Cenas de um governo bipolar

Henrique França
@RiqueFranca

A forma com que o Governo Federal tem tratado a educação no Brasil beira o risível, não fosse tão triste. Se os já tão sucateados e sem perspectiva ensinos Fundamental e Médio continuam e receber migalhas pontuais das autoridades, apesar de boas iniciativas Brasil afora, na instância Superior o trato, que sempre foi mais “de igual para igual”, chegou a um nível de desrespeito surpreendente. Em menos de 24 horas, a representação do Ministério do Planejamento, que negociava com os sindicatos dos docentes em nível federal, mostrou que é mais divertido praticar o cinismo à transparência.

Na quinta-feira, final da manhã, centenas de professores das universidades federais na Paraíba e no Brasil decidiram aceitar a proposta do Governo Federal, mesmo sem a contemplação mediana de suas reivindicações. No final da tarde do mesmo dia, porém, quando a notícia do aceite chegou a Brasília, a rebordosa: o Ministério disse que os professores de dois sindicatos não haviam entendido bem a proposta. A indignação dos docentes presentes à chamada mesa de negociação não alterou a empáfia oficial, que se manteve cara-de-pau: ‘vocês, caros professores, não entenderam o que foi proposto’.

O detalhe é que o próprio Ministério da Educação – que nessas horas se coloca apenas como receptor de decisões do Planejamento – havia compreendido a proposta como ela havia sido aceita entre os docentes. Todos interpretaram assim tão mal? O rumor do desrespeito do Governo Federal foi voltando às bases docentes nas universidades federais, como uma onda que ameaçava quebrar no paredão chamado “greve”. O direcionamento de paralisação docente, que havia sido deixada de lado com o aceite da proposta agora mal interpretada, segundo o Ministério do Planejamento, voltava a ser fortemente cogitado. Mas a novela brasiliense teria novo capítulo.

Dia seguinte, sexta-feira início da tarde, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento (MP), Duvanier Paiva, reuniu-se novamente com representantes docentes, na Capital Federal. Sem dizer uma palavra sobre a “má interpretação” pelos professores e pelo próprio MEC, ele disse que o acordo estava mantido – sim, aquele acordo primeiro, depois desmentido pelo próprio Paiva, e agora reposto como único. Alguém entendeu? Das duas, uma: ou o Governo Federal tem colocado na mesa de negociação um representante bipolar, ou houve uma clara tentativa de enganar maquiavelicamente a categoria. Em ambas as possibilidades, um agravante: professores, educadores, ensino, educação, futuro do Brasil não são assuntos onde devam existir joguetes desse tipo.

O cinismo do senhor Duvanier Paiva tem motivo: durante o encontro onde ele bateu boca com os professores e afirmou que todos, incluindo o Ministério da Educação, haviam entendido errada a proposta apresentada, alguns docentes pediram a decupagem da fita onde estava registrada a conversa original. A princípio, o secretário de Recursos Humanos do MP aceitou o desafio, mas desconversou e até agora um segundo sequer dessa gravação foi ouvido. Pior: tamanha bipolarização ou escárnio em assunto tão sério, infelizmente, sequer justifica a “conquista” docente.

O texto aceito, negado e retomado aponta reajuste de 4% sobre o Vencimento Básico dos professores, após a incorporação da gratificação e também sobre a chamada Retribuição por Titulação (RT), tanto para o Magistério Superior quanto do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico. Repetindo: 4% foi o percentual de conquista. Alertando: esse “aumento” só chegará ao contracheque dos professores em março de 2012. É ou não é fazer piada com a educação brasileira? Contudo, sim, os professores novamente arrefeceram na possibilidade de paralisação, de sair às ruas por melhorias mais que salariais, na luta por dias melhores no sistema educacional tupiniquim. Parece que o placebo governamental que o bipolar secretário do Planejamento tirou do bolso e distribuiu entre os docentes, em Brasília, funcionou.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 27 de agosto de 2011]

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One response to this post.

  1. Posted by Simão on 30 de agosto de 2011 at 4:24 pm

    O negócio é complicado!

    Responder

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