Ecos da Independência

Henrique França
@RiqueFranca

                 Há exatamente uma semana o Brasil comemorou o dia 7 de setembro. Talvez, para muitos, a data não passou de um bom feriado, praia, futebol, cinema ou hora extra no trabalho. Para outros, mais cívicos, dia de rememorar a tal “independência” brasileira – as aspas são para lembrar que deixamos o jugo de Portugal para trás, mas um tal Estados Unidos ainda nos insiste em colonizar ideologicamente… detalhes.

Fato é que, paralelamente às manifestações militares, escolares, desfiles e solenidades realizadas País afora, o que se viu há uma semana foram ações paralelas de grupos políticos direcionados ou multidões sem bandeira partidária exigindo um Brasil mais justo e menos corrupto. Aos primeiros, cheios de merchandising com a Marcha contra a corrupção de Brasília, todo cuidado é pouco. Manifestações ditas populares encabeçadas por partidos elitistas cheira a manobra eleitoreira e cinismo.

Entre os que foram às ruas sem bandeiras político-partidárias uma semente de conscientização parece brotar, literalmente “independente”. Mas isso não foi fácil de ver. Quem não tinha partido, tinha a mesquinhez de reclamar em causa própria: opção sexual, grupos pró-aborto, religiosidade, enfim e apesar disso, na massa marchante algo foi feito, foi dito, reivindicado e gritado a quem quisesse ouvir.

No meio desse cenário de rebeldias – ou de cidadanias -, excessos de gente comparando a Marcha contra a corrupção à força das Diretas-Já ou ao impeachment de Collor de Melo e foco pé no chão com o onde se quer chegar: Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) apoiaram o movimento que se espalhou por 34 cidades em 17 estados brasileiros. O que querem esses neo-cara-(ainda não)pintada? O “aprimoramento” dos três poderes, maior transparência nos gastos do Governo Federal e aplicação irrestrita da Ficha Limpa.

Por falar em Ficha Limpa, uma petição pública para que a presidente Dilma escolha um novo ministro do STF que seja a favor da aplicação da Lei está correndo pela Internet desde o último dia 5 e já conseguiu quase 150 mil assinaturas em seis dias. Sob o nome “Dia da Independência da Corrupção”, o manifesto/petição pode ser assinado através do site WWW.avaaz.org.

Porém, marchas desse tipo não são tão incomuns no Brasil. Contudo, diferente de anos anteriores, alguns observadores mais atentos notaram algo estranho. No meio do fuzuê contra a corrupção não se via faixas, bandeiras ou quaisquer menções a entidades até então guerreiras por causas populares brasileiras. Ali não estavam a Central Única dos Trabalhadores (CUT), nem a liderança da Força Sindical, mesmo a União Nacional dos Estudantes (UNE) se fez ausente e, quem diria, deram por falta até mesmo do Movimento dos Sem-Terra, o barulhento, briguento e agora sumido MST.

A pergunta temerosa que se faz é: para onde foram os grandes grupos de combate à injustiça social brasileira, aos desmandos dos Poderes, ao escárnio montado estrategicamente em Brasília direcionado ao povo brasileiro? Uma voltinha rápida pela web – universo, aliás, onde se configuraram as marchas contra a corrupção de uma semana atrás – pode esclarecer tantas ausências.

Pela Força Sindical fica fácil, já que seu nome mais ilustre, o famoso Paulinho da Força, agora é deputado federal e até já foi ‘batizado’ em março deste ano, quando condenado pela Justiça a pagar R$ 1 milhão à União por suposta prática de improbidade administrativa. Assim, com que moral combater a corrupção? Com que força, Paulinho?

Já a UNE se uniu, literalmente, ao Governo Federal há algum tempo. Em 2008, por exemplo, a entidade recebeu R$ 4,4 milhões repassados pelo Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). Mas foi há pouco, no último dia 17 de julho, que o principal grupo estudantil brasileiro firmou relacionamento de papel passado e tudo com o Governo Dilma. A celebração foi consumada com a vitória de Daniel Iliescu para presidente da UNE. O novo presidente é ligado ao PCdoB e, para se ter uma idéia desse bom casamento, o congresso onde Iliescu foi eleito recebeu custeio de R$ 4 milhões via Petrobras.

                A insinuação de sobre esse romance UNE-Governo, claro, não agradou ao novo presidente da União: “O governo sempre financiou outras entidades e a imprensa nunca criticou”, declarou Daniel Iliescu. O problema é que, no momento em a UNE e demais entidades começam a receber agrados oficiais, sobem no telhado da “cautela” e jogam de lá toda a dignidade que escreveram ao longo da história. Vale uma nova marcha: abaixo a corrupção de quem se vendeu à corrupção.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 14 de setembro de 2011]

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