Deixa o Brasil se virar

Henrique França
@RiqueFranca

 

“Brasil, um País de todos”. Provavelmente a nação brasileira não tenha ostentado, ao longo de sua história, um slogan tão enganoso. Talvez a frase até alcance o descaramento do famoso “Pra frente, Brasil” – mas esse, pelo menos, tinha a justificativa do velho e ébrio clima de Copa do Mundo. Hoje, encarar a afirmativa “um País de todos” soa estranho, constrangedor, no mínimo irônico.

Comecemos pela própria definição básica do termo país: região, terra, território. A não ser que o “todos” do slogan oficial esteja travestindo usineiros, políticos ou celebridades, onde é mesmo que temos terra ou território para todos no solo brasilis? Legalmente, deveríamos todos ter acesso a terra, a propriedade. E não precisa ser um sem-terra para entender que a divisão das “parcelas” desse chão verde-e-amarelo está longe da ideia de coletividade impressa na frase do Governo Federal.

Estão na instância federal, aliás, as principais provas de que essas cinco palavrinhas enfileiradas por marketeiros experientes surgem como frases em lápides: já não significam nada para os mortos. Estamos bem vivos, sim, mas a nossa dignidade, os nossos direitos, as perspectivas jazem lentamente por gente que empunha bandeiras com expressões bonitas, como “Brasil, um País de todos”.

Exagero? Vejamos: enquanto se alardeia pelos quatro cantos que falta dinheiro para a Saúde, no País, ambulâncias enferrujam em pátios de hospitais e instituições. Pior: o assunto CPMF, aquela contribuição “provisória” que seria destinada à Saúde, volta à tona no baile do Congresso Nacional. Porém, a possibilidade de criação de um novo imposto dentro de uma das maiores cargas tributárias do mundo circula nos corredores e nos cafezinhos dos nossos parlamentares. Enquanto aqui embaixo o povo se pergunta de onde tirar para manter o “País de todos”, deputados federais e senadores fazem birra sobre o assunto: “Deixa o Senado se virar também para encontrar uma saída. Por que as notícias ruins só devem ser dadas pelos deputados?” – foi a ‘tirada’ do líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes.

Um novo imposto para uma saúde de morte? Recorramos à Justiça! Mas, qual? Está ali, no Judiciário tupiniquim, uma definição/sensação de País que beira o escárnio. Para o dicionário, juridicamente, o termo significa “conjunto formado de povo e território”. Para a supremacia justiceira brasileira, ele parece não passar de uma oportunidade de acumular proventos. Não fosse assim, o Supremo teria arrefecido em sua ânsia de reajuste que resultará no impacto de R$ 7,7 bilhões aos cofres públicos e, se assim for, implicará em retirada de verbas para programas sociais. Isso mesmo. O dinheiro necessário para pagar apenas reajustes ao Judiciário abocanha nada menos que metade dos gastos com o Bolsa Família previstos para 2012.

A prioridade, segundo o Governo Federal, é investir em Saúde, Educação e ações sociais. Mesmo assim, os ministros do Supremo consideraram a não inserção do felpudo reajuste um “pequeno equívoco”. Vale lembrar que o Judiciário é o Poder que mais onera os cofres públicos. Pergunta-se: por que não, ministros, abrir mão de um reajuste que saltará vossos salários de R$ 26.723 para ‘míseros’ R$ 30.675 em prol da Saúde, da Educação? E por falar em Educação, o País de todos até tenta ampliar vagas nas unidades de ensino, mas esquece que isso requer condições estruturais e intelectuais. A briga pela elevação do percentual do PIB de 5% para 10% para o setor é antiga e parece sem fim.

Mas o dinheiro da Educação (ou seria o da Saúde?) foi doado aos empresários, que ganharam do Governo Federal nada menos que R$ 25 bilhões em incentivos fiscais, incluindo nesse balaio de benefícios a indústria automobilística. A mesma que, agora, anuncia suspensão da produção de 30 mil carros e afastamento de 35 mil operários. Talvez tenham enviado muitos bilhões para lá e pouco para cá, para a base, que compra e faz mover a engrenagem econômica. Não há dúvidas de que o Brasil é um País à deriva. Como um grande navio que segue ao prazer de todos os ventos e humores do oceano.

Há timoneiros experientes guiando seus pequenos brasis, quem sabe para suas ilhas particulares ou até paraísos fiscais além-fronteiras. Desse ponto de vista, sim, o Brasil é o País de todos: de todos os políticos, de todos os ministros e de todos os grandes empresários subsidiados pelos donos do slogan mais engodo dos últimos tempos.

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One response to this post.

  1. Posted by Gustavo on 7 de setembro de 2011 at 3:06 pm

    Brasil il il

    Responder

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