Archive for setembro \30\UTC 2011

Rock, Sarney e uma mini-legião de puxa-sacos

Henrique França
@RiqueFranca

 

Pelas barbas de Renato Russo. E não é que 33 anos depois de composta, a canção “Que País é Esse?” continua tão vergonhosamente atual quanto reveladora? A última “atualização” aconteceu no último sábado 24 de setembro, quando Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, resolveu dedicar a canção “às grandes oligarquias que parecem ainda governar o Brasil, deixar os grandes jornais censurados”. E emendou: “essa aqui é para o Congresso brasileiro, em especial para o José Sarney.” O palco do desabafo? Segunda noite do festival Rock In Rio, diante de um público estimado em 100 mil pessoas. Além de muito aplaudido, Dinho e sua dedicatória ganharam reforço da platéia, que durante um trecho instrumental aproveitou para gritar “Ei, Sarney, vai tomar no c…”.

O que seria uma rebeldia típica de jovens, roqueiros ou não, diante de uma canção de protesto e indignação, tornou-se em episódio revelador da fidelidade respeitosa-ideológica-duvidosa do deputado estadual Magno Bacelar  para com seu idolatrado – salve-salve –  presidente do Senado. Durante discurso na Assembleia Legislativa do Maranhão (claro!), o parlamentar vociferou que “muitos dos metaleiros” presentes ao show do Capital Inicial e que xingaram Sarney são ‘drogados e maconhados” – dito assim, “maconhados” mesmo. Mais ainda: o deputado do Partido Verde maranhense disse que vai propor uma moção de repúdio à banda e ao vocalista Dinho Ouro Preto.

Seria simplesmente risível não fosse tão vergonhosa a situação de perceber que pessoas eleitas pelo povo para representar o povo se passem a uma postura tão subserviente e tacanha. E que não haverá moção de repúdio parlamentar mais clara, em alto e bom som, do que a feita na arena do rock, para José Sarney. Ao que parece, o senhor deputado Magno Bacelar, que “coincidentemente” é vice-líder do governo de Roseana Sarney, não percebeu que os palavrões destinados ao presidente do Senado sequer chegam aos pés do enlameado reinante nos showzinhos do Congresso Nacional.

Refrescando a memória do parlamentar maranhense e amigo da filha do ‘rei’, a família Sarney volta aos noticiários não apenas no Rock In Rio. Há pouco mais de uma semana, o filho de José, Fernando Sarney, foi beneficiado por uma decisão judicial após ter seu nome envolvido em esquema de tráfico de influência, formação de quadrilha, desvio e lavagem de dinheiro. A decisão do STF que liberou Fernando, anulando provas de investigação da Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica, de longe lembra o rock’n roll do maior festival do Brasil, mas tem um tom de Valsa do Imperador Tupiniquim.

Lá do palco, no Rock In Rio, Dinho Ouro Preto arrematou: “a regra básica é: ‘nunca confie num governo. São todos iguais.” É isso. Em Brasília, no Maranhão, em 1978, em 2011, tudo parece como dantes no País dos Sarney. Mas o ‘depupilo’ Bacelar dificilmente irá se convencer que levantou uma bandeira vergonhosa. Ele é o mesmo personagem da política brasileira que levantou-se, há alguns dias, para defender Sarney no caso em que o presidente do Senado usou um helicóptero da Polícia do Maranhão para passear em sua ilha particular. Algo como usar a ambulância de um hospital para levar a família à praia. E vale lembrar que Sarney, agora, é senador pelo Amapá.

Pois bem. Sobre o episódio da carona aérea o deputado maranhense Magno Bacelar questionou, na cara dura: “Queria que o presidente [Sarney] fosse andar de jumento? Enfrentar um engarrafamento [?]”. Coitadinho, não? Certamente de jumento Sarney não andaria, porque teria quem o carregasse nos braços. Imerecida de mais comentários tal atitude. Talvez o ideal fosse uma canção dedicada ao defensor do senador xingado. Se alguém acha que 100 mil “metaleiros drogados e maconhados (sic)” do Rock In Rio desrespeitaram um homem só, talvez precise entender que uma nação de 190 milhões de brasileiro já não agüenta agir como entorpecida pela corrupção e malandragem que assola o País. Ao que parece, essa multidão anda se tratando na clínica de reabilitação da cidadania. Em algum momento, as pedras vão rolar.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 30 de setembro de 2011]

