Educação em questão. Mais que greve, é grave!

Henrique França
@RiqueFranca

Tem gente que olha e acha bonito. Há quem considere apenas baderna. Todos, porém, apenas observam de longe, através daquele recorte peculiar e nada imparcial das emissoras de TV. Na poltrona de casa, nos bares, restaurantes, nos coletivos e empresas, milhares de brasileiros, potenciais guerreiros pela melhoria no sistema educacional, assistem e tecem seus comentários. Do outro lado do vídeo, duzentas mil pessoas marcham pelas ruas de Santiago, no Chile. Querem mais investimentos e gratuidade na educação do País. Estão nessa lida há três meses, de forma incansável, e consideram o resultado do movimento, apesar das centenas de prisões, dos confrontos com a polícia nas ruas e das críticas, extremamente positivo.

Mas, o que os chilenos tem a ver com os telespectadores brasileiros, do lado de cá do tubo de imagem? Tudo, inclusive o aprendizado que eles podem passar a estudantes, professores, servidores, cidadãos brazucas. Se não, vejamos: em todo o País – do samba e futebol – servidores técnico-administrativos de pelo menos 48 instituições federais estão com as atividades suspensas, além de quase 200 campi dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia sem aulas. Há ainda duas universidades federais onde os professores deflagraram greve – a mesma greve que amanhã docentes das Universidades Federais da Paraíba e de Campina Grande (UFPB/UFCG) podem anunciar, em assembléia geral.

No geral, o perfil das greves no setor da educação, no Brasil, são tratadas como “ausência de aulas”. Alguém assistiu, pelos mesmos telejornais que comentaram (comentaram?) as manifestações no Chile, a forma como a paralisação brazuca é tratada? O primeiro enfoque é: “550 mil alunos estão sem aula”; ou pior: “milhares de estudantes estão prejudicados”. É fato inegável: greve é prejuízo. Para o grevista, para quem é atingido direta e indiretamente pela suspensão das atividades. Mas, muito além de sagrar-se um instrumento legítimo de pressão e trazer um histórico de conquistas, esse direito do trabalhador tem apontado, talvez hoje mais do que nunca, que o cenário é gravíssimo.

Números da Auditoria Cidadã da Dívida apontam que em um período de 15 anos – de 1995 a 2010 – os gastos com pessoal no Brasil, em âmbito federal, despencaram de quase 60% da receita para nada menos que 33%, aproximadamente. É preciso enxugar a máquina, dizem em coro. Correto. O problema é quando o óleo da engrenagem fica escasso na máquina da educação e abunda no maquinário de outros setores, especialmente daqueles que deveriam girar com as próprias catracas. Exemplo? Diante de tamanha “crise” que o Governo Federal fez questão de ventilar aos quatro cantos, apelando para que servidor nenhum reivindicasse reajuste em momento tão “delicado” da economia tupiniquim, o setor privado recebeu incentivos de aproximadamente R$ 25 bilhões a empresários inclusive do setor de automóveis. Convenhamos, a fabricação e comercialização de carros e afins, no Brasil, já é bastante lubrificada.

Enquanto isso, funcionários das instituições de ensino querem reajuste no piso salarial de R$ 1.034 e abertura de concursos públicos para substituição de funcionários terceirizados – que não raro ganham bem menos que isso. Em âmbito docente, vergonha salarial mantida. Uma tabela com as remunerações de 59 categorias do serviço público federal lista vencimentos iniciais entre R$ 1.034 a R$ 18.478,45. Dessas quase 60, a categoria do professor universitário titular com carga horária de 40 horas desponta no sexto pior lugar em remuneração, com salário de R$ 2.130,33.

Isso, sim é crise. Crise de valores, de um olhar atento para o que realmente importa. Nos vale mais carros pelas ruas ou vias de conhecimento acessíveis? Mais nos importa saber quanto custa um automóvel ou a educação? Inverter essa lógica, porém, tem um custo. E se convocar a sociedade brasileira realmente preocupada com o sistema educacional do seu País a encampar manifestações públicas parece exagero – e ainda parece -, melhor calarmos… até que estejamos preparados para desligar a TV e protagonizarmos nossa própria história.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 24 de agosto de 2011]

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2 responses to this post.

  1. Em relação a greve posso relatar os dois lados, do aluno q é o mais prejudicado pelo menos na minha concepção, e do trabalhador que está na luta por um salário digno de seu serviço.
    Mas antes tenho q falar minha indginação com os políticos pois são eles que pensam e votam nas leis q hoje mais prejudica do que ajuda o cidadão de bem de nosso país. Primeiramente se não me engano assisti uma reportagem onde se foi votado com unanimidade a elevação do salário dos depultados federais em 50%, rapidamente houve esse ato, mas quando chega nos trabalhadores de verdade aqueles q fazem o país crescer fica esse cabaré (peço perdão ao vocabulário).
    Sinceramente não tenho fé nesses políticos pq já deram muitos motivos para desacreditar, e sinto muita vergonha de quem ocupa o cargo de político ladrão, há exeções mas são poucos q lutam pelo povo.
    Mais vou citar as minhas duas visões referente ao trabalhador e ao aluno pois já vivi esses momentos.
    Aluno: O aluno é a pessoa que mais se prejudica com tudo isso, pois no 2º ano do ensino médio fiquei praticamente o ano todo sem aula, imagina em pleno ano de pss vc chegar sem nenhum embasamento, minha salvação foi os cursos pré vestibulares q me ajudaram, pouco mais ajudaram.
    trabalhador: O trabalhador tem o seu direito e eu apoio totalmente, pois minha mãe é professora e ficou 4 meses sem receber o salário pois a prefeita aquela ladra safada(desculpa o vocabulário) usou o dinheiro dos servidores públicos para pagar o caché de um show q houve aqui onde resido, e quase passamos necessidades, mas graças a DEUS passamos por essa fase e ela nunca mais ganhou uma eleição aqui em Bayeux.

    Adorei o texto!!!!
    bjsss

    obs: amiga de Renata (UEPB) de novo!!! kkkkkkkkkkkkkk

    Responder

  2. Posted by crisvalter on 26 de agosto de 2011 at 8:05 pm

    Prezado Henrique, como servidor público faço greve desde 1986, quando ingressei no serviço público. Sou a favor da greve, já que não encontramos outras forma de agir. Não é novidade que o governo brasileiro não prioriza a educação. A nossa cultura está sendo devastada pelas subculturas, em decorrêiica da nossa péssima educação etc.
    No caso do movimento dos professore universitários, o desgaste é do próprio movimento que nunca cumpre as propostas de melhorar a educação. Na Paraíba, temos uns 50 cursos de doutorado e talvez uns 100 mestrados.; Por que será que com tantos acadêmicos em ação a situação social do nosso Estado não muda um centímetro; não há relação entre educação superior e mudança social? É uma situação muitos triste a deste povo sem educação e sem solução para os problemas sociais.

    Responder

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