontado como um “pervertido”? São questões para pensar… enquanto esperamos o coletivo chegar.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 18 de agosto de 2011

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One response to this post.

  1. Posted by Gustavo on 18 de agosto de 2011 at 8:23 pm

    “Ainda não chegamos a esse nível de indecência”? Já chegamos e já ultrapassamos todos os níveis de indecência. Infelizmente, é a única forma de proteger um pouco mais as mulheres nos coletivos. Não que isso vá evitar 100% dos casos de assédio, mas vai diminuir bastante.

    No entanto, em um país em que não se respeita nem aquela cadeirinha para idosos e deficientes, é demais esperar que as mulheres sejam respeitadas.

    De qualquer forma, João Pessoa resolveria esse problema facilmente com um transporte público de massas decente, com um trabalho sério de movimentação urbana. Como isso é utopia por aqui, vamos viver com ônibus abarrotados de gente e ruas abarrotadas de carros. Até o dia em que tudo explodir.

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