 

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Consumismo infantil, assunto de gente grande

Henrique França
@RiqueFranca

 

Na tarde do próximo dia 6 de outubro, representantes das empresas Mattel, McDonald’s, Playstation, Sony e Nestlé, no Brasil, estarão reunidos para discutir sobre crianças. Porém, essas gigantes de produtos ligados aos pequenos não vão simplesmente conversar sobre novas formas de diversão, educação, formação ou limites éticos diante de meninos e meninas brasileiros. Todos vão levar em suas pastas estratégias para imprimir suas marcas na mente dos pequenos consumidores brasileiros.

O cenário desse debate é o MaxiMidia, um dos principais eventos de publicidade do País, realizado em São Paulo. E a chamada-convite para a discussão já revela cuidados: “Venha ao MaxiMidia e aprenda a falar com quem mal aprendeu a falar”. Assim, sem meias verdades, direto. O slogan que completa o anúncio fecha a questão: “Marcas e público infantil. Conversa de gente grande”. Seria simplesmente uma peça publicitária criativa não fosse a clara organização do segmento de produtos voltados às crianças armando-se de estratégias para vender mais, convencer mais, direcionar mais o gosto pela compra, pelo consumo e pela não reflexão a esse comportamento.

Temeroso é que essa “conversa de gente grande” não inclui pais, educadores ou psicólogos infantis que possam dar direcionamentos da possibilidade de lucro empresarial e respeito à fase de formação de valores das crianças. Ao que parece, a tarde de debates com as cinco marcas dispostas anteriormente está calcada em solo e clima bélico, onde o inimigo pode ser qualquer coisa que se coloque entre as marcas e os pequenos consumidores.

Leia o que mais foi escrito no texto de chamamento a essa conversa nada inofensiva: “É a oportunidade de você e sua empresa aprenderem a falar com gente que influencia imensamente o consumo de milhões de adultos. Conheça os limites da rigorosa legislação para anunciar produtos infantis e aprenda com especialistas como ser relevante com o público infantil, inquieto, mutante e importantíssimo para tantas grandes marcas.”

Vale ressaltar a expressão “que influencia o consumo de milhões de adultos”. O mercado já descobriu que convencer crianças é muito mais eficiente do que persuadir os pais. Ou melhor: conseguindo o primeiro, tem-se o seguido como conseqüência direta da insistência infantil. O problema é que, diferente dos adultos – nem todos, claro -, as crianças tomam certas campanhas publicitárias como verdadeiras, muitas vezes não distinguem fantasia e realidade e trazem para si ideais de alegria, satisfação e realização baseadas no ter, no possuir.

Caso que merece ser lembrado é a decisão sobre a séria de comerciais de produtos da apresentadora Xuxa Meneguel pela marca Candide. Em 2008, uma decisão do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) suspendeu oito filmes publicitários de binquedos eletrônicos da chamada “rainha dos baixinhos”. A ação havia sido impetrada pelo Projeto Criança e Consumi, do Instituto Alana.

Entre outros argumentos, pesou o parecer psicológico da especialista Maria Helena Masquetti sobre os comerciais em questão. O documento, que integrou o processo, apontava que “por não terem a consciência crítica desenvolvida, as crianças não têm condições de compreender os ‘jogos de interesse’ embutidos nos comerciais. Por isso, tornam-se presas fáceis deste tipo de comunicação onde a empresa em questão sabe o que quer das crianças ao passo que essas não sabem que estão sendo manipuladas.” Diz ainda, a psicóloga: “Argumentar que as crianças de hoje são espertas para entender isso é admitir que a infância está sendo aviltada em favor da formação precoce delas enquanto consumidas.”

