Escolas de bandidos e a glamourização de facções

Henrique França
@RiqueFranca

 

Falar em violência advinda do mercado de drogas é tarefa das mais difíceis. Primeiro porque temos, no geral, uma visão superficial e não raro preconceituosa da situação. Em parte porque o poder público sequer chega a essas instâncias de uma sociedade paralela, em parte porque a sociedade não marginalizada prefere fazer de conta que a situação não existe ou nem é tão grave assim. O problema começa a ficar grave, para todos, quando ações criminosas ligadas ao mercado de entorpecentes chega à chamada classe média – ou sai da margem para ocupar os centros urbanos e das atenções.

Esta semana, a ainda pacata cidade de João Pessoa assistiu estarrecida a cenas de vandalismo, ousadia e covardia por parte de supostos bandidos ligados a ditas facções criminosas da capital paraibana. Tantos pseudos-termos vem de uma certeza: não há provas de que as ações de bandidos em várias escolas da cidade foram arquitetadas por um grupo específico, com rótulo e tudo, ou a “lenda” começa na especulação e termina na premissa da mentira contada tantas vezes que se torna verdadeira.

O fato é que pelo menos oito escolas de João Pessoa suspenderam suas atividades esta semana depois de uma série de ameaças de invasões, vandalismos, tiroteios e mortes. Cenas cinegraficamente vergonhosas foram narradas pela imprensa local: dois homens armados, ligados a uma facção criminosa, invadiu o prédio do Lyceu Paraibano, talvez a escola pública mais tradicional do Estado, localizada no coração da Cidade, e ameaçaram estudantes.

Em bairros da periferia e da orla, notícias de que traficantes invadiriam as unidades escolares chegaram a diretores através de estudantes. O tumulto se espalhou, pais foram buscar seus filhos na escola, a polícia foi chamada e, novamente, aulas foram suspensas. Dia seguinte à onda de ameaças, uma escola amanheceu com focos de incêndio. A polícia suspeita que o fogo foi provocado intencionalmente. Existe um quê de mesquinhez nessas ações – ou mesmo no espalhar tais boatos. Até mesmo no universo do crime é notório certo ‘código de ética’. Escolas, hospitais, igrejas são, via de regra, poupados pela bandidagem.

O problema aqui talvez seja que, pelo que apontam os relatos em alguns casos, os criminosos também façam parte das escolas, como alunos que não respeitam seu próprio espaço – especialmente quando se fala em colégios localizados em bairros muito pobres, caso da maioria das escolas ameaçadas e fechadas esta semana. Alie-se a imaturidade e a ‘antiética’ dos novos bandidos à “glamourização” dispensada a eles através da imprensa. Ninguém garante que as ameaças de fato existiram, muito menos que os bandidos façam parte de facções com nomes internacionais em plena Paraíba. Mas dar nome, criar uma aura tipo ‘PCC’ ou ‘Comando Vermelho’ por aqui, vende.

Vale lembrar que o ex-traficante carioca João Carlos Gregório, “O Gordo”, que integrou o Comando, declarou abertamente que o grupo, que tinha até estatuto e foi criado em meados da década de 1970, nasceu com um ideal de justiça – à sua maneira -, mas desfez-se alguns anos depois e mantém, hoje, apenas a sombra de um CV que já não existe. Mesmo assim, quem convence a grande imprensa de que esses grupos de criminosos existem tão fortemente quanto dantes, como se fosse uma agremiação do mal? O mal existe, o tráfico mais ainda, a criminalidade tem crescido assustadoramente, mas dar “brilho” a esse segmento é fortalecer o que precisa ser desmontado.

Hoje, João Pessoa realiza a segunda edição da Conferência Municipal da Juventude. Com objetivo de fortalecer a política pública municipal de apoio à Juventude na Cidade, o evento traz como lema “Conquistar direitos para o desenvolvimento do Brasil” e busca caminhos para ações de combate à violência, de garantias de acesso do jovem ao mercado de trabalho e a espaços de lazer, cultura e educação. Eis um evento, com nome e objetivo preciosos, que deveria ser massivamente divulgado, incentivado, alardeado pelas ruas, nos veículos de comunicação, pelos formadores de opinião. Está na hora de deixarmos de lado o confete jogado sobre ações de bandidos – mesmo que em tom de ‘denúncia’ e exclusividade jornalística – e lançarmos luz sobre o que merece ser noticiado. Do contrário, corre-se o risco de transformarmos um faroeste factóide em realidade organizacional.

 

Para se inscrever – No portal da Prefeitura de João Pessoa disponibilizado um link para quem quiser participar da Conferência da Juventude. Basta clicar no banner do evento. As inscrições também podem ser feitas na Secretaria de Juventude, Esporte e Recreação (Sejer), na Avenida Camilo de Holanda, 890, Centro. O telefone é (83)3214-3065.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 16 de setembro de 2011]

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