Proteção para ciclistas, consciência para motoristas

Henrique França
@RiqueFranca

No Dia Mundial Sem Carro, pouco se falou sobre o uso da bicicleta como meio de transporte, no Brasil – pelo menos diante da ênfase no apelo ao uso dos transportes coletivos. E mais: diante do que se falou, menos ainda se praticou. Muito desse pouco confete sobre o assunto deve-se à simples falta de infraestrutura para viabilizar o tráfego de “magrelas” pelas ruas das cidades brazucas. Some-se a isso, o fato do brasileiro ainda pensar que carros potentes são sinônimo de status e de basearem sua auto-afirmação de acordo com a marca do veículo que ostentam em suas garagens. Via de regra, no País do samba e do futebol, andar de bicicleta é coisa de pobre.

Há um grupo considerável de pessoas mudando essa postura. Porém, como a vida sobre duas rodas imita a existência sobre quatro pneus, o que se tem visto pelas ruas das cidades são grupos em passeios noturnos sobre bikes caríssimas – algumas chegam a custar R$ 25 mil -, equipados como corredores do Tour de France, em uma clara demonstração de que, também sobre meios de transporte até pouco tempo destinado a classes mais populares, há elitismo. Não fosse assim, por que ciclistas em modelos tipo ‘barra circular’ ou as famosas ‘cecizinhas’ nunca despontam em um desses passeios noturnos?

Não há nessa constatação crítica ao agrupamento de ciclistas mais abastados, mas o fato é que há pouca mobilização em torno de quem usa o transporte não motorizado para ir ao trabalho, à escola, para se locomover diariamente não necessariamente em uma programação de lazer e passeio. Os centenas de ciclistas que descem as avenidas para ocupar os canteiros de obras, aqueles que vão deixar e buscar seus filhos na garupa da bicicleta, os que se arriscam nas avenidas mais movimentadas na volta para casa, no horário de pico, também precisam de proteção e garantias mínimas de tráfego seguro.

Essa segurança precisa estar além de uma escolta policial – prática comum durante os passeios ciclísticos noturnos. Para isso, são necessárias muito mais ciclovias em corredores que de fato façam o fluxo de bicicletas chegar a seu destino sem medo; são necessárias também campanhas que exijam do condutor motorizado, inclusive aqueles que manobram veículos de transporte coletivo, mais respeito a quem faz opção por não tomar o ônibus, por deixar o carro na garagem ou a quem sequer tem a opção de usar outro meio de transporte.

Estamos longe dessa realidade, mas a reflexão está sempre muito próxima dos que se predispõem a ela. E que esses predispostos sejam pessoas que têm o privilégio de promover a mudança, efetivamente: gestores, empresários, condutores. Aos que gostam tanto do glamour dos carrões, de sentir-se mais rico, mais poderoso ou desenvolvido ao conduzir motores superpotentes – mesmo que em avenidas precárias e com limite de velocidade muitíssimo abaixo da desenvoltura do veículo -, vale lembrar que países desenvolvidos, de fato, usam a bicicleta muito além do lazer e do esporte. Holanda, Inglaterra, Bélgica, Escandinávia, China, além de Itália e França têm dado demonstrações claras de como aliar transporte público coletivo, uso racional de carros e tráfego respeitoso de bicicletas.

O Brasil começa a descobrir o ciclismo como lazer, em via pública, no turno da noite, geralmente com escolta para que os participantes dos passeios não sofram qualquer dano. É preciso massificar essas andanças, mesmo que elitizadas, e transformá-las em prática cada vez mais comum. É preciso fazer entender ao motorista dos automotores que eles não são os personagens principais no cenário trafegário. Nosso País possui apenas 600 km de ciclovias. A Holanda, muitíssimo menor que o Brasil, conta com 400 km de vias para ciclistas. O Dia Mundial Sem Carro foi um passo. Falta uma longa jornada.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 27 de setembro de 2011 at 6:11 pm

    Certíssimo. Infelizmente não se considera bicicleta enquanto transporte, e quem a utiliza como transporte está exposto e desamparado. João Pessoa tem tudo para ser uma cidade exemplar no Brasil no incentivo às bicicletas como transporte. Basta querer. Um passo legal seria transformar 1 faixa da Epitácio em exclusiva de bicicletas. Mas vão fazer o inverso. Vão criar mais uma faixa para automóveis. Vamos vivendo.

    Quanto as cecizinhas e barra circular em passeios ciclísticos, como ciclista iniciante posso afirmar que é preciso muita, mas muita perna para subir e descer ladeiras nelas.

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  2. Posted by Carla Quintas Vieira on 4 de outubro de 2011 at 8:01 pm

    Aqui em Curitiba, as coisas funcionam um pouco diferente. Quatro vias em obras, 18 quilômetros de ciclovias a mais na cidade. A malha está sendo ampliada seguindo o Plano Diretor Cicloviário elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) que orienta os projetos de urbanização e revitalização de ruas com infraestrutura cicloviária. O que vemos, é um canteiro de obras em praças, ruas, calçadas… mudanças de sentido das vias, fluxo do trânsito melhorando, e cada dia mais bicicletas, mesmo às 7hs da manhã, embaixo de um frio de 3 graus, por exemplo. Eu trabalho em uma empresa de comunicação corporativa, com pouco mais de 200 funcionários. Pelo menos, 40 deles já vêm de bicicleta. Lá, temos um estacionamento só para as ‘magrelas’. Um dos funcionários, tem mais de 50 anos, e vem firme e forte, pedalando da sua casa até a empresa. Sem problemas em ter que desviar de carros ou ônibus, já que ele segue à risca o caminho da ciclovia. Quem conhece Curitiba sabe que ela é cheia de ladeiras… mas isso também não impede que bikes, nem tão equipadas assim sejam vistas por ai. E basta dar uma pequena observada nas ruas nos fins de semana, que vai ver famílias inteiras em cima das bicicletas.. pai, mãe e filhos pequenos ou não.. todos passeando e tentando de uma certa forma, deixar a cidade menos poluída. Deixar o carro em casa e sair de bicicleta, aqui em Curitiba, definitivamente, não é coisa de pobre. É coisa de gente inteligente.

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