Saúde, Brasil!

Henrique França
@RiqueFranca

Está na Constituição Federal de 1988. O direito à saúde “é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução de riscos de doenças e outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Como se a Carta Magna não bastasse – e ela deveria bastar -, o preceito também está na lei 8.080/90, no artigo 2º: “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao sei pleno exercício.”

Mas, saúde mesmo, o brasileiro não tem – pelo menos não dispõe via “sistema”. O caos no setor público de macas pelos corredores de hospitais e ambulâncias enferrujando nos pátios em vários Estados brazucas tem empurrado o cidadão que deveria ser amparado pela Lei para a “lei do cão” dos chamados planos de saúde – que na verdade planejam apenas ganhar muito dinheiro.

Pois o absurdo da saúde no Brasil anda tão explícito que a população hoje está assistindo a mais um embate entre médicos e operadoras de planos de saúde – nome bonito para substituir algo como “empresas da saúde”, que pega muito mal, é verdade. No cabo de guerra entre os homens do jaleco branco e os empresários de caneta Mont Blanc, adivinhem quem será penalizado? Acertou quem gritou “o povo”.

Em todo o Brasil, cerca de 30 milhões de pessoas serão afetadas pelo protesto dos médicos às operadoras – que só “operam” financeiramente, porque quem entra na sala de cirurgia, mesmo, acaba levando uma esmola como pagamento. O motivo? Diante de aproximadamente 150% de reajuste pelo planos, os profissionais de saúde só vêem a cor de aproximadamente 50% do repasse por seus serviços. Para as bandas do Sudeste, o valor médio de uma consulta fica entre R$ 30 e R$ 60. Na Paraíba, descontados impostos, o doutor leva para casa nada menos que R$ 20, em média, segundo o Sindicato dos Médicos.

Apesar disso, enquanto médicos de nove Estados brasileiros protestarão contra todas as bandeiras de planos de saúde, na Paraíba apenas sete entraram na lista: Geap – Fundação de Seguridade Social, Smile, Amil, Norclínica, Sul América, Excelsior e Hapvida. Eram 15, no início dos trâmites e a queda no número de reclamadas deixa dúvidas sobre o envolvimento entre médicos prejudicados e doutores ligados às altas esferas das tais operadoras.

Vale ressaltar que, diferente do choramingo da gestão oficial sobre a falta de verbas para a saúde pública, os empresários dos “planos” ganham muito dinheiro para construir hospitais suntuosos, administrar milhares de médicos e unidades hospitalares Brasil afora. Para se ter uma ideia, através de mensalidades que variam de pouco mais de R$ 80 a valores superiores a R$ 1 mil, a Unimed gera anualmente receita de aproximadamente R$ 350 milhões, somente na Paraíba. Uma receita de fazer inveja a muitas “operadoras” de outros setores por aí. Mas a Unimed não será “protestada” hoje.

Enfim, a saúde brasileira já virou mercadoria faz tempo. O problema é que a mercadoria começa a azedar, os serviços começam a se mostrar insatisfatórios, o privilégio de um plano privado de saúde agora dá lugar ao que as pessoas vêm chamando de SUS particular. Essa é a segunda vez que os médicos paralisam suas atividades em protestos às operadoras. Pode não ser a única. Nos bastidores, há quem cogite uma desfiliação em massa dos doutores para alguns planos.

Mas, e o que fazer com os usuários desses planos, se eles foram definitivamente abandonados pelos médicos? Onde está toda aquela propaganda cheia de sorrisos, da família feliz, da garantia de atendimento, aparato de ambulâncias, helicópteros, cenas hollywoodianas cheias de atores vestidos de branco e com uma expressão de alegria em receber não mais clientes, mas pacientes. De fato, no Brasil, contar com atendimento médico público ou privado exige muita paciência… e uma boa dose de sorte.

 

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 21 de setembro de 2011]

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One response to this post.

  1. Posted by Gustavo on 21 de setembro de 2011 at 8:19 pm

    Saúde no Brasil não existe. A saúde pública é uma vergonha. Quem pode um pouco, vai para os planos de saúde que também são outra sacanagem. Quem pode muito, se trata fora do país ou em São Paulo. O Senador Cristovam tem um projeto de lei que obriga filhos de políticos a estudarem em escolas públicas. Quero ver alguém ter coragem de fazer um projeto obrigando políticos e seus dependentes a se tratarem somente pelo SUS. Essa nem o Senador Cristovam quer.

    Responder

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