O Humor-horror de “Rafinha”? Basta!

Henrique França
@RiqueFranca

Os mais entusiastas podem torcer o nariz, classificar como caretice, mau-humor ou o que seja, mas a total falta de bom senso do jovem humorista Rafinha Bastos tem apenas consolidado a imagem de alguém que confunde fazer piada com tornar-se uma grande piada – e daquelas sem graça. Primeiro, o gaúcho que assume a bancada de um dos programas mais populares do Brasil e co-apresenta uma segunda atração, em rede nacional, foi chamado a depor diante da Polícia sob acusação de fazer apologia ao estupro.

Exagero? Bastos não só faz a “piadinha” em seus shows de stand-up como repetiu a pérola em uma entrevista à Revista Rolling Stone Brasil: “Toda mulher que eu vejo reclamando que foi estuprada é feia… ta reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade”. Piada feita, risada comemorada, ainda mais quando o caro Rafinha emenda: “Tem que dar um abraço nesse cara. Ele está fazendo um favor a essa mulher” Em depoimento à polícia, o humorista disse que foi uma encenação, nunca havia dito isso em uma conversa séria. Sério?

Não bastasse o episódio amplamente conhecido, há poucos dias Bastos voltou a ser notícia por suas tiradas do tipo “melhor ficar calado”. O comediante declarou no ar, em rede nacional, ao vivo, que “comeria” a cantora Wanessa Camargo e seu bebê. Detalhe: Wanessa está grávida de cinco meses e o comentário de Rafinha veio depois de um elogio que um de seus colegas de bancada fez à artista. “Eu comeria ela e o bebê”. Engraçado, não?

Tem mais. Novamente em rede nacional, cheio de ‘graça’, o humorista chamou a apresentadora Daniela Albuquerque de “cadela”, depois da moça aparecer em um quadro do programa onde Bastos literalmente destila seu péssimo repertório. A cena aconteceu depois que Daniela, assistida por Rafinha e seus parceiros de bancada, pronunciou errado a palavra Octógono. Na volta à bancada, o apresentador, cheio de razão não se limitou a rir da escorregada de Daniela, mas disparou: “Se fosse eu já dava uma cotovelada: ‘É octógono, cadela!’ Põe esse nariz no lugar”. Tudo para o deleite de seus fãs, que não são poucos.

Há poucos dias Rafinha Bastos fez sessões extras em shows pela Paraíba – o mesmo acontece em vários outros Estados brasileiros. São jovens que pagam para ser insultados, direta ou indiretamente. A menina que reclama de ser chamada de vadia e ordinária em uma ‘música’ funk ou no “forró de plástico”, por exemplo, é a mesma que paga, e caro, para rir com alguém que quer abraçar um estuprador pelo favor feito à mulher feia que foi violentada. O rapaz que diz respeitar sua namorada, que preza pela valorização da própria mãe aplaude de pé o Bastos que brinca de cotovelar colegas de profissão. Tudo muito engraçado, não?

Não, não é engraçado. Escorregar na piada ruim é compreensível. Manter-se com razão diante dela, se considerar perseguido por isso e retomar o tema, em novas tiradas machistas e desrespeitosas é inadmissível. Quem acompanha a trajetória de Rafinha Bastos na TV enxerga no rapaz alguém que, pelos olhares e palavras de duplo sentido, se mostra um sedutor às avessas, na corda bamba entre rude e inteligente. Será? Pelo visto, diante de tantas declarações anti-femininas, Bastos parece não apenas incompreender o valor das mulheres como se mostra um tanto quanto averso a elas.

Declarações como essas, aliás, podem até mesmo tirar o riso da face do humorista “perseguido”. Mas, qual? O assunto é sério, merece reflexão e não pode ser tratado como moeda de audiência – e, infelizmente, isso parece estar dando audiência. As baboseiras de Bastos foram parar no The New York Times. Bom pra ele, não? A questão que se coloca é: isso é bom para o humor brasileiro? Isso é bom para o telespectador, para os jovens que se espelham nele? Parece mesmo que o modelo apelativo chegou ao chamado “humor inteligente” dessa turma. E tem quem pague para ser xingado ou para assistir à execração pública de outros. Que diferença há nessa atitude diante dos programas chamados sensacionalistas, que nos mantêm sentados na poltrona em troca de corpos expostos na telinha? Por essas e outras, Rafinha, basta!

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 23 de setembro de 2011]

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8 responses to this post.

  1. ótimo texto Henrique,gostava até desse cara,mas depois de ler melhor sobre ele,mudei de ideia.
    Abraço.

