Síndrome de Estocolmo midiática

Henrique França
@RiqueFranca

O brasileiro tem sido feito refém da violência urbana, já há muito invasora também das áreas rurais mais pacatas em outros tempos. Pior do que isso, temos sido monitorados constantemente diante dos meios de comunicação de massa como cobaias dos índices de audiência – e eles “revelam”: o povo brazuca gosta de violência, futebol e mulheres seminuas (ou a variação sexo na tela). Dá Ibope!

A coisa é tão séria que, não muito recentemente, até mesmo apresentadores de TV, locutores, profissionais da informação noticiosa, de forma geral, têm ocupado equivocadamente o espaço antes destinado às autoridades – sejam elas dos quartéis ou das favelas. Não nos cabe como imprensa, sabemos desde os bancos da Universidade, vestirmos os trajes do vingador, opositor, o juiz da notícia. Difícil, sem dúvida, essa missão. Talvez seja até impossível, mas nunca deixará de ser uma meta perseguida constantemente.

Porém, o que há de “mais moderno” – e distorcido – no agora jornalismo dito policial, especialmente na TV, é a incitação à violência. Isso mesmo. Pode parecer radical e até acusatória a afirmação, mas se pensarmos além da agressão física, da manipulação para o confronto direto, de socos e pontapés (e ela existe!), fica fácil misturarmos ao almoço ou ao jantar em família expressões como “bandido tem que ser morto”, “um canalha”, “vagabundo”, “bala nele!”, “pau nele!”. Isso é ou não é uma forma de promover a violência? E mais: quem já viu o inconsciente popular agindo sabe que, no meio da gritaria, basta o primeiro toque, o primeiro empurrão, para que a arena de golpes esteja armada.

Não se trata simplesmente de moralismo, purismo ou algo do tipo. Reflexão é a palavra. Aliás, alguém já parou para refletir porque os programas mais violentos, com maior número de cenas de corpos baleados, marcas de sangue, degolas e toda sorte de miséria humana são colocados exatamente no horário das refeições? A informação “maior número de pessoas diante da TV” procede? O teor nada digestivo da programação local e nacional desrespeita a família brasileira, mas é fato que essa mesma família não vem se dando o tratamento merecido.

Quantas vezes insistimos em contribuir para a audiência desses circos de horrores enquanto mastigamos o gado e vidramos os olhos no “povo marcado” da telinha? O primeiro dedo em riste argumenta, vociferando: “precisamos estar bem informados!”. Ora, se no deleite com a miséria alheia  há algo de “bom”, atirem o primeiro controle remoto. Além disso, o que significa estar informado? Ter papo com os amigos sobre o homem degolado, a menina estuprada e o idoso surrado? Quais dessas ‘notícias’ têm nos tornado melhores, em informação e formação?

Se em um dos seus muitos sentidos informação é colocar idéias em uma fôrma, é moldar dados que rondam nossos pensamentos, o que temos produzido nessa máquina informativa que trazemos sobre o pescoço? Qual o resultado dessa linha de produção informativa que cada um traz em si? A situação fica mais grave quando já não nos chocamos por “tão pouco”: uma facada, um bandido perfurado por dezenas de balas, uma mulher assediada dentro de um coletivo, uma casa assaltada, o carro roubado. É pouco, não levanta audiência, não agrega “valor”. É como o trapezista que anda sobre a corda bamba diante do globo da morte com cinco motocicletas prestes a colidir. Torcemos pelo sucesso do espetáculo ou pela colisão? E diante da TV, no horário do almoço e do jantar, de que lado estamos?

Talvez as pessoas não tenham exatamente sido feitas reféns, mas permitiram-se a isso. E agora, como vítimas do ‘sistema’, já não sabem mais o porquê desse tipo de informação. Muitos, porém, não abrem mão disso. Somos vítimas potenciais de uma espécie de complexo de Estocolmo midiático.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 25 de agosto de 2011]

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4 responses to this post.

  1. Tudo que vc falou é a mais pura verdade, digo isso por expeiência própria. Atualmente deixei de assistir jornais por não ter novidades pois o q se anuncia todo santo dia é um morreu ali outro mataram ali, chegando ao ponto de não ter espanto ao ver, mas sobre questão do vocabulário eu não tenho nada contra e pois há apresentadores que misturam suas emoções com seu trabalho.
    adoreiiiii seu texto, muito bom vc envolver um tema desses com certas frases como: “que atire o primeiro controle”( ilária)!!!!

    obs: sou amiga de Renata(UEPB) sua leitora assídua.

    Sandianne Gomes de Souza
    UEPB/Arquivologia

    Responder

  2. Concordo no sentido de que precisamos de noticias mais informativas, saber quem morreu ou deixou de morrer não vai aumentar em nada o meu leque de informações diárias.
    Acredito que falta um pouco de ética na televisão brasileira, não só na tv, mas nos outros veiculos de informação também.

    Responder

  3. Henrique, acredito que o tocar no que Maria Rita Kehl chama de “Violência do Imaginário” é fundamental para aprofundar este debate. O laço social que no une é violento, a mídia aceita e explora esta violência. É necessário recompor esta estrutura, refletir sobre estes valores. Muito embora a mídia não possa ser inocentada neste processo, há a sociedade fornece um respaldo moral para que isto ocorra. Vc expressou isto muito bem. É preciso investir pesado em uma outra mentalidade sobre o papel da mídia.
    Parabéns pela reflexão!

    Responder

  4. Posted by Christian Palmer on 14 de abril de 2012 at 5:12 pm

    “Algumas pessoas matam, outras se contentam em ler/assistir os noticiários desses assassinatos!”

    Responder

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