Se você é pai e se assustou com a dimensão que o assunto tomou, torne essa sensação em atitude, a começar por dar exemplo de valorizar o ser alguém em detrimento ao ter, ao possuir algo. Se você ainda não se convenceu, vale pesquisar, ler, assistir (sugestão: assista aos documentários “Criança, a alma do negócio” e “Crianças do Consumo”) e refletir sobre o assunto. Há uma equipe de profissionais da comunicação persuasiva se preparando invadir os veículos de comunicação de massa com estratégias de convencimento aos pequenos alvos do consumo. Algo precisa ser feito por quem cuida por um futuro menos calcado na posse. E essa, também, é uma conversa de gente grande.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de setembro de 2011]

 

Letra eletrônica, cérebro eletrônico, idiotice humana

Henrique França
@RiqueFranca

 

Há uma determinação no sistema educacional dos Estados Unidos para que as escolas abandonem o ensino e uso da chamada letra cursiva em detrimento ao aprendizado da escrita diretamente em sistemas eletrônicos binários – notebooks, tablets etc – ou, no máximo, a aceitação da letra de forma quando for realmente necessário usar lápis e papel. A proposta, que para muitos parece absurda, já ganhou a adesão de 46 dos 50 estados norte-americanos. A justificativa do sistema anticursivo é simples: preparar alunos cada vez mais ágeis e condicionados ao mercado de trabalho, ao engrandecimento econômico diante de crianças e adolescentes escolarizados de outras nações.

Afinal, o que essa postura estadunidense tem a ver com a terra brasilis? Simplesmente tudo, se tomarmos como parâmetro histórico a trajetória de subserviência econômica e a admiração cega ainda em curso pelo American Way of Life. Sim, estamos nos equilibrando nesse sentido, mas não são poucos os brasileiros que ainda sentem uma pontada de ‘inveja’ do País de Obama. Por isso, educadores brasileiros não apenas têm criticado a proposta norte-americana como debatido a questão de um possível direcionamento sobre o abandono da letra cursiva no Brasil.

Parece exagero, mas não é. A padronização do ensino pelos Estados Unidos cheira a uma espécie de neo-revolução, só que não industrial, mas intelectual, no sentido de moldar todo e qualquer produto de massa (aqui metaforicamente tidos como idéias e aprendizado) dentro de um sistema fabril. Dá pra imaginar todas as crianças aprendendo a ler e escrever em um teclado de computador, “descobrindo” as possibilidades da grafia a partir da paleta de fontes do editor de texto? Essa é a proposta.

Nos Estados Unidos, a recomendação de por fim à letra cursiva é do Common Core Stated Standards Initiative (CCSS, algo como Iniciativa a um Padrão Comum de Currículo), que enviou um texto às administrações estaduais norte-americanas com pérolas como esta: “com estudantes americanos preparados para o futuro, nossas comunidades estarão bem mais posicionadas para ser bem-sucedidas na competitiva economia global”. Apressados, os educadores do Tio Sam devem começar a transição para o eletrônico integral já a partir do próximo ano, abandonando a letra cursiva para se dedicar, como afirma o CCSS, a “áreas mais importantes”.

A fase de testes já começou. Nas escolas estadunidenses, metade dos alunos receberá livros didáticos convencionais e a outra metade receberá computadores ou tablets, exclusivamente. Ao final do ano, esses grupos serão avaliados e terão os resultados comparados. Quem tiver mais pontos, leva a melhor. Se a discussão fosse apenas a abolição da letra cursiva, por si só, renderia bons questionamentos. É o que garante a pedagoga e presidente da Associação Brasileira de Fonoaudiologia, Quézia Bombonatto: “quando a criança trabalha com a cursiva, tem que calcular, inclusive, o espaço entre uma palavra e outra. Como vai ficar o traçado dessa criança quando estudar a geometria? Como vai lidar com compasso ou esquadro, por exemplo, se não tiver capacidade motora?”

Mas a proposta norte-americana vai além disso. É a corrida mercadológica inserida descaradamente nas salas de aula. É a educação voltada para resultados, e resultados numéricos. Tudo é pontuação, concorrência, ganhos. Estamos longe disso no Brasil? Definitivamente, não. Nossas escolas, hoje, preparam desde crianças que mal sabem falar a adolescentes serelepes para uma passagem não de vida, mas de exames, de provas, uma corrida competitiva por uma boa colocação mercadológica, para ser o melhor – e o melhor, aqui, significa ter nota mais alta, ganhar o salário mais alto, ser o mais, sempre o mais.

