Pelo que vale a pena marchar

Henrique França
@RiqueFranca

Esqueça as mega-marchas. Nada de milhares de cristãos entoando cânticos atrás de trios elétricos ou gays, lésbicas, travestis e transexuais celebrando a diversidade LGBT na mesma condição de seus “oponentes ideológicos”. Ontem, durante uma marcha que de tão simples foi chamada “caminhada”, não havia pessoas atrás do trio em busca de salvação ou liberação. Os poucos que estiveram ali avançavam lentamente, passos de indignação, sempre à frente do veículo onde alguém anunciava, pelo microfone, o motivo do triste manifesto. Diferente da algazarra das mega-marchas, a “Caminhada pela paz e por Justiça” que percorreu algumas ruas da Capital paraibana foi marcada por lágrimas e dor.

À frente daquela pequena multidão de corações apertados pela saudade, uma mulher segurava um cartaz onde se lia “Justiça”. No peito, estampada, a foto da razão pela qual dona Tereza Cristina Alves está ali, encabeçando o manifesto. É a imagem da adolescente Receba, violentada e assassinada no último dia 11 de julho, quando seguia de casa para a Escola Militar onde estudava. Dona Tereza chora, apesar de continuar caminhando, porque Recebe era sua filha. Aquela não foi uma mega-marcha, mas uma manifestação carregada de imensa dor, uma tentativa extrema de sensibilizar as pessoas.

Quando o assunto é violência, o sensibilizar passa obrigatoriamente por ações de autoridades que podem agir no combate a covardias como a sofrida por Rebeca e punir, de forma exemplar, envolvidos diretamente nesse e em outros casos. Contudo, mais uma vez diferente das mega-marchas, na pequena “Caminhada pela paz e por Justiça”, não havia políticos, celebridades, sacerdotes. Os pés que marcaram aquele chão provavelmente nunca haviam entrado em uma delegacia até receber a notícia da morte de uma filha, certamente nunca pisaram templos suntuosos ou sedes de movimentos coloridos. E, ao que tudo indica, nenhum representante dessas bandeiras ideológicas acostumadas a marchar em grandes exércitos se fez soldado, ontem, ao lado de dona Tereza, pedindo paz e justiça.

Amanhã, outra caminhada será realizada na cidade. Dessa vez, pela “Paz no trânsito”. O motivo? Também matamos e morremos por causa da imprudência ao volante, do desrespeito à vida diante de um animal de ferro, vidro e combustão. Paz e Justiça. Isso, sim, deveria arrastar uma multidão às ruas, com bandeiras imensas, vozes de gigantes nos microfones, celebridades em um abraço que chamasse holofotes para um pedido que urge providências. Mas quem perdeu um filho de forma tão brutal, sem explicação humana suficiente, não pensa nisso, e só tem forças para seguir em frente. É preciso agarrar-se a uma esperança. Nessas horas, mega-marchas se tornam simplesmente aglomerados festivos descendo a avenida. Para milhares de peregrinos, como dona Tereza, elas se tornaram tão sem sentido quanto pequenas.

Abraço no estuprador?

Enquanto algumas dezenas de pessoas marcham pedindo Justiça por casos como o do assassinato da menina Rebeca, de 15 anos, brutalmente estuprada e assassinada, não será difícil ver muito mais pessoas aplaudirem – e pagarem para isso – a alguém que, recentemente, declarou que o estupro seria uma oportunidade. Relembrando o que declarou durante uma entrevista o humorista Rafinha Bastos, que tem shows marcados em João Pessoa e Campina Grande, nos próximos dias: “Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade.”

Apesar de toda a responsabilidade que deveria ter como pessoa pública, o jovem humorista e apresentador de TV jura que tudo não passou de uma piadinha. Você consegue sorrir com essa?: “Homem que fez isso [estupro a uma mulher] não merece cadeia, merece um abraço.” É de chorar, mas ainda tem quem pague por essa “péssima influência”.

(*) Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 20 de agosto de 2011

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