Sopa de (i)letrinhas e petelecos

Henrique França
@RiqueFranca

Um deputado é eleito pelo povo para representá-lo. Ele deve espelhar anseios coletivos, e tem como função legislar, propor, emendar, alterar e revogar leis. Pelo menos é isso que dizemos aos filhos, ou que o se tenta ensinar nas escolas sobre esses homens públicos. O que se vê nas bancadas parlamentares Paraíba e Brasil afora, porém, são falas e atitudes que confundem coletividade com egocentricidade. Não raro esses “espelhos” têm ido às “casas do povo” para refletir a si mesmo. E o que é pior: a imagem vista no espelho é feia.

Uma delas se mostrou esta semana, quando o deputado Antônio Petrônio de Souza – o Toinho do Sopão – ocupou a tribuna da Assembleia Legislativa não para ‘legislar’, ‘propor’ ou algo semelhante, mas simplesmente para desabafar particularidades, expor-se em entendimento, remexer o panelão do ódio e fumegar ofensas. Toinho chegou até mesmo a ameaçar o jornalista Tião Lucena, classificado pelo parlamentar como ‘pilantra’, ‘cabra safado’ e ‘de quinta categoria’. E emendou – não no sentido que deveria, como parlamentar: “Se eu te pego no meio da rua de tou uns petelecos”.

A criançada que porventura abraçou Toinho do Sopão durante o período eleitoral para fazer aqueles filmes publicitários bonitos e que rendem bons votos certamente sabem o que é peteleco, mas devem estar se perguntando o porquê e tamanha ira e questionando às professoras: “por que aquele deputado sorridente tá chamando o outro homem de pilantra… o que é pilantra?”. Que vergonha, não? Há nessa situação uma clara inversão de valores. Não custa lembrar que quem paga os salários dos nobres parlamentares é o povo, incluindo o jornalista Tião Lucena.

Se a agressão verbal seguida de ameaças foi feia para o deputado, o motivo do destempero do Sopão foi ridículo: é que em um de seus artigos, Tião Lucena fez referência à esposa do parlamentar como “dita cuja”. Foi o bastante para Antônio Petrônio “Toinho” entornar o caldo. Qualquer sopeiro desse nosso Brasil deve saber que a expressão ‘dita cuja’ é usada quando se quer falar de alguém sem revelar o nome da pessoa. Ou seja, ‘dita cuja’ equivale a expressões como ‘a figura’, ‘a criatura’ ou simplesmente ‘aquela mesma’. Mas, se Toinho do Sopão se apavoou com as palavras de Tião, imagina se alguém de sua casa fosse chamado “criatura”. Que figura, esse deputado!

O deputado paraibano Antônio Petrônio Toinho quis fazer do microfone da Assembleia Legislativa um canal de verborragias (precisa traduzir?) e não de proposituras. Acabou plagiando, de forma pueril (precisa traduzir?) outro parlamentar, de estrato e extrato mais alto, mas de postura tão vergonhosa quanto a do caro Sopão. Quem lembra do senador Roberto Requião irritado com a pergunta de um repórter arrancou-lhe o gravador e esbravejou, como o menino mais velho no campinho de futebol: “Já pensou em apanhar, rapaz?”. Sabe o que Requião alegou para a atitude? Bullyng! O processo de quebra de decoro parlamentar impetrado naquela Casa foi arquivado – mais previsível, impossível.

Alguém comentou, algum colega menos afetado que Toinho pensou em levantar a bandeira do decoro na Assembleia? Se não, deveria! Pois o decoro, que significa compostura, nobreza, honradez precisa ser mantido no Casa do Povo. Se você tivesse um servidor que te chamasse de cabra safado e pilantra, o que faria? É o caso.A diferença é que na hora de admitir (eleger) a coisa passa longe de qualquer cara feia. A voz do povo é a voz de Deus! Quando conquistam a vaga de emprego (eleitos), a voz do povo agride, faz pacto com o tinhoso.

Faltou ao que deveria ser um nobre parlamentar ser decoroso, digno da função que exerce. Milhares de pessoas confiaram seus votos a um homem chamado Toinho do Sopão. Ele foi colocado ali para legislar, propor, buscar o bem para a coletividade. Nunca para agredir, muito menos ameaçar – que, aliás, ainda é crime no Brasil. As abobrinhas desferidas por Antônio Petrônio Sopão serviram apenas para envergonhar o parlamento e alimentar a mídia. Mas deputados são eleitos para a sociedade com ações de cidadania, não de baixaria.

(*) Texto publicado na Coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 19 de agosto de 2011

Anúncios

2 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 20 de agosto de 2011 at 1:28 pm

    Mas política é isso. Ele não fala com essa mesma raiva de nenhum político corrupto e ladrão que existem aos montes no Brasil e na Paraíba. Mas pra falar de um jornalista, aí vale tudo.

    Responder

  2. Posted by Renata Lopes. on 26 de agosto de 2011 at 6:05 am

    O Deputado Toinho do Sopão errou feio nessa atitude de agressão física e moral(independente de ser jornalista),ele como representante do povo tem obrigação de manter uma postura fiel,e acima de tudo LEAL(aquela mesma que o fez ser eleito:simpático/homem do povo/boa praça)com a sociedade.Não me lembro de um Toinho assim,com ameaças,e um tiquinho de arrogância,infelizmente é uma síndrome eleitoral que ataca os políticos:antes da eleição temos a impressão que estamos conversando com um hippie,só na vibe da paz e amor;depois da eleição:estamos lidando com um tirano,racista,ditador e etc.Enfim política é assim né,tem gente bipolar p/tudo que é lado!

    Parabéns pelo trabalho Henrique,aqui só tem artigo de luxo.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: