Os novos sabores da morte

Henrique França
@RiqueFranca

“Experimenta.” A sugestão, no simpático imperativo, pode vir do amigo, da namorada, de um colega de escola, de um desconhecido na balada, não raro de familiares. O ‘experimento’, em questão, até já saiu de moda, já não faz mais tanto sucesso ou simboliza status, mas ainda é fortemente saboreado, usado, comercializado e causador de milhares de mortes em todo o mundo – só no Brasil ele leva a óbito nada menos que 120 mil pessoas por ano. Fininho, com aspecto de ‘limpo’, embalado em caixas de boa aparência, cores vivas, o cigarro é feito de lixo, do puro lixo químico. Não há como descrever de outra forma um produto que contém mais de 4.500 substâncias tóxicas – entre elas o alcatrão, o polônio 210 e o urânio, essas duas radioativas -, sendo 43 delas comprovadamente cancerígenas.

Diante de tamanha pilha de sujeira química, como explicar que autoridades de Saúde brasileiras permitam, apesar de todo o fechamento de cerco à indústria do tabaco, a simples comercialização desse atentado à saúde pública? Vale lembrar aos defensores do ‘cada um faz o que quer’ que sob essa premissa podemos abrir o cerco a outras drogas – químicas, inclusive – e “liberdades” do tipo uso indiscriminado de armas e compra de medicamentos nocivos à saúde e proibidos pelas agências que tentam regular o sistema de saúde no País. A resposta simplória está na arrecadação de impostos que a combatida indústria do cigarro paga aos cofres brazucas.

Pra variar, tiremos então o “peso” dessa responsabilidade do Estado e coloquemos em nossas próprias costas – coisa que, aliás, “quase” não acontece no Brasil, não é mesmo? Voltemos ao convite sugestivo do início. Experimentar o cigarro, hoje, é tão sem sentido quanto defender a sangria para a cura de doenças. Entende-se, por questão de vício, de doença, que fumantes se mantenham a sugar um bafo quente e a expirar fumaça contaminada no ambiente – o que não quer dizer acomodar-se a isso ou encarar a atitude como complacente. Mas, de onde vem essa onda de iniciação ao cigarro? Quem ofereceu a primeira tragada? Seria esse “amigo”, uma espécie de traficante informal da indústria do tabaco?

Fácil incorrer no exagero dessas questões. Porém, dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2008), divulgados esta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são exageradamente vergonhosos. Na Paraíba, a vergonha dá lugar à preocupação. Somos o Estado com maior percentual de fumantes adolescentes de 15 anos em diante do Nordeste (20,2%) e o terceiro nesse mesmo dado em âmbito nacional. Uma pista para os “amigos” que oferecem a droga – sim, o cigarro é uma droga – está na facilidade de compra nas ruas das cidades. A pesquisa aponta que mais de 50% das meninas entre 13 e 15 anos admitiram conseguir comprar cigarro sem qualquer dificuldade – entre os garotos o percentual é de 48,1%.

Além do burlar a lei de vendas descaradamente, outra artimanha tem feito a curva ascendente dos fumantes entre os jovens: sabores. Fumar agora não tem apenas gosto de nicotina. Meninos e meninas de cabeça oca agora sugam fumaça sabor cereja, canela, chocolate. É o novo gosto da morte. Exagero? Saiba que, ao tragar a fumaça cigarreira, o organismo se altera e podem ser provocados aumento de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos e constrição dos vasos sanguíneos – e isso provoca problemas cardiovasculares.

Tem mais: o canudinho recheado de lixo químico também provoca entre fumantes e os mais de 24 milhões de passivos – aqueles que cheiram a fumaça alheia – hipertensão arterial, infarto do miocárdio, aterosclerose, bronquite crônica, angina pectoris, tromboangeíte obliterada, enfisema pulmonar, cânceres de pulmão, boca, laringe, esôfago, estômago, pâncreas, bexiga, rim, faringe, colo de útero, mama, reto, intestino e próstata. Diabetes, otite, amigdalite, osteoporose, acidente vascular cerebral, aneurisma da aorta, estomatite, aborto, linfoma, catarata, periodontite, tuberculose, deslocamento precoce da placenta, sinusite… e o pulso ainda pulsa. Experimenta?

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 31 de agosto de 2011]

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One response to this post.

  1. Posted by Gustavo on 31 de agosto de 2011 at 7:45 pm

    O homem fuma desde que o mundo é mundo. O governo tem que conduzir fiscalizaçõs mais sérias na produção do cigarro, probir substâncias X ou Y, e tem que controlar as vendas. Aumentar os impostos é uma saída para inibir pelo menos os iniciantes, diminuir os pontos de venda é outra, existem muitas. Mas não se pode proibir as pessoas de exercerem seu direito de fumar – na verdade, nem de se drogar.

    Outra coisa que também é curiosa com o cigarro é que apesar de ser permitido é uma mercadoria contrabandeada em grande escala, o que acaba colocando no mercado cigarros de ainda pior qualidade e sem nenhuma fiscalização de sua produção. O que de certa forma acaba com qualquer estratégia do governo em relação aos grandes fabricantes de cigarro.

    A única coisa que os governantes estão fazendo é atuando melhor no fumo em locais públicos. Como todo fumante é mal-educado por natureza, pois não respeitam o espaço alheio, é preciso diminuir também os espaços para os fumantes – que eles fumem em seus quintais.

    Quanto as aburrescentes pessoenses que fumam demais, não me surpreende. João Pessoa é a capital em que se vê a vida passar na TV. Tem um sem número de playboys e playgirls de cabeça vazia e dinheiro no bolso, não vai dar outra coisa mesmo.

    Eu já ficaria feliz.

    Responder

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