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  2. Posted by Pianista on 23 de setembro de 2011 at 10:56 pm

    Excelente e oportuno texto. Eu nunca gostei desse cara. Sempre metido a sabe-tudo, expressa uma prepotência tão grande que chega a atrapalhar a comédia que supostamente ele faz. Bastos não sabe a diferença entre comédia e falta de senso moral. Ele não sabe o significado da palavra respeito, portanto, não tem moral para criticar aqueles políticos que tanto ele questiona no CQC.

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  3. Aplaudo de pé, Henrique. Fico indignada com a adoração cega a esse cara. Ele é a favor da liberdade de expressão? Acho que não. É a favor da liberdade dele de atacar as mulheres (como se já não sofrêssemos perseguições suficientes), disfarçando esses ataques de “humor”. Pior que ele ainda vai encontrar defensores que chamem de “humor inteligente”, ser sarcástico na hora de agredir não é ser inteligente. CQC que começou bem se tornou uma bela porcaria e está todas as semanas ajudando a reforçar velhos preconceitos. Isso é maneira uma nova maneira de fazer humor, é “revolucionar”? Para mim é só um novo jeito de manter a velha e retrógrada ordem machista e excludente à qual não queremos e da qual não precisamos.
    Ah! Seu texto precisa ir pro blog da Lola (ameaçada de processo por ter se revoltado contra a misoginia dos caras na história feia do comentário contra a amamentação)! escrevalolaescreva.blogspot.com

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  4. Posted by Gustavo on 27 de setembro de 2011 at 6:16 pm

    As pessoas que assistem CQC são as mesmas que assistem BBB. Não dá pra esperar muito delas. E muito menos há de se esperar dos que comandam esses programas. Em um país de analfabetos como o nosso, só nos resta lamentar e usar a tv apenas para jogar videogame ou ver um bom filme.

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  5. Ótima análise! Tive a infelicidade de passar numa livraria, aqui em SP, durante o lançamento de um DVD dele. Uma das “piadas” era mais ou menos assim: “Tinha problema de ejaculação precoce. Passei uma pomada de retardo no pinto. Só que, daí, meu pinto ficou tão retardado que eu matriculei ele na APAE”. Pesquisando no Google vc acha. Pra mim, ele é um psicopata. Abraço.

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  6. Posted by Mateus Freitas on 2 de outubro de 2011 at 12:02 am

    O texto até que foi bem escrito,mais não concordo acho ele um cara fántastico por conseguir fazer comédia em tudo até num assunto RUIM como o estupro, e te digo uma coisa se não prestasse não ia ter tanta gente pagando pra vê-lo…O cara é muito bom e esses textos,policia,justiça isso não vai dá em nada,ele vai continuar ganhando o dinheiro dele e tirando onda com tudo que puder … Abraço.

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    • Posted by Pianista on 2 de outubro de 2011 at 4:37 pm

      E vc acha que tirar proveito de tudo (dinheiro) é o correto? Isso tem feito bem a quem? Rafinha Bastos parece uma criança, desconhece os limites do que pode e não pode fazer. Se não há limites, então vivamos o anarquismo institucional e moral. Minha liberdade de expressão termina quando faço mal a alguém. Regra da boa convivência em sociedade. O problema é que essa própria sociedade está doente, e seu pensamento é apenas o reflexo dessa enfermidade.

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  7. Posted by Carla Quintas Vieira on 4 de outubro de 2011 at 8:19 pm

    Gustavo, não concordo qndo vc diz que ‘pessoas que assistem CQC são as mesmas que assistem BBB’. O CQC é um programa que preza o humor inteligente, diferente do Zorra Total por exemplo. Seus repórteres/humoristas, são formados, são antenados e sabem muito bem o que falam. Tiradas inteligentíssimas e respostas rápidas, deixam seus interlocutores, em sua maioria, sem saber como agir. O programa é muito bem comandado pelo jornalista Marcelo Tas, que está há anos no mercado. O problema é que o Rafinha Bastos realmente passa dos limites. Passa tanto, que os próprios colegas de bancada repudiaram suas últimas ditas ‘piadas’. Como disse a colega de trabalho dele, Mônica Iozzi, “Rafinha Bastos tem cãimbra na língua’, e o limite chegou a um ponto que a direção da Band se viu ameaçada pelos anunciantes. Vamos ver se agora com o afastamento do programa, Rafinha Bastos, se orienta. Ele já começa a perder contratos e a exposição na mídia vem diminuindo. Ele precisa de um ‘castigo’.

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