Enquanto a polícia não vem…

Henrique França
@RiqueFranca

 

A cena até parece brincadeira de internauta, até que se descubra o fato: uma mulher, flagrada furtando objetos de uma loja no Centro de João Pessoa, é interceptada por funcionários e clientes mas consegue se livrar do cerco. Ela “foge” até o estabelecimento ao lado. Ali, surpreendentemente, a mulher volta a furtar objetos. É flagrada novamente, mas dessa vez desconhece a fuga.

Aqui começa o ridículo da situação. Foram simplesmente uma hora, aproximadamente, de gritos, xingamentos, tentativas de linchamento e várias dúvidas sobre como imobilizar a ladra. Aparentemente sem seguranças, a loja contou com funcionários e clientes para deter a criminosa, entre gritos, puxões de cabelo e pedidos para que ninguém batesse na mulher. Triste cena.

Triste, mesmo, foi constatar que o fato, ocorrido na avenida General Osório, a poucas quadras do Comando Geral da Polícia Militar, durou aproximadamente 60 minutos à espera das autoridades policiais. Ora, se no quintal da casa militar foi necessária espera de uma hora até a chegada de um policial, o que dizer sobre chamados distantes, urgências, diligências com grandes deslocamentos.

Muito além da simples crítica à velocidade da ação policial, fica a questão sobre o que aconteceria, em hipótese, se a pequena multidão no interior da loja, com o flagrante configurado, a ladra sob seu poder, decidisse fazer justiça com as próprias mãos? Em que se tornariam clientes e funcionários lesados por alguém em desacordo com a lei se esses mesmos decidissem tornar legal tapas, socos, pontapés ou mais, muito mais?

Pode parecer absurdo, mas não é. Existem estudos científicos a respeito da chamada psicologia das massas. Um dos pioneiros dessa disciplina, Scipio Sieghele, escreveu “A Massa Criminosa”, onde analisa os crimes coletivos como revoltas e linchamentos. Para o francês, é impossível indicar culpados em situações de tumulto e violência coletiva. Mas, para o Direito, sabemos, isso não apenas é possível como é desejável pela sociedade.

Felizmente, o pequeno aglomerado de pessoas no interior da loja onde o fato ocorreu controlou-se de forma civilizada. Seria pela exposição diante de uma câmera de celular apontada para o flagrante? Seria por estamos cansados de tanta violência, saturados do animalesco exibido na TV? São questão que valem alguns bons minutos de reflexão e aprendizado… enquanto a polícia não vem.

E o Etanol, que não baixa?

Nada como o tempo para arrefecer nosso poder de mobilização e indignação. E não é que, mesmo depois de tantos embates e boicotes, o preço dos combustíveis continua em nível elevado e sem perspectivas de descer? Pior, a manutenção dessa elevação de valores tem ganhado força com o anúncio na maior alta do etanol em oito anos, de quase 50%. Não será profecia ou mau agouro dizer que o que está ruim pode piorar.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 30 de agosto de 2011]

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