Estamos de olho no modelo estadunidense, sem dúvida. Quem ainda não viu propagandas que atraem pais e alunos às escolas que dão tablets, que oferecem laboratórios de iPads? Você colocaria seu filho em uma unidade escolar que evidenciasse a formação do senso crítico, a solidariedade, o respeito mútuo? Teoricamente, sim. Na prática, todo mundo que ver seu filho sem notas vermelhas, dominando as novíssimas tecnologias e comemorando aprovações – mesmo que isso passe ao largo de ter um estudante formado para a vida em sociedade, para ser feliz, independente dos resultados mercadológicos que ele possa conquistar.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 28 de setembro de 2011]

O tempo da Justiça

Henrique França
@RiqueFranca

Quanto tempo dura uma ação na Justiça Brasileira? Ou melhor, quanto tempo o cidadão deveria esperar por uma resolução judicial em suas reivindicações? Respostas a essas questões não existem, de forma objetiva. Apesar de algumas tabelas de temporalidade tentarem determinar tempo mínimo e máximo para casos específicos, as fronteiras do tempo quando se fala em tramitação judicial vão-se alargando indefinidamente.

Para se ter uma ideia, em casos de separação litigiosa o processo envolvendo primeira audiência com o juiz, a tentativa de reconciliação, entrada no processo de separação, apresentação de defesas e provas, audiências de instrução de julgamento e finalmente o veredito final pode durar tempo suficiente para formar uma nova família. Moral jurídico-matrimonial: se tiver dúvidas, sonhar ou até imaginar uma separação, cogite a possibilidade de não casar! Você pode passar mais tempo nos tribunais tentando encerrar o relacionamento de forma legal do que curtindo a vida em um casamento não-oficial.

Quando o assunto é processo por danos morais, a morosidade é ainda mais danosa ao cidadão. Novamente variando de acordo com o tipo de processo, uma ação desse tipo pode se arrastar entre cinco e treze anos. Se você acha demais esse tempo, não perde por esperar: fatores diversos podem estender esse tipo de ação por até, pasmem, 30 anos ou mais. Trata-se de uma vida entre tribunais, argumentações, recursos, arquivamentos e reaberturas de processos e afins.

Não à toa a Justiça brasileira é tão criticada através do termo morosidade. A coisa é tão séria que até mesmo os chamados Juizados Especiais, criados para dar celeridade a processos específicos, têm sofrido com a lentidão. Apontar um culpado apenas é injusto. Na roda-viva-judicial-verde-e-amarela estão poucos juízes para tanto trabalho, a burocracia que engessa a instituição, a falta de informação da população sobre a quem, quando e onde recorrer corretamente, os interesses que envolvem as causas e atravancam processos, a ainda pouca transparência e sensação de serviço à comunidade e a pouquíssima postura de não acionar a Justiça simplesmente para tirar vantagem de alguma situação. Um caldeirão de motivos para uma sopa amarga de leis.

Por isso, não são raros os casos como o ocorrido no último dia 21, em Campina Grande. Ali, 17 anos se passaram até que o julgamento de um ex-funcionário do Detran, acusado de atropelar e matar uma menina de 11 anos, fosse concluído. O fato aconteceu em 1994, o caso até havia sido julgado em 2009 – quinze anos depois -, mas a defesa recorreu da decisão de condená-lo a reclusão e só agora, este mês, o homem foi julgado e condenado. Essa, aliás, é a primeira vez na história da cidade de Campina Grande em que um caso de acidente de trânsito é levado a júri popular e que o acusado é condenado.

Ocorrido em 30 de novembro de 1994, o acidente que vitimou a criança de 11 anos foi testemunhado por pessoas que afirmaram: a menina foi atingida pelo veículo conduzido pelo então funcionário do Departamento de Trânsito que, ainda segundo testemunhas, estava participando de um “pega” quando atingiu e matou a criança. Dezessete anos foram necessários para que a Justiça chegasse a um veredito.

                O caso chocou a cidade, que já havia esquecido o fato, até que o julgamento fosse novamente anunciado. A menina que começava a vida caminhou por 11 anos até ser atingida por um veículo em alta velocidade. Foi preciso quase o dobro de tempo de sua breve vida para que Justiça fosse feita. É justo esperar tanto tempo por ela?

