Letra eletrônica, cérebro eletrônico, idiotice humana

Henrique França
@RiqueFranca

 

Há uma determinação no sistema educacional dos Estados Unidos para que as escolas abandonem o ensino e uso da chamada letra cursiva em detrimento ao aprendizado da escrita diretamente em sistemas eletrônicos binários – notebooks, tablets etc – ou, no máximo, a aceitação da letra de forma quando for realmente necessário usar lápis e papel. A proposta, que para muitos parece absurda, já ganhou a adesão de 46 dos 50 estados norte-americanos. A justificativa do sistema anticursivo é simples: preparar alunos cada vez mais ágeis e condicionados ao mercado de trabalho, ao engrandecimento econômico diante de crianças e adolescentes escolarizados de outras nações.

Afinal, o que essa postura estadunidense tem a ver com a terra brasilis? Simplesmente tudo, se tomarmos como parâmetro histórico a trajetória de subserviência econômica e a admiração cega ainda em curso pelo American Way of Life. Sim, estamos nos equilibrando nesse sentido, mas não são poucos os brasileiros que ainda sentem uma pontada de ‘inveja’ do País de Obama. Por isso, educadores brasileiros não apenas têm criticado a proposta norte-americana como debatido a questão de um possível direcionamento sobre o abandono da letra cursiva no Brasil.

Parece exagero, mas não é. A padronização do ensino pelos Estados Unidos cheira a uma espécie de neo-revolução, só que não industrial, mas intelectual, no sentido de moldar todo e qualquer produto de massa (aqui metaforicamente tidos como idéias e aprendizado) dentro de um sistema fabril. Dá pra imaginar todas as crianças aprendendo a ler e escrever em um teclado de computador, “descobrindo” as possibilidades da grafia a partir da paleta de fontes do editor de texto? Essa é a proposta.

Nos Estados Unidos, a recomendação de por fim à letra cursiva é do Common Core Stated Standards Initiative (CCSS, algo como Iniciativa a um Padrão Comum de Currículo), que enviou um texto às administrações estaduais norte-americanas com pérolas como esta: “com estudantes americanos preparados para o futuro, nossas comunidades estarão bem mais posicionadas para ser bem-sucedidas na competitiva economia global”. Apressados, os educadores do Tio Sam devem começar a transição para o eletrônico integral já a partir do próximo ano, abandonando a letra cursiva para se dedicar, como afirma o CCSS, a “áreas mais importantes”.

A fase de testes já começou. Nas escolas estadunidenses, metade dos alunos receberá livros didáticos convencionais e a outra metade receberá computadores ou tablets, exclusivamente. Ao final do ano, esses grupos serão avaliados e terão os resultados comparados. Quem tiver mais pontos, leva a melhor. Se a discussão fosse apenas a abolição da letra cursiva, por si só, renderia bons questionamentos. É o que garante a pedagoga e presidente da Associação Brasileira de Fonoaudiologia, Quézia Bombonatto: “quando a criança trabalha com a cursiva, tem que calcular, inclusive, o espaço entre uma palavra e outra. Como vai ficar o traçado dessa criança quando estudar a geometria? Como vai lidar com compasso ou esquadro, por exemplo, se não tiver capacidade motora?”

Mas a proposta norte-americana vai além disso. É a corrida mercadológica inserida descaradamente nas salas de aula. É a educação voltada para resultados, e resultados numéricos. Tudo é pontuação, concorrência, ganhos. Estamos longe disso no Brasil? Definitivamente, não. Nossas escolas, hoje, preparam desde crianças que mal sabem falar a adolescentes serelepes para uma passagem não de vida, mas de exames, de provas, uma corrida competitiva por uma boa colocação mercadológica, para ser o melhor – e o melhor, aqui, significa ter nota mais alta, ganhar o salário mais alto, ser o mais, sempre o mais.

Estamos de olho no modelo estadunidense, sem dúvida. Quem ainda não viu propagandas que atraem pais e alunos às escolas que dão tablets, que oferecem laboratórios de iPads? Você colocaria seu filho em uma unidade escolar que evidenciasse a formação do senso crítico, a solidariedade, o respeito mútuo? Teoricamente, sim. Na prática, todo mundo que ver seu filho sem notas vermelhas, dominando as novíssimas tecnologias e comemorando aprovações – mesmo que isso passe ao largo de ter um estudante formado para a vida em sociedade, para ser feliz, independente dos resultados mercadológicos que ele possa conquistar.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 28 de setembro de 2011]

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3 responses to this post.

  1. Posted by Marcos Nicolau on 28 de setembro de 2011 at 1:29 pm

    Henrique , acabei de ler seu texto e sobre isso temos a seguinte questão: os pedagogos americanos não são inocentes a ponto de retirar uma atividade, como a escrita manual, da vida das crianças sem ter certeza de que estarão suprindo estas habilidades de outras formas. Eles têm uma série de outras práticas, como desenho, artes plásticas, bricolagens, um conjunto de atividades manuais que podem suprir o lado motor da escrita. Entretanto, as crianças continuarão exercitando a escrita, a interpretação, o pensamento abstrato proveniente do texto escrito. Somente o resultado final, comparativo é que vai dizer as consequências disso. Claro que, no Brasil, a realidade é completamente diferente e não podemos queimar etapas pelas quais eles passaram. Mas, vejo com bons olhos a inclusão de tecnologias que ampliam as capacidades humanas, contanto que sejam implementadas com responsabilidade.

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  2. Posted by Gustavo on 28 de setembro de 2011 at 8:25 pm

    Em termos de educação o Brasil está muito aquém dos EUA. Se tem uma coisa que nós poderíamos e deveríamos copiar dos americanos é a educação. Nós não temos em livrarias o q eles tem em bibliotecas, só para comparar o incomparável.

    Quanto a letra cursiva, qual o sentido dela se muito em breve não será necessário sequer assinar? Muito mais importante estimular a mente da criança com outras coisas.

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  3. Posted by Pianista on 11 de agosto de 2012 at 6:08 pm

    “Você colocaria seu filho em uma unidade escolar que evidenciasse a formação do senso crítico, a solidariedade, o respeito mútuo? Teoricamente, sim.”
    É verdade, mas só na teoria mesmo. A sociedade está doente. Não entendem “vida”, mas entendem “competição”, “lucro”. O povo esquece que a Grécia Antiga só era o que era porque valorizava o ser humano como um todo e não como uma máquina de “vitórias”. Como o Gustavo disse no comentário acima, precisamos imitar os americanos quanto à educação: mais bibliotecas, mais livros, mais leituras, menos corrupção, menos trabalho infantil.

    Eu estava vendo um video na TV Senado em que o o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, afirma que pelo menos 60% da população idosa no Nordeste é analfabeta. Quando analisamos isso na população mais jovem, chega a pelo menos 20%, no mínimo. Lembrando que no Brasil uma pessoa que apenas sabe escrever o próprio nome já é considerada alfabetizada. Se avaliarmos o número de analfabetos funcionais, só Deus sabe a porcentagem!

    Não está na hora de deixarmos as cursivas, mas já passamos da hora de educarmos nossos brasileiros de maneira eficaz!

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