Fome de Brasil

Henrique França
@RiqueFranca

A notícia na TV, inserida entre temas festivos, dicas de moda e belas jogadas de futebol, perdeu-se para os mais desatentos: 4 milhões de pessoas passam fome na Somália e 750 mil, grande parte crianças, podem morrer pela falta de comida até o final deste ano – isso significa cerca de 250 mil óbitos por inanição a cada mês. As imagens de crianças africanas subnutridas, comendo um farelo emergencial diante das câmeras e sem forças até para chorar sufocam o espectador. Mas é tudo tão distante que o mal-estar passa nos segundos seguintes, com a inserção de uma reportagem mais “leve”. Não passaria, provavelmente, se aquela fila de somalis à espera de farinha para sobreviver estivesse na esquina da nossa casa. Será?

As semelhanças entre Somália e Brasil vão além da descendência africana, da resistência física e do ritmo percussivo de danças e canções. Aqui, como lá, também há muita fome. Aliás, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em solo brasileiro há quase três vezes mais famintos do que no país africano para onde a mídia e o mundo se voltam agora: são 11,2 milhões de pessoas passando fome na terra do samba e do futebol. É como se uma rede de TV européia viesse ao Brasil coletar as imagens mais chocantes de crianças passando fome, de pais de família desesperados por alimentar sua cria e levasse para seus telespectadores esse número absurdo de miseráveis daqui.

Na fome e na dor, Brasil e Somália se reconhecem – pelo menos nas estatísticas. A imensa diferença entre esses países está na possibilidade de reversão desse quadro, de forma definitiva. Enquanto somalis enfrentam uma guerra civil, grupos extremistas que impedem até mesmo a chegada de mantimentos às comunidades mais pobres e a impossibilidade de evolução social e comercial, brasileiros ouvem diariamente comemorações oficiais a respeito de um tal superávit em crescimento, enfrentamento positivo à dita crise econômica mundial e muito dinheiro destinado a megaeventos que só beneficiarão uns poucos e envolverão, no trabalho e nas consequências, milhares.

O distanciamento perde-se no horizonte quando comparamos Brasil e Somália em termos de produção de alimentos. Enquanto lá sequer há referência a números relacionados à agricultura, mesmo que de subsistência, aqui ocupamos o quarto lugar na produção mundial de alimentos. Produzimos em solo brasileiro 25,7% a mais do que seria necessário para alimentar toda a nossa população. Não à toa, e de forma louvável, o Governo Federal está doando 4,5 toneladas de grãos ao País africano.

Voltamos a nos encontrar na solidariedade, mas novamente nos afastamos pela vergonha. Vergonha de saber que, apesar do ranking extraordinário na produção de alimentos, da certeza de que alimentaríamos toda a nossa população apenas com o que é plantado e beneficiado dentro do País, o Brasil ridiculariza sua riqueza com um dos piores índices de desperdício de alimentos do mundo. Estima-se que consumidores, instituições, empresas e até grandes produtores rurais juntos deixam estragar ou sequer utilizam 26,3 milhões de toneladas de alimentos por ano, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

O lixo de nossas residências também recebe uma quantidade constrangedora de nutrientes desperdiçados. Estima-se que 1/3 do alimento comprado pelo brasileiro vá para o lixo sem qualquer peso na consciência, mesmo que isso necessariamente pese no bolso. Detalhadamente, a Embrapa aponta que 14 milhões de frutas, hortaliças e grãos vão para os lixos anualmente. Para o Instituto Akatu o desperdício é ainda maior: 22 milhões de toneladas por ano – suficientes para alimentar 30 milhões de pessoas, ou o equivalente a R$ 4 bilhões em investimentos.

O Brasil tem fome, sim. Mas, muito além dessa carência física, há uma espécie de ‘inanição social’. Falta alimento educacional, faltam grãos de respeito ao meio ambiente, falta uma boa safra de políticas públicas de fato voltadas à distribuição equilibrada de renda, riquezas, alimentos. Os 11,2 milhões de brasileiros famintos de hoje estão colhendo os frutos amargos de uma história farta para poucos, desnutrida para a multidão. O País precisa de novas (se)mentes. O Brasil tem fome de um novo Brasil.

 

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 9 de setembro de 2011]

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3 responses to this post.

  1. Posted by Rafael Lucas on 9 de setembro de 2011 at 8:19 pm

    Rique! Excelente texto! Parabéns! Traz consciência de verdade, pode gerar ação…

    Abração! Vamos para o o2?

    Responder

  2. Posted by Newsalia on 9 de setembro de 2011 at 11:33 pm

    Muito bom! Principalmente o último parágrafo. O Brasil precisa mesmo de novas mentes e elas existem. Mas são poucas e sozinhas não semeiam…

    Responder

  3. Posted by Marcela Maria on 4 de setembro de 2012 at 9:48 pm

    Excelente! É conhecimento e entendimento para poucos. Infelizmente!

    Responder

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