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 27 de setembro de 2011]

Proteção para ciclistas, consciência para motoristas

Henrique França
@RiqueFranca

No Dia Mundial Sem Carro, pouco se falou sobre o uso da bicicleta como meio de transporte, no Brasil – pelo menos diante da ênfase no apelo ao uso dos transportes coletivos. E mais: diante do que se falou, menos ainda se praticou. Muito desse pouco confete sobre o assunto deve-se à simples falta de infraestrutura para viabilizar o tráfego de “magrelas” pelas ruas das cidades brazucas. Some-se a isso, o fato do brasileiro ainda pensar que carros potentes são sinônimo de status e de basearem sua auto-afirmação de acordo com a marca do veículo que ostentam em suas garagens. Via de regra, no País do samba e do futebol, andar de bicicleta é coisa de pobre.

Há um grupo considerável de pessoas mudando essa postura. Porém, como a vida sobre duas rodas imita a existência sobre quatro pneus, o que se tem visto pelas ruas das cidades são grupos em passeios noturnos sobre bikes caríssimas – algumas chegam a custar R$ 25 mil -, equipados como corredores do Tour de France, em uma clara demonstração de que, também sobre meios de transporte até pouco tempo destinado a classes mais populares, há elitismo. Não fosse assim, por que ciclistas em modelos tipo ‘barra circular’ ou as famosas ‘cecizinhas’ nunca despontam em um desses passeios noturnos?

Não há nessa constatação crítica ao agrupamento de ciclistas mais abastados, mas o fato é que há pouca mobilização em torno de quem usa o transporte não motorizado para ir ao trabalho, à escola, para se locomover diariamente não necessariamente em uma programação de lazer e passeio. Os centenas de ciclistas que descem as avenidas para ocupar os canteiros de obras, aqueles que vão deixar e buscar seus filhos na garupa da bicicleta, os que se arriscam nas avenidas mais movimentadas na volta para casa, no horário de pico, também precisam de proteção e garantias mínimas de tráfego seguro.

Essa segurança precisa estar além de uma escolta policial – prática comum durante os passeios ciclísticos noturnos. Para isso, são necessárias muito mais ciclovias em corredores que de fato façam o fluxo de bicicletas chegar a seu destino sem medo; são necessárias também campanhas que exijam do condutor motorizado, inclusive aqueles que manobram veículos de transporte coletivo, mais respeito a quem faz opção por não tomar o ônibus, por deixar o carro na garagem ou a quem sequer tem a opção de usar outro meio de transporte.

Estamos longe dessa realidade, mas a reflexão está sempre muito próxima dos que se predispõem a ela. E que esses predispostos sejam pessoas que têm o privilégio de promover a mudança, efetivamente: gestores, empresários, condutores. Aos que gostam tanto do glamour dos carrões, de sentir-se mais rico, mais poderoso ou desenvolvido ao conduzir motores superpotentes – mesmo que em avenidas precárias e com limite de velocidade muitíssimo abaixo da desenvoltura do veículo -, vale lembrar que países desenvolvidos, de fato, usam a bicicleta muito além do lazer e do esporte. Holanda, Inglaterra, Bélgica, Escandinávia, China, além de Itália e França têm dado demonstrações claras de como aliar transporte público coletivo, uso racional de carros e tráfego respeitoso de bicicletas.

O Brasil começa a descobrir o ciclismo como lazer, em via pública, no turno da noite, geralmente com escolta para que os participantes dos passeios não sofram qualquer dano. É preciso massificar essas andanças, mesmo que elitizadas, e transformá-las em prática cada vez mais comum. É preciso fazer entender ao motorista dos automotores que eles não são os personagens principais no cenário trafegário. Nosso País possui apenas 600 km de ciclovias. A Holanda, muitíssimo menor que o Brasil, conta com 400 km de vias para ciclistas. O Dia Mundial Sem Carro foi um passo. Falta uma longa jornada.

O Humor-horror de “Rafinha”? Basta!

Henrique França
@RiqueFranca

Os mais entusiastas podem torcer o nariz, classificar como caretice, mau-humor ou o que seja, mas a total falta de bom senso do jovem humorista Rafinha Bastos tem apenas consolidado a imagem de alguém que confunde fazer piada com tornar-se uma grande piada – e daquelas sem graça. Primeiro, o gaúcho que assume a bancada de um dos programas mais populares do Brasil e co-apresenta uma segunda atração, em rede nacional, foi chamado a depor diante da Polícia sob acusação de fazer apologia ao estupro.

Exagero? Bastos não só faz a “piadinha” em seus shows de stand-up como repetiu a pérola em uma entrevista à Revista Rolling Stone Brasil: “Toda mulher que eu vejo reclamando que foi estuprada é feia… ta reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade”. Piada feita, risada comemorada, ainda mais quando o caro Rafinha emenda: “Tem que dar um abraço nesse cara. Ele está fazendo um favor a essa mulher” Em depoimento à polícia, o humorista disse que foi uma encenação, nunca havia dito isso em uma conversa séria. Sério?

Não bastasse o episódio amplamente conhecido, há poucos dias Bastos voltou a ser notícia por suas tiradas do tipo “melhor ficar calado”. O comediante declarou no ar, em rede nacional, ao vivo, que “comeria” a cantora Wanessa Camargo e seu bebê. Detalhe: Wanessa está grávida de cinco meses e o comentário de Rafinha veio depois de um elogio que um de seus colegas de bancada fez à artista. “Eu comeria ela e o bebê”. Engraçado, não?

Tem mais. Novamente em rede nacional, cheio de ‘graça’, o humorista chamou a apresentadora Daniela Albuquerque de “cadela”, depois da moça aparecer em um quadro do programa onde Bastos literalmente destila seu péssimo repertório. A cena aconteceu depois que Daniela, assistida por Rafinha e seus parceiros de bancada, pronunciou errado a palavra Octógono. Na volta à bancada, o apresentador, cheio de razão não se limitou a rir da escorregada de Daniela, mas disparou: “Se fosse eu já dava uma cotovelada: ‘É octógono, cadela!’ Põe esse nariz no lugar”. Tudo para o deleite de seus fãs, que não são poucos.

Há poucos dias Rafinha Bastos fez sessões extras em shows pela Paraíba – o mesmo acontece em vários outros Estados brasileiros. São jovens que pagam para ser insultados, direta ou indiretamente. A menina que reclama de ser chamada de vadia e ordinária em uma ‘música’ funk ou no “forró de plástico”, por exemplo, é a mesma que paga, e caro, para rir com alguém que quer abraçar um estuprador pelo favor feito à mulher feia que foi violentada. O rapaz que diz respeitar sua namorada, que preza pela valorização da própria mãe aplaude de pé o Bastos que brinca de cotovelar colegas de profissão. Tudo muito engraçado, não?

Não, não é engraçado. Escorregar na piada ruim é compreensível. Manter-se com razão diante dela, se considerar perseguido por isso e retomar o tema, em novas tiradas machistas e desrespeitosas é inadmissível. Quem acompanha a trajetória de Rafinha Bastos na TV enxerga no rapaz alguém que, pelos olhares e palavras de duplo sentido, se mostra um sedutor às avessas, na corda bamba entre rude e inteligente. Será? Pelo visto, diante de tantas declarações anti-femininas, Bastos parece não apenas incompreender o valor das mulheres como se mostra um tanto quanto averso a elas.

Declarações como essas, aliás, podem até mesmo tirar o riso da face do humorista “perseguido”. Mas, qual? O assunto é sério, merece reflexão e não pode ser tratado como moeda de audiência – e, infelizmente, isso parece estar dando audiência. As baboseiras de Bastos foram parar no The New York Times. Bom pra ele, não? A questão que se coloca é: isso é bom para o humor brasileiro? Isso é bom para o telespectador, para os jovens que se espelham nele? Parece mesmo que o modelo apelativo chegou ao chamado “humor inteligente” dessa turma. E tem quem pague para ser xingado ou para assistir à execração pública de outros. Que diferença há nessa atitude diante dos programas chamados sensacionalistas, que nos mantêm sentados na poltrona em troca de corpos expostos na telinha? Por essas e outras, Rafinha, basta!

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 23 de setembro de 2011]

‘Na cidade sem meu carro’ e a sensação de pertencimento

Henrique França
@RiqueFranca

Vários países do mundo se unem, hoje, para provocar a idéia de substituir o uso excessivo de transportes automotores individualistas ou reducionistas por meios de transporte coletivos ou não poluentes como bicicletas. Assim, narrado, o Dia Mundial Sem Carro harmoniza-se perfeitamente com o foco no desenvolvimento sustentável que tanto ouvimos falar nos noticiários, nos debates, nas escolas. Na prática, porém, a coisa é bem mais complexa e sacrificiosa do que sugere o nome da campanha.

