‘Na cidade sem meu carro’ e a sensação de pertencimento

Henrique França
@RiqueFranca

Vários países do mundo se unem, hoje, para provocar a idéia de substituir o uso excessivo de transportes automotores individualistas ou reducionistas por meios de transporte coletivos ou não poluentes como bicicletas. Assim, narrado, o Dia Mundial Sem Carro harmoniza-se perfeitamente com o foco no desenvolvimento sustentável que tanto ouvimos falar nos noticiários, nos debates, nas escolas. Na prática, porém, a coisa é bem mais complexa e sacrificiosa do que sugere o nome da campanha.

Se na França, onde o Dia foi instituído há 13 anos, a data merece destaque anual, como um lembrete aos franceses de que é preciso persistir na idéia, imaginem no Brasil, onde as vozes estranhas que pediam a interrupção do uso do carrão começaram a soar bem pouco tempo atrás e ainda causam risinhos entre os condutores que preferem os estressantes engarrafamentos a uma alternativa mais coletiva ou inteligente de locomoção.

Novamente, falando assim é bonito, digno, mas pouco praticável. Ainda mais complexo, no Brasil talvez a maior dificuldade para uma adesão integral ou massiva ao Dia Mundial Sem Carro esteja na opção de substituição do veículo próprio. O sistema de transporte coletivo tupiniquim, via de regra, deixa e muito a desejar. Veículos sucateados, horários irregulares, superlotação e motoristas que não raro confundem passageiros com gado. Isso vale para ônibus, metrôs e até mesmo transportes fluviais – os poucos que subsistem no País.

Na Paraíba, onde a Capital entra pela primeira vez hoje na iniciativa mundial, uma mudança no nome da campanha chama a atenção. Em João Pessoa, hoje é dia de aderir ao Dia Mundial Na Cidade Sem Meu Carro. Interessante refletir sobre o sentido de pertencimento dessa frase. A premissa é simplista, mas pouco aprofundada: ao deixar em casa o “meu” carro, estou avisando que preciso de uma alternativa que responda a essa necessidade de posse. Não exatamente no sentido de sentir-se dono de um ônibus ou metrô, mas de sentir-se parte, de sentir-se importante, como passageiro entre tantos outros, tomar para si o “meu” sistema de transporte coletivo.

Eis a complexidade. O transporte coletivo é de todos, não pertence a um, e mesmo assim a sensação de pertencimento precisa existir. Só dessa forma adotaremos, integralmente, a mudança. Aqui, talvez, fosse mais coerente nomear a campanha assim: “Na Minha Cidade, Sem Carro”. Tira-se a idéia de que vou abrir mão de um bem particular e coloca-se o foco, a posse, no pertencer à cidade. Assim, não estou sendo prejudicado por ficar sem “meu” carro, mas contribuo para o bem-estar da “minha” cidade.

Ainda assim não é fácil, mas é um primeiro passo. Em João Pessoa, aliás, essa estréia tem sabor de desafio: muita gente comentando a campanha, iniciativas anunciadas (fechamento de ruas apenas para pedestres, faixas exclusivamente destinadas a coletivos) e até o prefeito da Cidade anunciou, via Twitter, que irá trabalhar usando o transporte coletivo. Os que criticam puramente pela incapacidade de manterem-se calados não só sairão com seus fiéis companheiros de quatro rodas como voltarão para suas casas vociferando contra a iniciativa. Pena…

Em boa parte das cidades brasileiras, porém, algo precisa ser incentivado – até mais do que a adoção de transportes coletivos, talvez: o uso de bicicletas. Gratuita, não emite CO2, não faz barulho, contribui para o bom condicionamento físico, provoca muitíssimo menos acidentes. Seria o meio de transporte perfeito para os não preguiçosos ou fisicamente impossibilitados de seu uso. Porém, aqui temos um novo dilema: como sair de casa sobre duas rodas, não motorizado, e seguir em avenidas estreitas, sem sinalização específica, sem faixa liberada para as “magrelas”, sem o mínimo respeito pelo ‘cavalos’ que ocupam motores e volantes?

Não se pode mudar o mundo em um dia, mas é possível plantar uma semente em algumas horas e esperar tempo certo para sua colheita – dias, meses ou anos pela árvore e seus frutos. Porém, ajustes precisam ser feitos, melhorias pensadas. O transporte público ganha com isso – que melhore sua frota, o treinamento de seus funcionários; a cidade ganha com isso – que melhore os acessos, os corredores, abra faixas para coletivos e ciclistas; cada um de nós ganha com isso – que deixemos os carros em casa… ou, no mínimo, reflitamos sobre essa possibilidade futura. Até que essa sensação de pertencimento nos conquiste.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 22 de setembro de 2011]

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4 responses to this post.

  1. Também concordo que existem dificuldades inerentes a prática de atitudes como essa, mas como você mesmo disse, se não pararmos um momento para refletir sobre o assunto, se mesmo em meio as dificuldades, não observarmos os erros e realizarmos pequenas práticas como essa no sentido da mudança, ficaremos como os tolos que discrentes de suas possibilidades desistem antes mesmo de tentar.
    Eu não tenho carro, mas confesso que o exercicio de todos os dias acordar cedo e sair de casa para o trabalho foi menos penoso hoje. Mesmo com as poucas adesões que tivemos ao movimento, o percurso que faço ao sair do bairro do Geisel e entrar na BR que normalmente leva em média 20minutos, hoje fluiu rápido e 20 minutos foi o tempo gasto com todo o percuso até o trabalho. Sabemos que é preciso bem mais, mas não podemos cruzar os braços e dizer simplismente que não dá, que é impossível, precisamos começar de alguma maneira.

    Abraço,

    Ley Freitas

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  2. Posted by Gustavo on 22 de setembro de 2011 at 4:06 pm

    João Pessoa é uma cidade que chegar a ser ridículo ter problema com transportes públicos. É uma cidade pequena em termos de dimensões territoriais e em número de habitantes. Outra vantagem de João Pessoa é que é uma cidade muito bem dividida, de forma que traçar rotas para levar massas ao trabalho e às universidades é fácil. E por que não dá certo? Falta vontade e coragem. Num dia como o dia mundial sem carro, avenidas como Beira-Rio, Pedro II e Epitácio Pessoa deveriam ter tráfego exclusivo para ônibus e faixas exclusivas para bicicletas. Quer ir de carro? Pegue outro caminho, o melhor e mais curto é para quem não vai usar carro. A cidade deveria investir mais em ciclovias funcionais, não apenas na praia, mas para que mais pessoas possam ir trabalhar de bicicleta, possam ir ao shopping de bike, para a universidade de magrela. Ou seja, possam ver na bicicleta realmente um meio de transporte e não uma atividade física apenas. Para o dia a dia, ônibus circulares facilitariam bastante a movimentação urbana. Não faz sentido todo ônibus que sai de um bairro distante ir até a Rodoviária.

    Mas a principal solução seria mesmo metrô ou trem urbano. Barato, rápido e realmente um transporte de massas. Mas isso não parece interessar nem aos empresários nem aos políticos pessoenses/paraibanos (que na verdade são os mesmos indivíduos em muitos casos).

    Vou deixar meu carro em casa sim, quando for melhor para a minha vida fazer isso.

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  3. Posted by GlauccoG1 on 23 de setembro de 2011 at 6:05 pm

    Na cidade sem meu carro, mas não chego a lugar algum e ainda corro risco de ser assaltado! NOVA CAMPANHA QUE FOMENTO!

    Responder

  4. […] – ‘Na cidade sem meu carro’ e a sensação do pertencimento […]

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