Com quantos cliques se constrói um Brasil

Henrique França
@RiqueFranca

As redes sociais na Internet podem representar desconfiança para uns, exposição desnecessária para outros, faturamento para muita gente, amizade para milhares e vergonha para milhões. Nesse último grupo, não seria errado enquadrar os mais de 190 milhões de brasileiros envolvidos direta ou indiretamente em uma pesquisa realizada pelo I-Group, que monitorou o termo “Brasil” em oito diferentes regiões ao redor do mundo.

Ao todo, mais de 100 mil menções à palavra Brasil – incluindo variações como Brazil e Brésil – foram analisadas de fontes como as redes Twitter, Facebook e um universo de blogs espalhados pela web na Alemanha, Argentina, Estados Unidos, Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Itália. A intenção da pesquisa? Entender como os internautas desses países vêem o Brasil – e isso daria embasamento estratégico em como lidar com a nossa “marca” ao redor do mundo.

Diante dos resultados apresentados pelo I-Group o Brasil terá muito trabalho para consolidar seu nome com certa unidade e, pior, para retirar do imaginário internacional que este é um país de prostituição, pobreza e violência. Mesmo que isso tenha sua parcela de verdade, e longe de generalizações, sentir-se encarado por estrangeiros como um povo miserável que realiza combates pelas ruas e onde pessoas vendem seus corpos a gringos ricos que pagam por favores sexuais é no mínimo constrangedor.

Os “olhos maldosos” em relação à terra brasilis estão na Espanha, Estados Unidos, Itália, Inglaterra, Portugal e Alemanha. Para os espanhóis, somos o país da prostituição, além da festa e do futebol; para os norteamericanos temos a marca do sexo, da luta e da religião; Os italianos também encontram por aqui o sexo, mas acrescentam o futebol e as praias; ingleses são menos generosos: ao lado do futebol, marcam o Brasil com os termos ‘pobreza’ e ‘sexo’; portugueses citam a música e a programação televisiva, mas incluem na lista a criminalidade; e os alemães, apesar do ‘ecoturismo’ e do ‘futebol’, também nos encaram pela ótica da ‘violência’.

Apenas dois países deram ao Brasil termos não pejorativos: Argentina e França. Apesar da rixa nos gramados, nossos hermanos argentinos fixaram no país pentacampeão os termos “Futebol”, “Férias” e “Música”, enquanto os franceses marcam no mapa brasileiro as palavras “Música, Cultura e Futebol”. Vale dizer que a pesquisa é feita de forma a saber do entrevistado que ‘imagens’ vêm à mente do internauta estrangeiro quando ele pensa no Brasil. Ou seja: afora argentinos e franceses consultados aqui, os representantes dos outros seis países ainda guardam na mente os corpos esculturais das mulatas – vistas por eles como sexo fácil, mesmo que pago -, guerra nos morros, crianças morrendo de fome. Novamente, isso não é de todo inverídico – todo brasileiro sabe disso –, mas incomoda.

Enfim, outra constatação do levantamento do I-Group mexe diretamente conosco, é responsabilidade direta do próprio brasileiro. Pois é ele, até então incomodado com olhares forasteiros sobre o seu país, quem mais denigre o povo tupiniquim. O motivo é que a maior fonte de informações para turistas estrangeiros é o cidadão brasileiro – que, aliás, é quem mais fala mal do próprio País. Dia desses um jornalista do espanhol El País escreveu um artigo de nome “Por que não há indignado no Brasil?”. Foi feita menção a esse respeito neste mesmo espaço que você lê agora. Muitas pessoas se indignaram, sim, com o que leram – alguns se sentiram ofendidos com a postura invasiva do jornalista Juan Arias, do periódico espanhol.

O fato é que o mundo nos vê como somos: um povo bonito, em muitos sentidos – na ginga do drible, no rebolado da passista, na festa, na programação da TV, na música, na cultura; um povo feio quando da desigualdade como se vivêssemos entre dois mundos – o das festas e apoteoses com o gasto público e o universo de uma quase guerra civil nos morros, nas cracolândias, dos doentes morrendo nas portas de hospitais por falta de leitos; um povo que se acomodou, de forma geral, com a corrupção, mas que insiste, mesmo que em menor escala, na busca de alternativas para estruturar um país cada vez melhor. Somos um povo que ama sua terra, mas que não raro muda o discurso quando pisa no “primeiro mundo” ou mesmo conversa, de preferência na língua estrangeira, com algum cidadão desse solo mais desenvolvido. Somos bons o suficiente por nós mesmos, mas precisamos assumir isso – em voz e atitude.

Anúncios

One response to this post.

  1. […] – Com quantos cliques se constrói um Brasil […]

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: