Missionários da desesperança

Henrique França
@RiqueFranca

No interior da Paraíba, um trio de malandros bem vestidos se passa por religiosos e, sob a promessa de distribuição de bênçãos, foge com R$ 1.500 de uma família esperançosa pela cura de um filho. Mil e quinhentos reais para extirpar uma doença. Boletim registrado na polícia aponta que um dos “missionários” alegou ser irmão do padre Marcelo Rossi.

Longe daqui, no bairro de Tatuapé, em São Paulo, um homem de 85 anos é acusado de abusar sexualmente de várias mulheres, que seriam fiéis de uma seita criada por ele, para sua própria veneração. Aldo Bertoni, o nome de “adorado”, é tratado como um profeta, uma divindade, mas parece bem humano: tem um local de cultos vigiado 24 horas e possui armas registradas em seu nome.

Não é de hoje que a massificação religiosa no Brasil e no mundo está atrelada à ignorância popular. Porém, se antes os “preparados” pelo sistema eclesiástico manobravam o rebanho ao bel prazer, hoje literalmente qualquer malandro consegue a mesma façanha, com o agravante de agredir, abusar e deixar nessas pessoas traumas irreparáveis.

A espiritualidade é algo inegavelmente inerente ao ser humano. Negar essa instância é como sorver apenas o lado físico e intelectual de um ser muito mais complexo e além da vã filosofia que nos move. Somos corpo, alma e espírito – muito mais aquele do que esses, há um bom tempo, conseqüência dessa mania de racionalizar tudo, como se a resposta fosse mais satisfatória que a pergunta.

Porém, confundir espiritualidade com pilantragem é algo tão comum que até mesmo quem professa de forma sincera um credo, uma direção dogmática, uma busca que transcende o solo que pisamos ou se sente envergonhado ou, no mínimo, incomodado. Os templos, sejam eles pertencentes a qualquer ‘bandeira’ religiosa, são vistos como balcões de serviços espirituais. Daí alguém acreditar que a cura de um filho possa custar R$ 1.500 ou a pretensa cura de um câncer sequer diagnosticado cientificamente exija submissão sexual a uma mulher – caso das investigações sobre Aldo Bertoni.

A igreja, não confundida com templo ou grupo social separado, constitui-se uma dos direcionamentos ligados à espiritualidade mais singulares. Usurpada em seu sentido primário, especialmente no cristianismo, igreja está ligada a reunião de pessoas ligadas entre si, respeitosas umas às outras, ouvintes umas das outras, família, corpo, unidade. Não à toa uma igreja começa em casa, entre pais e filhos, e só depois deveria ampliar esse grupo junto a outras pessoas, outros núcleos.

E mais: diferente do que se faz, atualmente e há muito tempo, igreja, da palavra grega ekklesia, traz dois radicais: ek, que significa ‘para fora’, e klesia, que significa ‘chamados’. Ou seja, a igreja deve ser voltada extramuros, para além-fronteiras, para onde outros precisem dessa família, desse auxílio, dessa unidade. É um ideal a ser perseguido, não um partido a ser temido ou um sistema inquisidor.

Enfim, religião não é moldura, tipo de roupa, obrigação ou punição. Religião é o religar com o divino. O conjunto de regras, os dogmas, as obrigações inseridas nesse contexto não são religião em seu sentido primeiro, mas doutrina. Coisa criada por homens, cheios de si, falhos, narcisistas e orgulhosos – muito até inescrupulosos, como o suposto irmão de Padre Marcelo Rossi e o suposto tarado de 85 anos que se protege como um banqueiro… ou um bandido.

Há, nesse contexto, muita gente correta e muito mais pessoas equivocadas, intencionalmente ou não, como em todo e qualquer grupo onde haja pessoas. Como saber? O problema é quando esse religare se volta para quem está diante, palestrando, pregando, empregando pessoas, impregnando maldades. Religião é religar com o divino. E nem Marcelo Rossi, nem Aldo Bertoni, nem quaisquer outros líderes dessa espiritualidade tênue e intocável, famosos ou não, são divinos. Também eles precisam dessa religação – e não raro até mais do que seu rebanhos.

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2 responses to this post.

  1. Infelizmente, até o divino hoje em dia é comercializado. Na verdade, toda crença que envolve o lado emocional das pessoas tende a ser alvo daqueles que querem obter vantagens em detrimento dos outros. É o político pilantra que faz uso de uma campanha de marketing de apelo emocional ou o novo profeta que difunde uma nova religião na base da picaretagem. É triste.

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  2. […] acredita, respeita e faz da busca pelo religare um objetivo do bem, para o bem. Exemplo disso é Aldo Bertoni, tido como profeta que realiza cultos em locais vigiados, possui armas registradas em seu nome e é […]

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