Se na França, onde o Dia foi instituído há 13 anos, a data merece destaque anual, como um lembrete aos franceses de que é preciso persistir na idéia, imaginem no Brasil, onde as vozes estranhas que pediam a interrupção do uso do carrão começaram a soar bem pouco tempo atrás e ainda causam risinhos entre os condutores que preferem os estressantes engarrafamentos a uma alternativa mais coletiva ou inteligente de locomoção.

Novamente, falando assim é bonito, digno, mas pouco praticável. Ainda mais complexo, no Brasil talvez a maior dificuldade para uma adesão integral ou massiva ao Dia Mundial Sem Carro esteja na opção de substituição do veículo próprio. O sistema de transporte coletivo tupiniquim, via de regra, deixa e muito a desejar. Veículos sucateados, horários irregulares, superlotação e motoristas que não raro confundem passageiros com gado. Isso vale para ônibus, metrôs e até mesmo transportes fluviais – os poucos que subsistem no País.

Na Paraíba, onde a Capital entra pela primeira vez hoje na iniciativa mundial, uma mudança no nome da campanha chama a atenção. Em João Pessoa, hoje é dia de aderir ao Dia Mundial Na Cidade Sem Meu Carro. Interessante refletir sobre o sentido de pertencimento dessa frase. A premissa é simplista, mas pouco aprofundada: ao deixar em casa o “meu” carro, estou avisando que preciso de uma alternativa que responda a essa necessidade de posse. Não exatamente no sentido de sentir-se dono de um ônibus ou metrô, mas de sentir-se parte, de sentir-se importante, como passageiro entre tantos outros, tomar para si o “meu” sistema de transporte coletivo.

Eis a complexidade. O transporte coletivo é de todos, não pertence a um, e mesmo assim a sensação de pertencimento precisa existir. Só dessa forma adotaremos, integralmente, a mudança. Aqui, talvez, fosse mais coerente nomear a campanha assim: “Na Minha Cidade, Sem Carro”. Tira-se a idéia de que vou abrir mão de um bem particular e coloca-se o foco, a posse, no pertencer à cidade. Assim, não estou sendo prejudicado por ficar sem “meu” carro, mas contribuo para o bem-estar da “minha” cidade.

Ainda assim não é fácil, mas é um primeiro passo. Em João Pessoa, aliás, essa estréia tem sabor de desafio: muita gente comentando a campanha, iniciativas anunciadas (fechamento de ruas apenas para pedestres, faixas exclusivamente destinadas a coletivos) e até o prefeito da Cidade anunciou, via Twitter, que irá trabalhar usando o transporte coletivo. Os que criticam puramente pela incapacidade de manterem-se calados não só sairão com seus fiéis companheiros de quatro rodas como voltarão para suas casas vociferando contra a iniciativa. Pena…

Em boa parte das cidades brasileiras, porém, algo precisa ser incentivado – até mais do que a adoção de transportes coletivos, talvez: o uso de bicicletas. Gratuita, não emite CO2, não faz barulho, contribui para o bom condicionamento físico, provoca muitíssimo menos acidentes. Seria o meio de transporte perfeito para os não preguiçosos ou fisicamente impossibilitados de seu uso. Porém, aqui temos um novo dilema: como sair de casa sobre duas rodas, não motorizado, e seguir em avenidas estreitas, sem sinalização específica, sem faixa liberada para as “magrelas”, sem o mínimo respeito pelo ‘cavalos’ que ocupam motores e volantes?

Não se pode mudar o mundo em um dia, mas é possível plantar uma semente em algumas horas e esperar tempo certo para sua colheita – dias, meses ou anos pela árvore e seus frutos. Porém, ajustes precisam ser feitos, melhorias pensadas. O transporte público ganha com isso – que melhore sua frota, o treinamento de seus funcionários; a cidade ganha com isso – que melhore os acessos, os corredores, abra faixas para coletivos e ciclistas; cada um de nós ganha com isso – que deixemos os carros em casa… ou, no mínimo, reflitamos sobre essa possibilidade futura. Até que essa sensação de pertencimento nos conquiste.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 22 de setembro de 2011]