Quanto mais rico, mais imposto paga!

Henrique França
@RiqueFranca

 

Parece um sonho de justiça, mas é bem real: um imposto que incide apenas sobre os mais ricos do País. Melhor: quem propôs o tributo não foi a população, através de marchas e mobilizações, nem organizações não governamentais, instituições ou algo do tipo. A determinação do ‘imposto dos ricos’ partiu do próprio governo, exatamente pelo ministério das Finanças, e para combater a crise. “Que país é esse?”, cantaria Renato Russo, roqueiro crítico do Distrito Federal, que teria sua pergunta frustrada em sua própria canção: não estamos falando do Brasil, “o País do futuro”.

A decisão de taxar sobre pessoas com ativos líquidos superiores a 700 mil euros em 2011 e 2012 foi tomada pela ministra Elena Salgado, da Espanha. Na verdade, o imposto espanhol sobre os mais abastados já existia e foi extinto em 2008. O motivo da retomada do tributo está no enfrentamento à crise econômica mundial. Quase ninguém gosta do comparativo, mas a pergunta vem de forma inevitável: igualzinho ao Brasil, não é?

Não, a Espanha não é o melhor país do mundo – longe disso -, nem serve como referência de justiça e igualdade. Porém, existe uma premissa – bíblica, por sinal – que deveríamos aprender antes de erguer o discurso pseudo-ufanista tipo ‘o Brasil tem problemas, mas quem são vocês para criticar!’: a premissa diz “examine tudo, retém o que é bom”. Ah, se entendêssemos isso como povo, como governo, como República, como indivíduos, seríamos bem melhores.

Mas, vamos reter o que é bom no exemplo espanhol. Por que o Brasil mantém uma taxa de impostos que massacra os menos abastados e sequer faz cócegas nos grandes ricos? Por que ficamos caladinhos quando os ricos justiceiros do STF exigem reajuste que onera o País do Carnaval em quase R$ 8 bilhões – o equivalente aos gastos totais com Educação, em um ano? Por que nosso dinheiro de tributos subsidia um setor automotivo em R$ 25 bilhões e agora esse mesmo setor avisa que vai aumentar os preços para sair de uma estagnação de mercado?

São tantos porquês que trazem angústia. Estamos diante de um momento importante no Brasil. São greves que se mantêm, são mobilizações via internet, são questionamentos outrora nunca feitos e mudanças na administração federal em uma velocidade jamais vista. Talvez o País esteja mudando, talvez estejamos retendo o que é bom das péssimas experiências de governos anteriores, de decepções anteriores. Talvez. Por enquanto, tudo parece não passar de um sonho em perspectiva e que merece participação real. Afinal, quem nunca sonhou com isso?

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 17 de setembro de 2011]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: