Mais um ‘pequeno equívoco’ brasileiro

Henrique França
@RiqueFranca

Tudo não passou de um “pequeno equívoco” de quase R$ 8 bilhões. Foi assim que o ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), encarou a situação. O valor, em primeiro momento não contabilizado na proposta de Orçamento da União para 2012, está sendo requerido para garantir reajuste salarial de 14,79% aos ministros e nada menos que 56% aos servidores do Judiciário, a nata do funcionalismo público tupiniquim.

O Brasil é o País das desigualdades. Mais que isso, é a Nação dos extremos. Se em uma das pontas ministros e servidores do Judiciário exigem (e vão conseguir!) reajuste polpudo, na outra professores e servidores da educação recorrem às ruas para sensibilizar o coletivo popular em prol de suas causas: escolas de qualidade, melhores condições de trabalho, salários dignos. Se de um lado, agentes funerários paulistanos brigam por melhores vencimentos, do outro juízes determinam a volta ao trabalho a todo custo, sem um centavo a mais nos bolsos.

É notório, mas no extremo mais baixo da balança, sempre em total desequilíbrio, há uma enorme parte da nação reivindicando melhores condições em saúde, segurança, educação, alimentação, lazer – e melhores salários, sim. O curioso – pra não dizer vergonhoso – é que os quase R$ 8 bilhões sacados dos cofres públicos para manter o status de um já abastado salário-judiciário se equiparam a todo o montante no mesmo Orçamento da União solicitado simplesmente para a educação.

Está lá na proposta: R$ 8,5 bilhões é a previsão de investimentos do Ministério da Educação para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – que engloba construção de creches e escolas -, além das edições do Exame Nacional do Ensino Médio, investimentos na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e programa Ciência Sem Fronteira. E não há nesse valor, que fique bem claro, qualquer referência a reajuste salarial de professores ou servidores técnico-administativos – esse que, aos milhares, estão neste momento em greve Brasil afora, e que já receberam do Governo Federal um sonoro “não” aos anseios de melhorias no contracheque.

É fato que assunto dessa espécie não agrada. Talvez poucas pessoas cheguem ao final deste texto enfadonho em números, comparações e indignações. Por isso mesmo penamos como subalternos em um País riquíssimo para os ricos e injusto para os historicamente injustiçados. E não há aqui intenção ideológica em levantar bandeira de grupos religiosos, de raças, opção sexual ou legenda partidária. A convocação à reflexão é para todo e qualquer brasileiro que se sinte violado em sua dignidade com “pequenos equívocos” que assistimos todos os dias.

Você certamente ouviu, leu ou assistiu ontem nos noticiários: Brasil cresce menos no segundo trimestre, desemprego volta a assustar, ambulâncias que deveriam ser usadas no socorro público-hospitalar ficam paradas em pátios, sem uso. São “equívocos” que os ministros em seus trajes vistosos parecem não sentir na pele – e por isso talvez não se mostrem tão indignados quanto em relação aos seus constitucionais reajustes. Vale lembrar às excelências que saúde de qualidade, segurança de verdade, educação para todos e dignidade a qualquer brasileiro também são exigências constitucionais. Elas existem?

Ah, se pudéssemos espalhar os 11 ministros tão certeiros em suas conquistas para outros setores da sociedade. Já pensou Marco Aurélio Melo defendendo a Saúde, Carlos Ayres Brito lutando pela Educação, Joaquim Barbosa buscando conquistas na Segurança, Luiz Fux promovendo ganhos no lazer e a qualidade de vida do brasileiro, Ricardo Lewandowski priorizando as crianças, Carmem Lúcia conquistando reivindicações relacionadas à reforma agrária? Melhor ainda se Cezar Peluso desse embasamento constitucional a todos eles, consertando “pequenos equívocos” cometidos nessas áreas. Que sonho de Brasil!

Mas, não. A realidade no País é a de que enquanto o Judiciário se mantém como nata, aquela capa branca no alto do recipiente, um pó preto como borra de café busca sair do fundo do copo e chegar, quem sabe um dia, à superfície. No caldeirão-Brasil, esse pó remexido e equivocado por natureza somos cada um de nós, povo brasileiro.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 3 de setembro de 2011]

Anúncios

2 responses to this post.

  1. Posted by Massuelos de S Campos on 9 de setembro de 2011 at 2:16 pm

    excelente reflexão! Pena que poucos pensam assim… O nosso Judiciário sempre foi elitista mesmo. Uma breve visita aos seus “palácios”, luxuosamente construídos, são um retrato
    das diferenças em relação aos prédios das escolas públicas, por exemplo. Afinal quem são
    as pessoas que circulam em um e no outro? Não vamos sequer entrar no campo social,
    das decisões judiciais sempre a favor da elite e em dedtrimentos dos mais humildes, dos
    que lutam por um pedaço de terra…

    Responder

  2. Posted by anonimo on 11 de setembro de 2011 at 3:19 am

    Este é o Supremo Foderal, que também incentiva a apologia às drogas e a apologia ao sexo para crianças especialmente a partir da TV Sexo (gLobo).

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: